Acredito que a melhor maneira de se explicar todo ideário e intenções desse movimento e apresenta-lo à vocês, seja trazer um pouco da nossa essência e início, o momento em que nós, eu (Dave), Régis e o Rafa, traçamos quase que sem querer algo muito maior do que esperávamos. Algo que começou em algumas sessões de improviso semanais e encontros, onde podíamos trocar e desenvolver nossos pensamentos
e aptidões, nossas ideias. O tempo passou e mais e mais pessoas entraram na roda, e o mais importante de tudo, acredito, foi o interesse de músicos. De alguns que chegaram e mesmo sem entender algum propósito ali se sentiam em casa pra fazer um som com a gente, e também, livres de qualquer barreira que o impedisse de chegar e pedir para tocar algo – digo aqui, talvez com certa pretensão, que parecia que se sentiam atraídos a isso. Pois, querendo ou não, era o que emanávamos, o que queríamos: a junção, a fusão desses indivíduos naquele corpo musical e livre, para que a energia, a criação somente se elevassem. Enfim, algo de bom acontecia ali, algo de valor. O som rolava, os músicos chegavam, usávamos algumas bases que já tínhamos bem ensaiadas, para segurar o som, e eles se misturavam, sem hesitar pegavam algum instrumento e se jogavam em meio ao som. Troca de músicos, troca de instrumentos, comunicação, aprendizado, rimas improvisadas assim como os acordes. E quando faltava imaginação pra alguma letra, pegávamos um dos mil livros nas estantes e cantávamos seus versos. Dois acorde, músicos inspirados, energia, é o que precisávamos, é que buscamos. Sem glamour, sem cobrança. Não objetivar o som a um sentido externo. O som, a união é o sentido. Não vejo grandes porquês na grande indústria musical atual. Os sentidos vão além da própria essência, passam direto, passam por cima de todo sentimento musical, da grande origem da arte em si – que é nossa e de mais ninguém; a arte como metafísica, pensamento, raciocínio, criação, sentimento e expressão do próprio artista. O músico em primeiro lugar. O cenário contemporâneo musical, diria até artístico, é um entrave à própria arte, a qualquer artista que não viu seu mundo além deste. Pois tal cenário se faz de recursos de fora do campo artístico, recursos muito além, para que nós, músicos e amantes da criação nos sintamos tão presos e dependentes destes, que não vemos saída para uma vida onde nos colocamos tocando uma viola e compondo músicas senão o mundo onde a própria música, a arte é um produto, onde tudo precisa ser um produto – e o raciocínio é simples: para que se ganhe alguns trocados, é preciso ter um produto a se vender, algum produto que respeite as demandas das correntes onde esse mesmo capital flui (E, bom, a arte é um produto, um produto em uma embalagem?... Bom, talvez hoje possa ser, infelizmente). Não se enxerga hoje um caminho musical fora do mundo do capital. Fechamo-nos em um ciclo vicioso que nada adiciona a nossas ideias e formas de pensamento, nossas musicas, nossas pinturas, desenhos, danças e outras infinidades artísticas. Com esse sentido, todo o sentido da arte se perde num vazio cheio de egoísmo e competição inútil. Onde usamos nossa energia e força para derrubar ou se mostrar melhor do que o resto, o mundo atual nos leva a esse desfecho. Usamos nossa energia e força para derrubar indivíduos que estão no mesmo barco que nós; energia e força que podíamos usar para ensinar e nos tornarmos mais fortes juntos, para criar ideias cada vez maiores. Além do mais, usamos toda essa força para derrubar as pessoas erradas. Porém, juntos e com a força ideal, derrubamos aqueles que realmente precisam cair, aqueles que nos enfiaram nesse campo de guerra sem sentido. Rei bom é rei morto. E adianto, quando o momento da queda chegar, e a união, as ideias, o ideal, que não é meu e sim da vida em si, naturalmente, quando isso se fizer real, não precisaremos fazer demasiada força, pois a verdade se apresentará sozinha. Nós, o Movimento Revolucionário Musical Terça Tupã, nos desprendemos de tal circulo, de tais dependências, fomos além dos campos de batalha, fomos aos campos e pastos verdejantes, onde o Sol brilha mais pesado. Fomos, fizemos, sentimos e pensamos, idealizamos e voltamos. Voltamos e aqui estamos. Voltamos com a postura do movimento, da fluidez, das igualdades, de onde o pensamento se alinha com movimento da vida: Onde tudo depende de todo o resto para que continue a se movimentar, e assim favorecendo a vida – e vida é movimento
