Baudelaire Pintor da Vida Moderna

Baudelaire Pintor da Vida Moderna Desejamos criar um espaço de reflexão sobre filosofia e arte. Baudelaire é o inventor da modernidade estética. Porque ele percebeu a força do que é contingente.

Porque ele sentiu a aceleração de seu mundo, a velocidade da transformação de seu tempo. Porque ele percebeu a não-linearidade da história e do progresso. Porque ele deu início, acima de tudo, a uma ética ou estética da exceção e da transgressão. Porque ele se insurgiu contra o tédio. Porque ele quis chocar uma moral burguesa anacrônica que idealizava os sentimentos humanos, a natureza, a pátria e

levar a profundos questionamentos sobre a alma humana. Porque nosso mundo, mais do que nunca, precisa de uma reflexão sobre o mal.

Um pouco de diversão crítica. 😂
11/06/2026

Um pouco de diversão crítica. 😂

26/03/2021

Aqui a proposta é mostrar como Hilda Hilst (1930-2004) dialoga com Charles Baudelaire(1821-67).
Nos versos finais do poema Ao Leitor no livro icônico do simbolismo e modernidade que coloco abaixo:

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos,
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.
Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais,
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais
Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra por prazer faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo;
É o Tédio! – O olhar esquivo à mínima emoção
Com patíbulos sonha, ao ca****bo agarrado.
Tu conheces leitor, o monstro delicado,
— Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!”

Hilda Hilst coloca nesta personagem o mesmo sentimento do poeta francês, o spleen

“Demônio​(Para Jesus)
- Meu Senhor, sempre me colocas em boas enrascadas. (Caminha até a janela, olha através das vidraças para o povo) O tédio... o tédio... e o tédio consome mais do que a fome e as batalhas. (Aproxima-se novamente de Jesus) Cuspiram em Ti, não Te conhecem mais. E não querem mais palavras. (Aproxima-se de Mao, Marx e Lenin) E esses três cheios de soberba, com suas fórmulas mecanicistas... também foram esquecidos. (Alisando o rabo) É preciso revivê-los. (Volta-se para Jesus, como se o ouvisse falar) Por quê? Por quê? Ora, meu Senhor, para que tudo se inicie novamente. Para que a luta continue. Convenhamos, dei-lhes uma esplêndida proposição. (Encantado) Lume... lume. (Ainda como se estivesse ouvindo uma fala de Jesus) O nosso contrato? (Comovido, aproximando-se de Jesus) Foi inútil... foi tudo em vão, em vão. Vê, senhor, a carne dos humanos está flácida, o ventre arredondado e volumoso. Pediram para comer. Está certo, está certo, mas bem que eu lhes dizia há tantos anos: está bem, a comida está bem, mas depois da comida o quê? (Sorrindo) Diziam que depois da comida, depois do ventre saciado, começaria um novo tempo. (Aproxima-se da janela, espia) Aqueles dois senhores ainda não chegaram. É difícil chegar até lá. Bem... começaria um novo tempo, diziam. (Olhando através da vidraças fixamente) Um tempo de nada, um tempo de nada. (Voz forte, repetindo palavras de outros) É preciso encher as barrigas! (Ameno) E como ficaram furiosos comigo... quando... (Resolve não continuar o pensamento) Chamavam-me de... (como se dissesse um palavrão) prematuro. Prematuro! (Imitando um humano) Tudo o que você fala é prematuro, sai, sai, primeiro a barriga e depois o resto. (Como se estivesse ouvindo Mao) Não, não, não, não, eu não acho que a necessidade (sorri) é necessária. Não, não me interprete burramente. Ap***s ouso dizer... ouso? (Olha em redor. Sorrindo) Bem, em nome da necessidade se batiam... e às vezes nessa luta eu tinha a esperança de que chegariam a se conhecer. Mas não foi mesmo uma ingênua esperança? (O Papa entra lentamente, olha ao redor. Algum tempo)”

Trecho do texto dramático de Hilda Hilst
A Morte do Patriarca

Quase um século separam esses artistas, mas a importância das referências faz de Hilda Hilst uma leitora voraz, que encontra no poeta francês o esteio necessário para construir a personalidade de um Demônio, que seduz o alto clero e os conduz para um novo começo, que coloca em xeque os sistemas que regem a vida dos seres humanos.
Porque “Nós temos medo de que o Velho Sistema, este em que vivemos,
​​​Pelas chagas abertas, pela treva
​​​Nos atire
​​​Para um Novo Sistema de igual vileza.” Hilda Hilst.

