02/08/2026
Sobre a aleatoriedade
por Clodoaldo Arruda
Vejam só: a Espanha vence a Argentina e se tornou campeã da Copa do Mundo no dia 19 de julho. No intervalo da partida, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo Fenômeno participam do show da Madonna, o que os torna protagonistas do rolê mais aleatório da história; no dia 25 de julho foi celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, portanto, dia de parabenizar nossas irmãs, viva a resistência e força delas; e aí, no dia 27 do 07, a Segunda Batefundiana recebe o Pagode da 27! Reflitam… pensem bem… Sabe o que estes fatos e estas datas próximas e encadeadas querem dizer? Sabe o que tudo isso significa? Absolutamente nada!! É só aleatório mesmo…
Há quem confunda aleatoriedade com desordem. O samba ensina justamente o contrário. Numa Segunda Batefundiana, ninguém sabe exatamente quem vai puxar o próximo coro, quem vai arriscar um verso improvisado ou qual conversa começará num canto com uma galera e terminará em outro, com outra galera. Ainda assim, tudo encontra seu lugar, como se obedecesse a uma lógica invisível que a ciência chamaria de sistemas complexos, mas que a ancestralidade simplesmente reconheceria como vida. O samba nasceu dessa inteligência coletiva, dessa capacidade de transformar encontros improváveis em comunidade. Por isso, cada edição parece única, embora carregue a memória de todas as anteriores. E não deixa de ser bonito que, nesse aparente acaso, o Pagode da 27 volte mais uma vez ao Bate Fundo. Repetição? Talvez. Mas a lotação máxima do nosso quintal prova que isso não é problema! Além disso, a natureza também repete o nascer do sol, o ciclo das águas e as fases da lua sem jamais produzir dois dias exatamente iguais. O Pagode da 27 retorna porque alguns acasos aprendem o caminho de casa, lembrando que a verdadeira aleatoriedade não é ausência de sentido: é a arte de criar sempre algo novo a partir dos mesmos afetos.
🎥 ROBSON NOVAEZ