08/01/2021
A permanente e a novidade
O sujeito não é uma pessoa, é uma permanente, mas o fato de não ser uma pessoa, não significa que o mesmo não possa andar, descobrir, escolher, interagir, tumultuar, trocar experiências e existir. Ele faz tudo isso, mas de forma diferente, já que anda, mas não tem pernas. Já que vê, mas não tem olhos. Ouve, mas não tem ouvidos. Cheira, mas não tem um nariz. Sente, mas não tem corpo. E o que o torna singular é o seu fazer, agir, viver na repetição e quantas vezes for necessário.
Dizem que o sujeito não existe de fato, por não ser específico e definitivo, mas ele ocupa a mente de todos e em cada mente ele se manifesta de um jeito. Ele, na verdade, é o que faz a vida existir, porque é a partir dele que há as oportunidades de vivências e as possibilidades de livre-arbítrio. Para Milton Barbataz de Almeida Silva e Santos, por exemplo, o sujeito ele foi o pequeno carro de plástico que ganhou quando era uma criança, a descoberta do grão preferido de Barbara Alcântara de Almeida Silva e Santos, o vertebrado de 8 pernas caminhando na porta do banheiro ou a partícula de poeira saindo de seu pulmão para o ambiente seco de uma quarta-feira qualquer.
A permanente parece, enfim, fazer parte de tudo e na realidade faz muito sentido que seja, entretanto, se engana quem pensa que é tudo, porque um dia, Barbara Alcântara faleceu e Milton continuou vivo. Sem se conformar, Milton ressuscitou-a, não na realidade e isso foi seu tormento, porque na imaterialidade ela não existia de fato e não era como foi um dia. O sujeito apareceu de novo para Milton e se manifestou em um formato diferente dessa vez, porque agora estava dividido em dois: a permanente e a novidade.
Milton nunca reparou na novidade antes e ao tentar entender sua manifestação, ele percebeu que ela sempre existiu e seu erro foi tentar fazer da novidade, a permanente. Então Milton pensou, se redobrou, refletiu e escolheu: a novidade era agora sua nova companheira ao invés da permanente, deixada no passado. Enfim seu tormento se desvaneceu, pois não havia a necessidade de ressuscitar Barbara Alcântara, mas sim ressignificar sua irmã e o sujeito continuou seu trabalho, porque embora seja permanente e novidade, a sua essência é ser, entre os dois, o caminho.
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