16/07/2020

Há muito tempo não publico nada aqui. Fico pensando, em tempos de politicamente correto, o quanto Baudelaire teria sido rejeitado e o quanto a poesia dele hoje chocaria os falsos bem pensantes. Nosso tempo não comporta mais o poeta ma***to e dele precisaríamos tanto.

Essa análise que a Marina Abramovic faz de sua experiência e que transcrevo abaixo contém uma passagem muito reveladora ...
20/04/2017

Essa análise que a Marina Abramovic faz de sua experiência e que transcrevo abaixo contém uma passagem muito reveladora sobre a humanidade. Por causa dessa passagem remeto ao texto de Baudelaire. Aos que quiserem comentar, qual é o trecho a que me refiro? Qual a relação com "Espanquemos os pobres" de Baudelaire?

“Esse trabalho revela algo terrível sobre a humanidade. Isso mostra o quão rápido uma pessoa pode ferir em circunstâncias favoráveis. Mostra como é fácil desumanizar uma pessoa que não luta, que não se defende. Ele mostra que, se você fornecer o cenário, a maioria das pessoas aparentemente “normais” pode se tornar verdadeiramente violenta”.

http://historiascomvalor.com/artista-corpo-objeto/

A artista Marina Abramovic acaba de lançar um de seus materiais mais controversos, chamado Ritmo 0. O trabalho foi realizado em 1974, no pequeno estúdio Mora em Nápoles, Itália. As fotografias dessa forma de arte têm chocado o mundo inteiro. Descubra o por quê! O trabalho era simples: Abramovic perm...

"Passemos em revista, analisemos tudo o que é Natural, todas as ações e desejos do puro homem natural, nada encontraremo...
14/07/2013

"Passemos em revista, analisemos tudo o que é Natural, todas as ações e desejos do puro homem natural, nada encontraremos senão o horror. Tudo o quanto é belo e nobre é o resultado da razão (...). A virtude (...) é artificial, sobrenatural(...)O bem é sempre o produto de uma arte.”
C. Baudelaire – Elogio da Maquiagem in O pintor da vida Moderna.

http://www.youtube.com/watch?v=U9C6J2Bqj8Q

Slavoj Zizek - E

18/05/2013

Sobre o Satanismo de Baudelaire.

A filosofia de Baudelaire gira em torno de três temas fundamentais: a metafísica, a moral e a estética. Nesse poema, principalmente a metafísica.

O poeta crê em Deus, mas sua relação é, com ele, ambígua. Crê no Deus misericordioso naquele que fez a lei e a liberdade, no "soberano que dá o livre arbítrio”. Mas não crê no Deus autoritário, que envia mestres para nos ludibriar quanto a nossa condição. Contra esse Deus, Baudelaire se insurge e prefere Satanás.

Em seus momentos de Spleen, Baudelaire identifica-se com a condição do anjo caído que também sofreu com o despotismo divino, incompreendido por todos. Satan está mais próximo dos homens e de sua condição. Isso cria a cumplicidade que se vê no Jogador Generoso.

Não podemos esquecer que essa metafísicia não é mística mas simbolista. Satanás é a força condutora do homem (ou do poeta) nesse mundo degradado. A força que torna o homem capaz de escolher. Nas flores do mal, diz o poeta, sobre o demônio:

“Ele me conduz, alquebrado e ofegante,
Já dos olhos de Deus, afinal, tão distante,
Às planícies do Tédio, infindas e desertas
E lança-me ao olhar imerso em confusão
Trajes imundos e feridas entreabertas
- o aparato sangrento e atroz da destruição”

O Demônio entende a humanidade, suas necessidades e pulsões. O Demônio entende até mesmo o absurdo das filosofias que apaixonam os homens e lhes conduzem, como quimeras “A cada um sua quimera”. O Demônio é a força motriz que pode fazer com que o homem lute contra a sua condição.

