24/03/2013
Pensando junto com o Luis Carlos Moreira a respeito da eleição da Cooperativa Paulista de Teatro. (Ele que me dê licença)
Marco Antonio Rodrigues.
Estamos chegando ao fim do processo eleitoral para o Conselho Administrativo da Cooperativa Paulista de Teatro e um punhado de balanços vêm surgindo, circunstancialmente pretendendo esclarecer os indecisos de última hora. Entendo que a atitude seja muito oportuna mesmo, já que é um fenômeno relativamente inédito a presença de duas chapas nesta disputa, portanto devendo haver muita divisão de pensamento pendendo pra ali ou pra aqui. Somos uma pequena, sofrida e resistente comunidade, portanto o espirito tribal nos forma e conforma e o desconforto de perceber uma divisão em família é sempre difícil de lidar. Portanto voltar ao debate, colocar-se contra ou a favor de gente que comunga na mesma igreja, que freqüenta a mesma praia, é para mim um esforço grande. No entanto, alguns aspectos vitaminaram essa vontade, já que são aspectos com uma singularidade significativa. Um deles é o fato desta disputa entre chapas se dar de forma absolutamente sincera e respeitosa, sem violências de um lado e de outro, mas tentando na disputa de pensamento estabelecer a clareza. Ou seja, dá pra falar, discutir e argumentar sem que a sua mãe seja publicamente esculhambada.
Outro, o fato deste velho companheiro, o Luis Carlos Moreira ter agora se manifestado. Falo companheiro, pra não dizer irmão, porque estivemos juntos nas comissões de redação da Lei de Fomento, do Fundo Estadual de Arte e Cultura e do Prêmio Teatro Brasileiro. O Moreira está com a Chapa Berro, eu com a Chapa Acordes. Somos desde sempre companheiros fraternos porque o afeto, que é matéria politica e ideológica foi o que nos aproximou. Nunca nos escusamos de divergir e nem por isso nosso afeto foi abalado. Peço licença, pra divergir de novo com veemência.
Olha lá, há, no fundo do teu discurso um inconformismo radical com a presença de duas chapas. Como se uma chapa única fosse melhor que duas. Porque? Sempre entendi que qualquer processo eleitoral tem como pano de fundo não a vitória, mas a politização. Sim ou não? Claro, então por que chapa única se há tantas diferenças? Por que não? Você entende que as grandes questões que nos afligem sequer foram tocadas por um ou por outro lado e responsabiliza a Chapa Acordes por isto, ao entrar na disputa sem verticalizar suas propostas. Como assim? Se a partir da presença da Chapa Acordes é que a corrida se estabelece. O seu raciocínio não deveria ser o contrario? O fato de haver a eleição com duas chapas, já anuncia a necessidade da discussão. Que tem que começar de algum lugar sim. Só que agora estamos num lugar institucional para a disputa, não te parece razoável? Pra mim, Moreira, a questão contemporânea começa sim na invasão da Funarte, que alguns gostam de chamar de ocupação. Ali se definem rumos claros de enfrentamento por melhores condições econômicas e ponto. Foi uma pena. Porque à força, à determinação, à militância, à potência vigorosa de uma categoria capaz de criar um acontecimento forte como aquele, não soubemos juntar uma série de componentes que teriam nos levado a outro lugar: faltou-nos a maturidade, a reflexão para além das necessidades econômicas, o exame a respeito das reais características e peculiaridades do ofício cênico, a análise da conjuntura como forma de compreender a correlação de forças e as estratégias de luta. O eco de gente como Boal ou Vianna Filho não soou, não bastou. As divergências foram contidas atrás e antes, depois e para fora dos portões de ferro da Funarte, trancados, vigiados e animados por palavras de ordem no mínimo conceitualmente equivocadas. Sinto que hoje, o debate se recoloca e com certeza sairemos deles todos fortalecidos, e vencedores, ganhe quem ganhar, porque diferente de você, acho que já não tínhamos mais nada a perder, portanto, agora teremos algum a ganhar. Bem, estes são os motivos mais claros e superficiais que me levaram a te reescrever.
E já que estamos com a m***a até o pescoço, mantenhamos a cabeça erguida. Explico-me: o motivo oculto de estar te escrevendo é uma alusão que faz você, no corpo do seu escrito, sobre a possibilidade de uma votação nominal, ou seja a partir de uma decisão da Assembléia, proceder-se a uma dissolução das chapas e a composição de uma terceira chapa única, a ser eleita por aclamação. Isto seria feito durante a Assembléia que é noturna, com o voto aberto, na sequência do processo eleitoral secreto que se dará durante o dia. A Assembléia, que na verdade passa a ser uma reunião de confraria, no gênero de quem carregar mais gente leva, quem pode mais chora menos, golpearia a votação secreta do dia todo. Numa alegre tertúlia os nomes das duas chapas se confraternizariam, comporiam um conselho consensual e viveriam todos felizes pra sempre. Em seguida, você mesmo vacina e denuncia a idéia: porque isto tem nome e você o diz muito bem: chama-se golpe e é sempre escroto. Às vezes é brando, risonho e cordial, lotado de boas intenções, nem sempre é duro e militar, porém seus resultados são lamentáveis e duradouros. Fugindo dos enfrentamentos, acabamos sempre por atrasar os encontros. Golpe é golpe. É sujeira mesmo. Se por ventura não nos sentirmos representados por uma ou por outra chapa, o melhor não será votar em branco? Como é que se pode imaginar que duas posições antagônicas (ainda que fossem por ventura, como diz você, superficiais) fundindo-se numa terceira, não se reduzisse ao seu mínimo múltiplo comum, ou seu máximo divisor comum? Comum de que? De oportunismo escroto de seus membros? Não acredito que isto possa acontecer, só como filme de terror, mas como você mesmo disse que já aconteceu, vai que passe pela cabeça de alguém e a desgraça está feita.
O que importa, acho, é que entendamos e acreditamos que um processo eleitoral só envolve riscos quando existem reais oportunidades e necessidades de mudança. E isto pode ser muito bom. Até porque, por mais histórias que tenham sido veiculadas de lá e de cá, seria muito leviano acreditar que as pessoas da Chapa Acordes ou seus apoiadores, não tenham compromissos estéticos, sociais e políticos, claros e progressistas.
Se bem entendi, amanhã é jornada diurna e noturna eleitoral, com a concorrência de duas chapas. Não há uma terceira chapa, única. Mesmo que um legalismo estatutário autorizasse uma operação dessas, deveríamos todos por dever de consciência e ética, recusar, denunciar, lamentar e negar veementemente uma atitude golpista com este caráter. Organizamo-nos à margem da sociedade, não para espelhá-lá, mas lutando por suas transformações. Ou não é isto que estamos tentando mexer amanhã mais uma vez? Este negocio de conchavo é bom pra bandido. Nós, nós somos artistas.
Marco Antonio Rodrigues