E para que fique muito claro, esse movimento não somos nós, os três. O movimento é um numero incerto, indefinido e de certo imprevisível. Pois somos todos aqueles que se movimentarão por esse ideal; somos todos aqueles que pensam em se movimentar e também os que ainda não ouviram falar em Terça Tupã e poderão vir a fazer um barulho e gritar conosco. Somos essa corrente, essa união, de forma horizontal e libertária. O Movimento Revolucionário musical Terça Tupã é um ideal, não um grupo, nem uma banda, no mais, algo infinitamente crescente que só depende de nós mesmo, de um todo. Estamos aqui presentes, mais do que nunca, de mente, espirito e vontade abertas a ensinar e aprender, pensar a maneira de fazermos de um para ou outro, da arte pela arte, pelo bem. Estamos aqui para levar o pensamento da troca do conhecimento, da divisão, do ensinamento e criação sem fronteiras. Para fazer acordar, despertar não apenas essas ideias, mas também a consciência em si. A consciência que tudo abrange, observa e absorve, traz a mudança, faz acontecer. Colocar por definitivo o pensamento de que o conhecimento, nossos saberes estão muito longe de um conceito pobre de propriedade intelectual. Pois o conhecimento, lá, nos campos verdejantes, lá onde o sol brilha sem medo para quem o quiser, o conhecimento é de todos, para todos, pois é nosso, e somos um só. Pois ideias, desenvolvimento, evolução e revolução, todos os saberes, e o que conhecemos e também o que ainda não conhecemos é nossa herança irrefutável. Herança de mais de 40.000 gerações de seres humanos. Mais de 40.000 gerações de pais, mães, filhos, homens e mulheres, assim como nós, que por aqui passaram, nasceram, viveram e pereceram, evoluíram, aprenderam e revolucionaram, até que tudo isso chegasse a nós, aqui e agora. Com essa atitude e postura fizemos nosso caminho para este ideal. E pretendemos com os mesmos levar isso à frente. Em questão de ética e também manter sempre a postura perante ao ideal comum. E isso valerá a todos àqueles que se dispuserem a estar conosco neste caminho. Com uma organização horizontal, pretendemos levar e ensinar a conduta de ação direta com esse meio, com base no apoio mútuo e respeito para com os indivíduos que estiverem conosco no ambiente e também para com aqueles aos quais pretendemos levar todo o projeto. A ética do movimento, e o tratamento de um para o outro será estabelecida pelo próprio objetivo: Pequenos objetivos a curto prazo, ocupações organizadas, intervenções e projetos internos, como aulas, palestras, abertura do projeto e organização em ambiente publico, praças, colégios e afins, com oficinas e até mesmo apresentações, todos se enquadrando, mais uma vez, as formas da ação direta, horizontalidade e apoio mútuo. Sendo que todos esses micro-objetivos serão voltados ao próprio ideal e culminarão sempre ao macro-objetivo que é levar a ideia da liberdade artística, aprendizagem e ampliação do conhecimento a partir da comunicação, dinâmica e interação de um para o outro, para que a mudança seja feita, de forma que seja favorável a vida e não a esterilização intelectual e objetiva de nossos artistas e também daqueles que ainda virão a ser artistas. O impulso que nos trouxe até aqui foi enxergar e estar nesse ambiente atual onde poucas são as oportunidades, poucos são os incentivos puros. De ensinar, passar o conhecimento assim como incentivar e encorajar novas consciências a fazer. Fazer por si mesmo. Levar tanto a imagem do músico, artista livre, quanto o ensinamento, a técnica e o estudo da arte, para que o conhecimento e domínio musical ou até mesmo de outras artes seja de todos e para todos. Impulsionando assim mais e mais a vontade de fazer, tentar fazer e aprender, em cada um de nós. Façamos então cair as ilusões de dependência que o mundo nos faz acreditar. Façamos por nós mesmos, diretamente ,sem depender da palavra ou atitude de alguém que não vê que a mudança é inevitável e é agora, de alguém que não entende que o futuro é nosso, do sangue novo, das mentes jovens, longe dos que entravam tal conhecimento, tal entendimento, de que nós, aqui, por nós, podemos e faremos por nós mesmo, aqui e agora. A mudança só pode ser feita agora, pois o novo há de vir e sempre vem. Somos a união, a força, a coletividade, o respeito e apoio de um para o outro. Nos faremos um só, pois é exatamente isso que somos, movimento e continuidade a favor da vida, naturalmente. O novo é agora.