Deus representa, por outro lado, a autoridade e a Lei. Baudelaire, anti-conformista, não pode aceitá-la. Daí a “boutade” do final do Jogador Generoso que o faz, por hábito imbecil, pedir a Deus que obrigue o Diabo a cumprir sua promessa. A moral baudelairiana é, portanto, “satânica”, considera o livre arbítrio para toda a humanidade.

Um outro aspecto da obra de Baudelaire e que inspirará os poetas simbolistas é o gosto pelo Bizarro. De fato, a intimidade que caracteriza o romantismo leva Baudelaire a um gosto pelo único, pelo individual e pelo Bizarro. A etimologia da palavra Bizarro é incerta, diz-se que viria do árabe (basharet = corajoso, belo). O Littré francês dá a seguinte definição á época de Baudelaire: Bizarro que se distingue do gosto e dos usos comuns. Esse gosto pelo único é uma medida de inconformismo, a medida do que deve caracterizar o dandi.

“ O belo é sempre bizarro. (...) Invertam a proposição e tentem conceber um belo banal ! (...) Essa dose de bizarrice que constitui e define a individualidade!”
C. Baudelaire – Exposição Universal 1855.

O partido tanto das Flores do Mal como do Spleen de Paris é o de afirmar o bizarro, o único e o individual, é o de recusar terminantemente a norma estabelecida. É criar uma ética da exceção.

“Mesmo que esses homens sejam chamados indiferentemente de refinados, incríveis, belos, leões ou dandis (...) todos participam do mesmo caráter de oposição e de revolta; todos são os representantes do que há de melhor no orgulho humano, dessa necessidade, muito rara nos homens de nosso tempo, de combater e destruir a trivialidade.”

18/05/2013

O jogador Generoso

Ontem, no meio da multidão do passeio público, fui tocado de raspão por um Ser misterioso que sempre quis conhecer, e que reconheci na hora, sem jamais tê-lo visto antes. Ele devia nutrir um sentimento igual a meu respeito, pois ao passar por mim ele lançou um significativo piscar de olho, ao qual obedeci instantaneamente. Eu o segui com toda atenção e, em pouco tempo, desci atrás dele em uma casa subterrânea, deslumbrante, onde reinava um luxo ao qual nenhuma residência superior de Paris se comparava. Pareceu-me estranho que já tivesse passado tantas vezes ao lado deste refúgio esplendoroso, sem nunca ter visto sua entrada. Lá dentro, a atmosfera era rebuscada, embora inebriante, que fazia com que se esquecesse, quase de imediato, de todos os horrores repetitivos da vida; respirava-se uma beatitude sombria, parecida com aquela provavelmente experimentada pelos comedores de lótus quando – ao desembarcar em uma ilha encantada, iluminada pelas luzes de uma tarde eterna – eles sentiram nascer em si, ao som entorpecente de cascatas melodiosas, o desejo de nunca mais rever seus domicílios, suas mulheres, seus filhos, e de nunca mais subir nas elevadas ondulâncias do mar.

Havia neste lugar rostos estranhos de homens e de mulheres, marcados por uma beleza fatal; parecia-me já tê-los visto em épocas e países dos quais era impossível me lembrar exatamente, e eles me inspiravam uma simpatia fraternal ao invés deste temor que normalmente surge ao deparar com o desconhecido. Se eu quisesse definir de alguma maneira a expressão singular de seus olhares, eu diria que nunca havia visto olhos brilhando energicamente de horror do enfado e do desejo imortal de se sentir vivo.

