18/05/2013
O jogador Generoso
Ontem, no meio da multidão do passeio público, fui tocado de raspão por um Ser misterioso que sempre quis conhecer, e que reconheci na hora, sem jamais tê-lo visto antes. Ele devia nutrir um sentimento igual a meu respeito, pois ao passar por mim ele lançou um significativo piscar de olho, ao qual obedeci instantaneamente. Eu o segui com toda atenção e, em pouco tempo, desci atrás dele em uma casa subterrânea, deslumbrante, onde reinava um luxo ao qual nenhuma residência superior de Paris se comparava. Pareceu-me estranho que já tivesse passado tantas vezes ao lado deste refúgio esplendoroso, sem nunca ter visto sua entrada. Lá dentro, a atmosfera era rebuscada, embora inebriante, que fazia com que se esquecesse, quase de imediato, de todos os horrores repetitivos da vida; respirava-se uma beatitude sombria, parecida com aquela provavelmente experimentada pelos comedores de lótus quando – ao desembarcar em uma ilha encantada, iluminada pelas luzes de uma tarde eterna – eles sentiram nascer em si, ao som entorpecente de cascatas melodiosas, o desejo de nunca mais rever seus domicílios, suas mulheres, seus filhos, e de nunca mais subir nas elevadas ondulâncias do mar.
Havia neste lugar rostos estranhos de homens e de mulheres, marcados por uma beleza fatal; parecia-me já tê-los visto em épocas e países dos quais era impossível me lembrar exatamente, e eles me inspiravam uma simpatia fraternal ao invés deste temor que normalmente surge ao deparar com o desconhecido. Se eu quisesse definir de alguma maneira a expressão singular de seus olhares, eu diria que nunca havia visto olhos brilhando energicamente de horror do enfado e do desejo imortal de se sentir vivo.
Meu anfitrião e eu, ao sentarmo-nos, já erámos velhos e perfeitos amigos. Comemos, bebemos além da conta todo tipo de vinhos extraordinários e, fato não menos extraordinário, me pareceu – após várias horas – que eu não estava mais bêbado que ele. No entanto, o jogo – este prazer sobre-humano – havia interrompido nossas libações em intervalos diversos, e devo dizer que havia apostado e perdido minha alma, de alguma forma com uma despreocupação e uma leviandade heroicas. A alma é algo impalpável, quase sempre inútil e algumas vezes tão incômoda, que eu senti, quanto a sua perda, um pouco menos de emoção do que se tivesse perdido, durante um passeio, meu cartão de visita.
Fumamos demoradamente alguns charutos cujo sabor e perfume incomparáveis traziam à alma a nostalgia de países e felicidades desconhecidas e, inebriado com todas estas delícias, ousei, em um acesso de familiaridade que não pareceu aborrecê-lo, exclamar, com uma taça cheia até a borda: “À sua saúde imortal, Bode velho!”.
Falamos também do universo, de sua criação e de sua destruição futura; da grande ideia do século, quer dizer, do progresso e do aperfeiçoamento e, em geral, de todas as formas de vaidade humana. Sobre este assunto, sua Majestade contou inúmeras tiradas levianas e irrefutáveis, e se expressou com uma suavidade de dicção e uma tranquilidade nas brincadeiras que eu nunca tinha encontrado em nenhum dos mais célebres contadores de casos da humanidade. Ele me explicou o absurdo das diferentes filosofias que tinham até então se apossado do cérebro humano, e chegou até a me fazer confidência de alguns princípios fundamentais, sobre os quais não me convém repartir os benefícios nem a propriedade com ninguém. Ele não reclamou em momento algum da má reputação que lhe é atribuída em todas as partes do mundo, me garantiu que ele era a pessoa mais interessada na destruição da superstição e me confidenciou que só teve medo uma vez, no que diz respeito ao poder que tem, no dia em que ouviu um pastor, mais sútil que seus pares, bradar ao púlpito: “Caros irmãos, não esqueçam nunca, quando vocês ouvirem elogiar o progresso das luzes, que o mais belo truque do diabo é de nos persuadir que ele não existe!”
A lembrança deste célebre orador nos conduziu naturalmente ao assunto das academias, e meu estranho conviva afirmou-me que ele não desdenhava, em muitos casos, inspirar a p***s a palavra e a consciência aos pedagogos e que assistia, quase sempre em pessoa’ embora invisível, a todas as sessões acadêmicas.
Encorajado por tantas atenções pedi-lhe notícias de Deus e se o havia visto ultimamente. Ele me respondeu com um misto de despreocupação e uma certa tristeza: “Nós nos cumprimentamos, quando nos encontramos mas como dois velhos cavalheiros, nos quais uma polidez inata não poderia extinguir completamente a lembrança de antigos rancores.”
É duvidoso que Sua Alteza tenha jamais dado uma audiência tão grande a um simples mortal e eu temia estar abusando. Enfim, quando a aurora estremecedora já embranquecia as vidraças, este célebre personagem, cantado por tantos poetas e servido por tantos filósofos que trabalham para a sua glória, sem o saber, me disse: ‘Quero que você guarde de mim uma boa lembrança, e desejo provar-lhe que eu, de quem falam tanto mal, sou às vezes bom diabo, para me servir de uma de vossas expressões vulgares. Para compensar a perda irremediável que você teve de sua alma, eu lhe propicio a aposta que você teria ganho se a sorte estivesse do seu lado, isto é, a possibilidade de se reconfortar e de vencer durante toda a sua vida essa bizarra sensação de tédio que é a fonte de todas as suas doenças e de todos os seus miseráveis progressos. Jamais haverá um desejo imaginado por você que eu não o ajude a realizar; você reinará sobre seus vulgares semelhantes, você será abarrotado de adulações e até de adorações; a prata, o ouro, o diamante, os palácios feéricos, virão procurá-lo e rogar-lhe aceitá-los sem que você tenha feito qualquer esforço para obtê-los; você mudará de pátria e de região tantas vezes quantas suas fantasias lhe ordenarem; você se embriagará de volúpia, sem lassidão, em países charmosos onde sempre fará calor e as mulheres são tão perfumadas quanto as flores — a cetera, et cetera..., acrescentou ele levantando-se e despedindo-se de mim com um bom sorriso.
Se não fosse o medo de me humilhar diante de tamanha assembléia, eu teria, voluntariamente, caído aos pés desse jogador generoso para agradecer sua espantosa magnanimidade. Mas pouco a pouco, depois que o deixei, a incurável desconfiança entrou em meu peito; eu não ousava mais acreditar em tão prodigiosa felicidade, e, ao deitar-me, fazendo minha prece num resto de hábito imbecil, repeti em semi-sonolência: “Deus meu! Senhor meu Deus, faça com que o diabo mantenha sua palavra!”