19/12/2025
Em 2025, completamos 6 anos de existência. Durante o ano, o Fórum da Barra Funda, onde atuamos, passou por uma expansão com a implementação de uma 3ª Vara de crimes contra crianças e adolescentes. Com essa ampliação, cresceu também o número de crianças, adolescentes e familiares atendidos. Esse novo cenário impactou diretamente nossa atuação: se antes interagíamos com uma ou duas famílias por vez, agora nos deparamos com três, quatro, até cinco famílias simultaneamente.
Pela situação tensa e a expectativa do depoimento, cada núcleo familiar costuma ficar isolado, ocupando um sofá ou um conjunto de cadeiras, concentrado em seu próprio mundo. Nossa chegada, no entanto, provoca uma mudança instantânea: todos os olhares se voltam para nós, e abre-se uma brecha de contato visual entre todos. Uma cumplicidade nasce da surpresa de verem uma dupla de palhaças se apresentando como trabalhadoras de um fórum. A concretude e a rigidez daquele espaço e do motivo de estarem ali se quebram. Olhares cúmplices entre filhos e mães, e entre as próprias mães, entre si, surgem.
É a partir dessa base de consentimento tácito que uma nova narrativa começa a ser criada e uma situação entre o real e a imaginação é trabalhada. A conversa então se amplia: as mães opinam, as crianças e adolescentes tomam partido de uma ou outra palhaça. O subtexto, os silêncios, a troca de olhares também criam caminhos para uma história completamente imagética. E nesse jogo, nossa intenção é sempre a de empoderar cada criança e/ou adolescente, criando um espaço seguro para o lúdico, universo que dominam tão bem.
Dois acontecimentos reverberaram em nosso trabalho em 2025: a implementação do ECA Digital e a COP30. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital trouxe uma regulação necessária sobre o uso de redes sociais por menores, reforçando a urgência de protegê-los em todos os ambientes, inclusive no virtual – uma violência que muitas vezes chega até a nossa sala de espera. Já a Conferência do Clima (COP30), colocou as infâncias no centro do debate sobre o futuro do planeta. A frase “não herdamos a Terra dos nossos antepassados; nós a tomamos emprestada dos nossos filhos” ecoou com força, nos lembrando que a violência contra o meio ambiente é também uma violência contra o futuro das crianças que atendemos, ampliando nosso senso de responsabilidade e a missão de fortalecê-las no presente.
Nossa atuação estendeu-se de fevereiro ao início de dezembro. No fórum, interagimos diretamente com uma média de 650 pessoas, entre crianças, adolescentes e familiares. Para além dessas paredes, participamos da III Feira de Saúde Popular do MST, em outubro, com o espetáculo “Quem é a Juíza, Quem é o Juiz?”. Na história, nossas quatro assistentes palhaças chegam ao fórum para trabalhar, mas percebem que ninguém as avisou quem é o novo juiz ou a nova juíza. Elas, então, saem em direção ao público para encontrá-lo. A intervenção é inspirada no cotidiano vivido pelas artistas no fórum, trazendo uma visão bem-humorada e humanizada da Justiça e da Magistratura, e abordando, de forma leve e descontraída, alguns conceitos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Também participamos de um projeto de sessão de cinema do grupo CriADirMack, comentando o filme “Há Um Crime Entre Nós” (2020), de Adriana Yañes. O CriADirMack é um grupo de pesquisa vinculado à Faculdade de Direito do Mackenzie, que desenvolve estudos sobre temas relacionados aos direitos das crianças e dos adolescentes de forma dinâmica e interdisciplinar.
Olhar para trás e ver o que realizamos neste 2025 é constatar o poder de um sorriso como ato de resistência. Em um espaço que lida com as sombras da violência, levamos a leveza consciente da arte, plantando sementes de confiança e coragem. Cada olhar cúmplice, cada riso que ecoa na sala de espera, é uma vitória silenciosa contra o medo e o silêncio.
Agora, nos preparamos para as festas de final de ano e nosso recesso. Que 2026 nos encontre com ainda mais disposição para transformar, através do encontro e do lúdico, a difícil jornada daqueles que buscam justiça. Desejamos a todos um ano novo repleto de paz, renovação de esperanças e muitas histórias bonitas para contar.
Até o ano que vem, com novidades no bolso e alegria no olhar!