Meu anfitrião e eu, ao sentarmo-nos, já erámos velhos e perfeitos amigos. Comemos, bebemos além da conta todo tipo de vinhos extraordinários e, fato não menos extraordinário, me pareceu – após várias horas – que eu não estava mais bêbado que ele. No entanto, o jogo – este prazer sobre-humano – havia interrompido nossas libações em intervalos diversos, e devo dizer que havia apostado e perdido minha alma, de alguma forma com uma despreocupação e uma leviandade heroicas. A alma é algo impalpável, quase sempre inútil e algumas vezes tão incômoda, que eu senti, quanto a sua perda, um pouco menos de emoção do que se tivesse perdido, durante um passeio, meu cartão de visita.

Fumamos demoradamente alguns charutos cujo sabor e perfume incomparáveis traziam à alma a nostalgia de países e felicidades desconhecidas e, inebriado com todas estas delícias, ousei, em um acesso de familiaridade que não pareceu aborrecê-lo, exclamar, com uma taça cheia até a borda: “À sua saúde imortal, Bode velho!”.

Falamos também do universo, de sua criação e de sua destruição futura; da grande ideia do século, quer dizer, do progresso e do aperfeiçoamento e, em geral, de todas as formas de vaidade humana. Sobre este assunto, sua Majestade contou inúmeras tiradas levianas e irrefutáveis, e se expressou com uma suavidade de dicção e uma tranquilidade nas brincadeiras que eu nunca tinha encontrado em nenhum dos mais célebres contadores de casos da humanidade. Ele me explicou o absurdo das diferentes filosofias que tinham até então se apossado do cérebro humano, e chegou até a me fazer confidência de alguns princípios fundamentais, sobre os quais não me convém repartir os benefícios nem a propriedade com ninguém. Ele não reclamou em momento algum da má reputação que lhe é atribuída em todas as partes do mundo, me garantiu que ele era a pessoa mais interessada na destruição da superstição e me confidenciou que só teve medo uma vez, no que diz respeito ao poder que tem, no dia em que ouviu um pastor, mais sútil que seus pares, bradar ao púlpito: “Caros irmãos, não esqueçam nunca, quando vocês ouvirem elogiar o progresso das luzes, que o mais belo truque do diabo é de nos persuadir que ele não existe!”

A lembrança deste célebre orador nos conduziu naturalmente ao assunto das academias, e meu estranho conviva afirmou-me que ele não desdenhava, em muitos casos, inspirar a p***s a palavra e a consciência aos pedagogos e que assistia, quase sempre em pessoa’ embora invisível, a todas as sessões acadêmicas.

Encorajado por tantas atenções pedi-lhe notícias de Deus e se o havia visto ultimamente. Ele me respondeu com um misto de despreocupação e uma certa tristeza: “Nós nos cumprimentamos, quando nos encontramos mas como dois velhos cavalheiros, nos quais uma polidez inata não poderia extinguir completamente a lembrança de antigos rancores.”

É duvidoso que Sua Alteza tenha jamais dado uma audiência tão grande a um simples mortal e eu temia estar abusando. Enfim, quando a aurora estremecedora já embranquecia as vidraças, este célebre personagem, cantado por tantos poetas e servido por tantos filósofos que trabalham para a sua glória, sem o saber, me disse: ‘Quero que você guarde de mim uma boa lembrança, e desejo provar-lhe que eu, de quem falam tanto mal, sou às vezes bom diabo, para me servir de uma de vossas expressões vulgares. Para compensar a perda irremediável que você teve de sua alma, eu lhe propicio a aposta que você teria ganho se a sorte estivesse do seu lado, isto é, a possibilidade de se reconfortar e de vencer durante toda a sua vida essa bizarra sensação de tédio que é a fonte de todas as suas doenças e de todos os seus miseráveis progressos. Jamais haverá um desejo imaginado por você que eu não o ajude a realizar; você reinará sobre seus vulgares semelhantes, você será abarrotado de adulações e até de adorações; a prata, o ouro, o diamante, os palácios feéricos, virão procurá-lo e rogar-lhe aceitá-los sem que você tenha feito qualquer esforço para obtê-los; você mudará de pátria e de região tantas vezes quantas suas fantasias lhe ordenarem; você se embriagará de volúpia, sem lassidão, em países charmosos onde sempre fará calor e as mulheres são tão perfumadas quanto as flores — a cetera, et cetera..., acrescentou ele levantando-se e despedindo-se de mim com um bom sorriso.

