02/09/2019
União e Coletividade
Em uma noite de agosto, eu e Aline estávamos juntinhas como sempre batendo nossos papos sobre política. Não estou falando de partidos. Falávamos sobre a demanda de políticas públicas que atendem nossa quebrada, Tiquatira, lado Leste.
Pensamos sobre o hábito de se jogar lixo no chão, pensamos no racismo e na homofobia entre nós, na dificuldade de comunicação com os eleitores do atual presidente, na misoginia e machismo de nossos irmãos conosco... E a gente sabe que não adianta f**ar só reclamando e se lamentando. Nenhum de nós nunca conseguiu nada assim.
A gente queria se aproximar dos nossos e passar uma visão sobre respeito, amor, cultura, porque é nisso que a gente acredita.
Pensamos então num sarau, que é um espaço aberto pra que as pessoas leiam aquela poesia guardadinha em casa na gaveta, cantem uma música de sua autoria ou não, apresente uma performance com uma mensagem que ela ache importante, ou simplesmente peguem o microfone e falem o que quiserem falar.
O objetivo do sarau é emancipar, dar voz, acolher, puxar pra cima e tudo que a gente puder fazer de bom pelo nosso espaço e pelas famílias que aqui habitam.
Desde o primeiro dia que decidimos que faríamos isso, eu e ela, ela e eu, não paramos de trabalhar. Corremos atrás de liberação do espaço público, artistas, convidados, equipamentos de som, energia elétrica, transporte... tudo isso sem um real no bolso. Precisamos remarcar a primeira edição do Sarau que aconteceria dia 20/08 porque havia previsão de chuva para essa data. Nisso, perdemos um pouco de força e a galera deu uma desanimada, inclusive nós duas.
Várias vezes nos sentimos inseguras e queríamos desistir. Mas a gente sabia que se falasse isso pra outra, a gente ia se manter de pé, então, conversamos muito durante esse processo de criação.
Tudo dando errado, a gente não conseguia o contato com a responsável pela liberação do espaço, pessoas que confirmaram com a gente pararam de nos responder, outros não poderiam vir na nova data, dinheiro pro aluguel do gerador tava difícil de arrumar...
Enfim, a gente nunca tinha feito isso antes, mas sabia que era necessário que fizéssemos.
Com muita paciência, esforço e dedicação, as coisas passaram a dar certo e finalmente a gente ia poder realizar esse envolvimento delícia.
Nos atentamos a todos os detalhes, inclusive com a previsão do tempo. Porém, mamãe natureza nos pregou uma peça e a chuva de 5mm que tava lá no site do climatempo se transformou no dilúvio que fez Noé construir a arca.
Nos sugeriram muitas vezes e insistiram que mudássemos novamente a data para ter um evento mais lotado.
Eu quero dizer aqui que eu nossa intenção não é lotar evento e fazer um nome. Nós queremos resgatar pessoas que queiram e precisem ser resgatadas pela arte, queremos incentivar a leitura, o pensamento crítico, dar espaço para nossos artistas mostrarem seu trabalho, queremos ensinar a respeitar a diversidade racial, de gênero e orientação sexual. Sarau di Quebrada é um espaço de amor e acolhimento e vem quem quer. Chovendo ou no sol, vem quem quer. Estamos aqui de braços abertos.
Enfim, nos sugeriram mudar, mas somos teimosas e batemos o pé. "Vai parar de chover" a gente dizia. Mas não parou e fizemos debaixo de chuva mesmo. Nas primeiras horas estávamos deveras desanimadas, preocupadas, tensas.
As horas foram passando e as pessoas foram chegando e nos dando a oportunidade de falar com elas.
Tivemos alguns problemas no som, nem tudo saiu como esperávamos mas, quando eu olhei em volta e vi quantos amigos estavam ali, não só da Leste, mas de outras regiões também, me emocionei de fato. Vi pessoas chegando a pé de guarda-chuva, sem guarda-chuva, de carro, de ônibus, de trem, pessoas que estavam pela primeira vez recitando suas poesias e que acreditavam na gente, no evento... Fazia tempo que eu não me sentia tão forte.
Como vcs que estavam presentes puderam perceber ontem, eu não tenho nenhuma intimidade com o microfone e tbm estava muito nervosa. Por isso, aproveito esse espaço de escrita para agradecer primeiramente à Aline que acreditou que poderia dar certo, me deu a mão e caminhou comigo, ao Eliefe Decreto que se apresentou sem cachê e nos acalantou com tantas palavras de carinho durante o evento, tava lá o tempo todo do nosso lado e não nos deixou desanimar, ao Alemão, que depois de 3 caronas terem dado pra trás com a gente, passou na minha casa 11h da manhã e só voltou pra casa 1h de hoje fazendo transporte de som. Se não fosse o Alemão, o sarau não teria acontecido. Agradeço de coração ao Peeh que disponibilizou os equipo pra gente fazer um evento bonito. Muito obrigada Israel e Gabi que recitaram suas primeiras poesias em sarau, ao Matheus que nos divulgou durante esse 1 mês e meio e fez uma apresentação linda da sua primeira composição, aos meninos lindos demais do Sigma Soma que fizeram um pocket muito pesado também, Bárbara Dmoon que salvou na caixa de som e cantando lindamente composições suas, Veridiana que arrasou nos clicks e vídeos... e todo mundo que colou e fortaleceu na chuva! Vcs são f**a!!!
Como disse minha irmã ao abrir o mic: SALVE QUEBRADA!!! TAMO VIVO NESSA P***A!!!
Até a próxima edição do Sarau Di Quebrada, no mês de outubro.
Com amor,
Bartira.