28/11/2022
Há 5 anos eu descobria os encantos do verde amazônico.
Segue um texto que escrevi em um dos dias mais emocionantes dessa experiência:
Aqui venta muito, é quente, úmido, vivo. A casa f**a em cima de uma falésia de argila branca e rosa. O rio que banha a praia tem onda e barulho de mar.
O nome dela é Rubenita. A casa é parte de Madeira e parte alvenaria.
Elementos que você encontra na casa:
-duas caixas de som (enormes)
-faixa da Rede de Mulheres Negras
-bandeira do PT
-coleção de xícaras
-instrumentos de percussão
-uma porção de pinturas em madeira
-uma horta com diversas ervas da Amazônia (a pripioca foi a que mais me chamou atenção, uma raíz parecida com cúrcuma, com um cheiro marcante que lembra perfume)
-uma moto com flores e borboletas
-um remo colorido
-cobertas com cor de arco-íris (segundo mariá)
-pés de frutas que nunca ouvi falar
A Nita mora sozinha, faz parte de um coletivo de mulheres que fornecem plantas medicinais da Amazônia para uso em cosmético. Negra, lé***ca, por volta de 50 anos, militante. Nasceu em Belém e mora aqui faz 17 anos, disse que foi quando descobriu o paraíso. Ela anda sempre com lenço na cabeça e as pernas de fora.
Muito disso foi a Rái quem me disse, sou mais de observar, e desde que cheguei aqui me sinto tão imersa e enfeitiçada que só observo. Quem me trás pra terra vez e outra é a Mariá.
A Nita gosta muito de conversar, e dançar, e batucar, e acolher, e lembrar.
Ela disse que essas dezenas de pinturas em madeira são lembranças das pessoas que abrigou aqui.
Tem uma cicatriz bem grande no maxilar esquerdo, de um tiro que tomou no Massacre de Eldorado do Carajás, quando era militante do MST.
Hoje viu os meus desenhos, disse que se encantou com a forma como falo do universo feminino. Me perguntou por que as mulheres têm buscado estarem sozinhas, ou com outras mulheres. Daí fluiu uma conversa de coração sobre o quanto é exigido das mulheres, e o quanto isso nos colocou num lugar de força que poucos conseguem acompanhar. Da capacidade de olhar pra dentro, se doar, sustentar, amar.
Tô emocionada
Feliz
Viva
A Rái tá brincando com a Mariá enquanto escrevo, a Nita tá dançando e ascendendo uma fogueira com cheio de pripioca.