Se não fosse o medo de me humilhar diante de tamanha assembléia, eu teria, voluntariamente, caído aos pés desse jogador generoso para agradecer sua espantosa magnanimidade. Mas pouco a pouco, depois que o deixei, a incurável desconfiança entrou em meu peito; eu não ousava mais acreditar em tão prodigiosa felicidade, e, ao deitar-me, fazendo minha prece num resto de hábito imbecil, repeti em semi-sonolência: “Deus meu! Senhor meu Deus, faça com que o diabo mantenha sua palavra!”

30/04/2013

Projéteis - Charles Baudelaire.

"Deus é o único ser que, para reinar, não precisa sequer existir".

29/04/2013

Baudelaire e o feminino. Algumas pistas de reflexão.

Para Baudelaire, a mulher representa o único meio de escape dessa vida entediada. É através dela, do seu poder quase místico, que Baudelaire é transportado ao Universo das Correspondências, das formas perfeitas, dos paraísos idílicos, conforme já discutimos no post sobre o poema "Elevação" e "Perfume Exótico".

É justamente por isso que o poeta compara a mulher a Deus. Sobre ambos nada se tem a dizer, ambos são incompreensíveis. Deus por ser infinito e a mulher por não ter nada a comunicar. Sim, é claro que surge aqui um elemento misógino. Mas, não nos apressemos: para Baudelaire a mulher nada tem a dizer ou é um ser b***o (metaforicamente) porque, como um ídolo, uma imagem, todo seu sentido se encerra nela mesma, não há explicação possível, nem necessária, não se deve passar pela razão, não se precisa passar pela razão.

Baudelaire, certamente, queria chocar, queria continuar sendo a "Faca e o talho atroz", aquele que fere e se fere por suas próprias mãos. Aquele que chama para si todos os clamores, todas as revoltas de um mundo entediado (spleen). Mas essa é uma postura muito bem elaborada.

Não acreditamos na psicanálise de mesa de boteco, segundo a qual, a mulher seria para Baudelaire um ser ameaçador por causa de suas relações com a mãe. Baudelaire, de fato, não aceita o segundo casamento da mãe, filho pródigo é colocado sob tutela. É evidente que ele se sente rejeitado e isso é algo fundador na sua experiência de vida e fundamenta uma certa tendência à repetição da dor, como meio de constituir uma identidade. Identidade que está, constantemente, à beira da fragmentação, do estilhaçamento.

Mas Baudelaire tem a arte. É muito complicado usar categorias da clínica psicanalítica para interpretar pulsões sublimadas. Talvez, a sublimação seja o maior desafio, em termos heurísticos, para a psicanálise. Pois a produção que dela floresce transforma não só o indivíduo, mas o mundo.

Baudelaire queria levar ao paroxismo a sua individualidade como poeta romântico, queria expor à burguesia da época um espelho para a alma humana, mesmo em seus mais secretos desejos e pulsões. Afinal, em "Ao Leitor", já analisado anteriormente, ele nos convoca, chamando-nos de seus irmãos.

Não nos esqueçamos que Baudelaire é um sobrenaturalista. Ele não acredita na idealização de tudo o que é desse mundo. Ele ap***s crê na arte, ou seja, na sublimação. A verdadeira beleza está aí. É por isso que ao final do texto "A mulher", Baudelaire entende que os encantos femininos estão conectados à indumentária. Àquilo que transforma a natureza em uma obra de arte. Em perfeição. Só a sublimação artística e a produção artística são capazes de levar ao êxtase - ao sair de si mesmo, o que para Baudelaire era a única maneira de se aliviar do tédio de estar vivo.

A separação entre arte e natureza, análoga à separação entre ciência e natureza é um subproduto da modernidade ocidental. Curiosamente, Baudelaire assume uma posição muito próxima à interpretação católica da queda, ou seja, o homem é expulso do paraíso para cair nessa terra, onde a natureza, inclusive a humana está corrompida pelo pecado original. Mas a esse tema retornaremos em outro momento.

