14/11/2024
EM FOCO. MEMORIAL DE AFETO. O espetáculo “Cartas da Prisão”, apresentado no Espaço Cênico do Sesc Pompéia, com texto de Nanna de Castro e direção de Bruno Kott, explora as complexas camadas de violência e amor através de uma narrativa visual e construção estética que colocam em cena a correspondência entre uma mulher e um assassino em série. Ancorado no gênero true crime, que tem ganhado destaque na cultura contemporânea, a peça se posiciona como uma crítica às dinâmicas de poder nas relações abusivas, trazendo para o teatro um gênero popular na televisão e no cinema. A atuação de Chica Portugal é um dos pilares do espetáculo. Ao interpretar múltiplas personagens femininas, ela dá voz a diferentes facetas da codependência emocional, desvelando o poder devastador do ideal de amor romântico perpetuado pelo patriarcado. A performance de Chica é contundente, transparecendo tanto a fragilidade quanto a força dessas mulheres que, mesmo cientes do perigo, se entregam a uma relação que parece ser sua única fonte de validação e afeto. O cenário e figurino de Kleber Montanheiro são centrais na criação de um ambiente claustrofóbico e perturbador, refletindo o confinamento não apenas físico, mas também emocional, das mulheres envolvidas nas correspondências. A escolha minimalista e austera de elementos cênicos permite que a narrativa se desenrole de forma simbólica e direta.
As cartas configuram um elemento central na composição visual do espetáculo, agindo como símbolos materiais de vozes aprisionadas e sentimentos reprimidos. Elas criam uma visualidade que remete ao fluxo de correspondências trocadas entre as mulheres e seus parceiros encarcerados. Assim, o cenário torna-se um reflexo físico da carga emocional das personagens, uma representação tangível dos desejos, da carência e da necessidade de afeto dessas mulheres. Texto completo na bio.