27/01/2026
Megadeth se despede no auge com álbum final feroz e sem concessões
Após mais de quatro décadas moldando o thrash metal com riffs cortantes, velocidade extrema e letras carregadas de tensão, o Megadeth encerra sua trajetória exatamente como sempre prometeu: no ataque. Lançado nesta sexta-feira, o álbum autointitulado Megadeth marca o 17º e último trabalho de estúdio da banda liderada por Dave Mustaine — e passa longe de qualquer clima nostálgico ou tom de despedida melancólica.
Logo na faixa de abertura, “Tipping Point”, Mustaine deixa claro o recado. “Today, I may bleed, but tonight you will die”, rosna o vocalista em meio a riffs esmagadores, solos incendiários e pedal duplo em velocidade máxima. O clima clássico do Megadeth é interrompido por uma mudança brusca de andamento, criando uma tensão quase cinematográfica, marca registrada da banda desde os anos 1980. Como em boa parte de sua discografia, a raiva pode ser pessoal, política — ou ambas.
Em agosto do ano passado, Mustaine, único membro presente em todas as fases do grupo, anunciou que este seria o momento ideal para encerrar o ciclo. “No topo do jogo e nos nossos próprios termos”, definiu. A decisão se reflete no disco: agressivo, coeso e tecnicamente afiado.
A produção ficou novamente a cargo de Dave Mustaine ao lado de Chris Rakestraw, parceria mantida pelo terceiro álbum consecutivo. O trabalho também marca a estreia do guitarrista Teemu Mäntysaari em estúdio com a banda e o retorno do baixista James LoMenzo a um álbum desde Endgame (2009). Dirk Verbeuren assume a bateria pelo segundo disco consecutivo, garantindo precisão cirúrgica e peso constante.
Musicalmente, o Megadeth não reinventa sua fórmula, mas a executa com segurança. O disco alterna faixas extremamente rápidas com grooves de médio andamento, mantendo a identidade construída ao longo de décadas. Canções como “Puppet Parade”, “Made To Kill” e “Obey The Call” poderiam figurar sem esforço em qualquer fase anterior da banda, enquanto “Let There Be Shred” funciona como um manifesto definitivo da missão de Mustaine: guitarras, velocidade e caos controlado.
Um dos momentos mais comentados do álbum é a faixa bônus: uma versão acelerada e reimaginada de “Ride The Lightning”, clássico do Metallica. Mustaine, coautor da música antes de ser demitido da banda em 1983, afirmou que a gravação foi uma forma de “prestar respeito ao início da minha carreira”, fechando simbolicamente um capítulo que atravessou toda sua vida artística.
Em “Hey, God?!”, Mustaine expõe um lado mais introspectivo, refletindo sobre ausência, desgaste e conflitos internos. Já “The Last Note”, faixa final entre as composições originais, funciona como um adeus calculado: cinco minutos e meio de guitarras intensas culminam em um monólogo sombrio e definitivo. “I came, I ruled, now I disappear”, diz Mustaine, em tom quase teatral.
O álbum se encerra deixando claro que o Megadeth não saiu por exaustão criativa. Pelo contrário: fecha sua história com um dos trabalhos mais sólidos e consistentes de todo o catálogo. Um último golpe certeiro de uma banda que passou 40 anos transformando fúria em música — e decidiu sair de cena sem baixar o volume.