Duas pequenas passagens ilustram o sobrenaturalismo baudelairiano:

O elogio à maquiagem em "O pintor da vida moderna".

"A maior parte dos erros relativos ao belo nasce da falsa concepção do século XVIII relativa à moral. Naquele tempo, a natureza foi tomada como base, fonte e modelo de todo o bem e de todo o belo possíveis. A negação do pecado original contribuiu em boa parte para a cegueira geral daquela época. Se, todavia, consentirmos em nos referir simplesmente aos fatos visíveis, às experiências de todas as épocas e à Gazette des Tribunaux, veremos que a natureza não ensina nada, ou quase nada, ou seja, que ela obriga o homem a dormir, a beber, a comer, a se defender, bem ou mal, contra s hostilidades da atmosfera. É ela igualmente que leva o homem a matar seu semelhante, a devorá-lo, a seqüestrá-lo e a torturá-lo; pois mal saímos da ordem das necessidades e das obrigações para entrarmos na do luxo e dos prazeres, vemos que a natureza pode ap***s incentivar o crime. É a infalível natureza que criou o parricídio e a antropofagia, e mil outras abominações que o pudor e a delicadeza nos impedem de nomear. É a filosofia (refiro-me à boa), é a religião que nos ordena alimentar nossos pais pobres e enfermos. A natureza (que é ap***s voz do interesse) manda abatê-los. Passemos em revista , analisemos tudo o que é natural, todas as ações e desejos do puro homem natural, nada encontraremos senão o horror. Tudo quanto é belo e nobre é o resultado da razão e do cálculo. O crime, cujo gosto o animal humano hauriu no ventre da mãe, é originalmente natural. A virtude, ao contrário, é artificial, sobrenatural, já que foram necessários, em todas as épocas e em todas as nações, deuses e profetas para ensiná-la à humanidade animalizada, e que o homem, por si só, teria sido incapaz de descobri-la. O mal é praticado sem esforço, naturalmente, por fatalidade; o bem é sempre o produto de uma arte".

(...)

"A moda deve ser, pois, considerada como um sintoma do gosto pelo ideal que flutua no cérebro humano acima de tudo o que a vida natural acumula de gorsseiro, terrestre e imundo, como uma deformação sublime da natureza, ou melhor, como uma tentativa permanente e sucessiva de correção da natureza".

(...)

"A mulher está perfeitamente em seu direito e cumpre até uma espécie de dever esforçando-se em parecer mágica e sobrenatural (...)".

26/04/2013

Um do pontos mais polêmicos da obra de Baudelaire está na sua relação ambivalente com a mulher, ou mais precisamente, com o feminino. Uma ambivalência muito semelhante à que o poeta demonstra em relação a Deus.

Em Baudelaire, ambivalência é quase um eufemismo, pois há, em verdade, puro conflito e contradição. Das odes mais belas aos ataques mais violentos, não há compromisso quando se trata do feminino.

Mas, antes de discutirmos essa questão - discussão que, certamente, provocará as mais intensas paixões - antes de condenarmos, mais uma vez, o poeta ma***to, propomos uma leitura que leve em consideração, não a mulher, o ser humano do s**o feminino, mas o significante mulher dentro de suas representações mais íntimas.

Na introdução, "O Belo, A moda e a felicidade" diz Baudelaire:

"Na verdade, esta é uma bela ocasião para estabelecer uma teoria racional e histórica do belo, em oposição à teoria do belo único e absoluto; para mostrar que o belo inevitavelmente sempre tem uma dupla dimensão, embora a impressão que produza seja una, pois a dificuldade em discernir os elementos variáveis do belo na unidade da impressão não diminui em nada a necessidade da variedade em sua composição. O belo é constituído por um elemento eterno, invariável, cuja quantidade é excessivamente difícil de determinar, e por um elemento relativo, circunstancial, que será, se quisermos, sucessiva ou combinadamente, a época, a moda, a moral, a paixão".

