13/08/2026
Eu acho tão bonito quando alguém conhece a própria história.
Quando sabe de onde veio, não só no sentido amplo, mas nos detalhes: o que o avô fazia, como o bisavô ganhava a vida, que caminhos os pais percorreram até chegar aqui. Existe uma espécie de continuidade nisso, como se a vida deixasse rastros suficientes para que alguém pudesse se reconhecer no meio do caminho. Como se fosse possível olhar para trás e, a partir daí, entender onde se está e talvez até para onde ir.
Eu não tenho isso.
Eu não sei quase nada sobre as minhas origens.
Não conheço os nomes que vieram antes de mim.
Não sei quem foi meu tataravô, o que ele fazia, como viveu.
E, às vezes, penso que talvez nem tenha havido escolha, que talvez ele tenha sido apenas mais um corpo atravessado pela história, alguém a quem nem o direito de existir como sujeito foi dado.
E então eu começo do vazio.
Não sei exatamente como cheguei até aqui.
Nunca me deram um mapa que facilitasse o meu trajeto, mas talvez ninguém receba.
Ainda assim, há algo que acontece aos poucos.
Algo que consome, que corrói, que vai minando o pouco de vida que existe em mim.
Quando você chega a um lugar novo sem identidade, ou pior, quando constroem uma identidade por você, uma que não pode ser questionada, você se vê presa.
Enclausurada em ideias, em expectativas que não são suas.
E então, quando finalmente reúne forças para sair desse lugar que aprisiona, começa um outro movimento: o de nomear.
De tentar encontrar um nome para si mesma.
Um significado próprio.
Às vezes, nesse caminho, nasce uma poesia.
Você cria um símbolo, ressignifica, dá um novo nome à dor, à angústia, à própria existência e segue.
Mas o que dói é perceber que, assim como fizeram com meus pais e com meus avós, a existência que eu tento criar continua sendo invalidada.
Quem eu tento ser continua sendo apagada.
A forma como escolho amar, e até quem eu escolho amar, segue sendo julgada, atravessada, negada.
E chega uma hora em que lutar para ser cansa.
Lutar para existir se torna um fardo pesado demais.
Uma mala que, às vezes, dá vontade de largar no meio do caminho. (CONTINUA NOS COMENTÁRIOS)