31/12/2025
Infeliz Ano Velho!
Davi D. C.
Fim de ano
Pai dos desgraçados!
Ano Velho nem bem morre
Vivo ainda
Pulsante
Consciente
Já o matam
Já de véspera
Como um peru do natal.
Já comemoram sua morte.
Um velho inútil
Um peso a ser desfeito.
Causa pena ver
Um ano ainda cheio de vida
Abandonado para morrer.
Cuidasse dele e viveria muito
Muito tempo ainda
Talvez anos...
Oh famosa desumanização!
Pobre ano!
A ele sobram as desinfelicidades,
As culpas.
Ano Macunaíma:
Poderia ter sido mas não foi.
A ele as desgraças a serem esquecidas.
Os males humanos cabem a ele
Para serem esquecidos.
A ele as desfelicidades
a serem esquecidas
Se possível.
Ano Bandeira.
Um ano que poderia ter sido
Mas não foi.
Só lhe resta cantar um tango argentino.
Pai dos desgraçados!
A ele as desgraças.
Os sonhos,
Os desejos
Projetos que ainda podem ser,
O porvir,
Tudo creditado ao Ano Novo,
Que nasce
Como um prometido,
Como um messias
Que fará um novo testamento
Aos humanos.
Nasce cheio de esperanças
Desejos
Promessas
Ilusões.
Cheio de responsabilidades,
Cabe a ele trazer
Felicidade
Que o Ano Velho
Não trouxe,
Aquele velho incompetente.
Ano Novo...
(Pai dos desgraçados!)
As graças estão por vir
No prometido ano novo.
Eleito (ou preso?)
Pra satisfação
De meus desejos.
Humanos.
Ele, sim,
Gênio da lâmpada!
Todo poderoso!
Não será liberto
Se não cumprir
Meus desejos.
E o Ano Novo
Enche-se de p***a,
De gloria.
Tão ingênuo, coitado!
Não sabe de seu destino tirano...
De boi de piranha...
Um Cristo a ser crucificado
Para pagar nossas futuras infelicidades.
Ano novo, ingênuo!
Pensa que nasceu para ser rei,
Um herói,
Um Deus grego!
Quem sabe Zeus?
Ano novo...
Que pureza!
Um menino Macunaíma,
Nasce herói,
Não sabe do fim inglório
Que lhe está reservado
Pelos homens insaciáveis.
Mal sabe de seus últimos dias:
Também condenado a
Ser um ano Bandeira.
Morrerá de véspera
Pobre Ano Novo!
Já nasce velho
Com doença degenerativa:
Novo-Velho
Menino-Velho,
Pai dos desgraçados!
Definitivamente
O ano deve ser liberto
Como um gênio da lâmpada.
Deve ser abolido,
Um escravo, tadinho.
Queremos
Apenas o tempo
Presente
O instante-Cecília.
Morte ao calendário!
Aos meses!
Aos dias!
Às horas!
Aos minutos!
Desejos insaciáveis,
Humanos,
Vão as favas!
Liberdade ao ano
Da busca doentia
De felicidade,
De futuro,
Do desejo de ser eterno,
Que assassina todos os anos,
Sacrificados
Como oferendas
Ao desejo de eternidade.
Dignos de sacrifício aos deuses:
Virgens,
Anos virgens.
Choremos o Ano Velho
Choremos o Ano Novo
Choremos por suas almas!
Pais dos desgraçados,
Descansem em paz.
Amém.
(1985-2013 dc)