O feminino se inscreve, portanto, nessa reflexão sobre o belo, sobre o eterno e sobre o contingente. A mulher é metáfora, representação daquilo que Baudelaire ama e odeia, daquilo que ele rejeita com o intuito de ser repetidamente rejeitado e condenado.

Sendo assim, uma advertência: Ler Baudelaire em um sentido literal pode ser prejudicial à saúde. Pode causar taquicardia, irritação aguda, pode turvar a visão devido a um ódio visceral e gerar graves problemas cognitivos, mais conhecidos como emburrecimento.

Capítulo A MULHER em "O pintor da vida moderna"

"O ser que é, para maioria dos homens, a fonte das mais vivas e mesmo - admitamo-lo para a vergonha das volupias filosóficas - dos mais duradouros prazeres; o ser para o qual, ou em benefício do qual, tendem todos os seus esforços; esse ser terrível e incomunicável como Deus (com a diferença de que o infinito não se comunica porque cegaria ou esmagaria o finito, enquanto o ser de que falamos só é incompreensível por nada ter a comunicar, talvez); esse em quem Joseph de Maistre via um belo animal cujos encantos alegravam e tornavam mais fácil o jogo sério da política, para quem e por meio de quem se fazem e se desfazem as fortunas, para quem, mas sobretudo devido a quem os artistas e os poetas compõem suas jóias mais delicadas; de quem derivam os prazeres mais excitantes e as dores mais fecundantes; a mulher, numa palavra, não é somente para o artista em geral, e para Constantin Guys em particular, a fêmea do homem. É antes uma divindade, um astro que preside todas as concepções do cérebro masculino, é uma reverberação de todos os encantos da natureza condensados num único ser; é o objeto da admiração e da curiosidade mais viva que o quadro da vida possa oferecer ao contemplador. É uma espécie de ídolo, estúpido talvez, mas deslumbrante, enfeitiçador, que mantém os destinos e as vontades suspensas a seus olhares. Não é, digo eu, um animal cujos membros , corretamente reunidos, fornecem um perfeito exemplo de harmonia; não é sequer o tipo de beleza pura, tal como pode sonhá-lo o escultor nas suas mais severas meditações; não, isso não seria ainda suficiente para explicar seu misterioso e complexo fascínio. Winckelmann e Rafael não nos são de nenhuma utilidade aqui; e estou persuadido que C.G., apesar de toda extensão de sua inteligência (que se dia isso sem o ofender), desprezaria uma obra da estatutária antiga se tivesse que perder por isso a ocasião de saborear um retrato de Reynolds e Lawrence. Tudo que adorna a mulher, tudo o que serve para realçar sua beleza, faz parte dela própria; e os artistas que se dedicaram particularmente ao estudo desse ser enigmático adoram finalmente tanto o mundus muliebris quanto a própria mulher. A mulher é, sem dúvida, uma luz, um olhar, um convite à felicidade, às vezes uma palavra; mas ela é sobretudo uma harmonia geral, não somente no seu porte e no movimento de seus membros, mas também nas musselinas, nas gazes, nas amplas e reverberantes nuvens de tecidos com que se envolve, que são como os atributos e o pedestal de sua divindade; no metal e no mineral que lhe serpenteiam os braços e o pescoço, que acrescentam suas centelhas ao fogo de seus olhares ou tilintam delicadamente em suas orelhas. Que poeta ousaria, na pintura do prazer causado pela aparição de uma beldade, separar a mulher de sua indumentária? Que homem, na rua, no teatro, no bosque, não fruiu da maneira mais desinteressada possível, de um vestuário inteligentemente composto e não conservou dele uma imagem inseparável da beleza daquela a quem pertencia, fazendo assim de ambos, da mulher e do traje, um todo indizível? Parece-me que esta é a ocasião de retomar certas questões relativas à moda e aos adereços, que ap***s indiquei no começo desse estudo, e de vingar a arte do vestir das calúnias ineptas com que a atormentam certos amantes muito equívocos da natureza".

F**a, assim, o texto para os que quiserem comentar ou esbravejar. Em alguns dias, postaremos nosso entendimento, nossas construções.

Endereço

São Paulo, SP
05432070

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