21/08/2025
A Navalha na Capoeira
A navalha, conhecida também como naifa, nafe ou sardinha, ocupou um papel marcante na história da capoeira. Introduzida provavelmente pelos portugueses no Rio de Janeiro do século XIX, a lâmina rapidamente se incorporou ao universo dos capoeiras como arma de defesa e de ataque.
O vínculo entre fadistas portugueses e capoeiras brasileiros ajuda a compreender essa relação. Ambos pertenciam a grupos marginalizados, frequentadores dos mesmos ambientes urbanos — portos, botequins, casas de prostituição, rodas de música e de jogo. Ambos sofriam perseguições constantes da polícia e, em meio a conflitos com as autoridades ou desavenças internas, recorriam à navalha, instrumento comum de intimidação, ferimento e, não raramente, de morte.
Nesse contexto, elementos da indumentária do capoeira adquiriram funções práticas de proteção. O lenço de seda, chamado esguião, usado no pescoço por capoeiras e sambistas clássicos, não era apenas acessório estético. A seda possuía a propriedade de fazer a lâmina deslizar em sua superfície, evitando cortes profundos na região vital do pescoço. Assim, chapéu de banda, terno branco, sapato bicolor, argola na orelha e o lenço de seda compunham não apenas a imagem do malandro, mas também sua defesa contra um ataque frequente.
Diversos capoeiras tornaram-se célebres pelo manejo da navalha. No Rio de Janeiro, destacam-se Manduca da Praia, Natividade e o lendário Madame Satã. Na Bahia, Caboclinho, Inocêncio Sete Mortes e Noca de Jacó ganharam reputação semelhante, enquanto em Pernambuco o nome de Nascimento Grande ficou registrado na memória popular. Todos eles são lembrados como figuras que uniam habilidade corporal à destreza com a lâmina.
Hoje, a navalha não faz mais parte das rodas de capoeira, que se consolidaram como expressão cultural, esportiva e artística. Contudo, relatos antigos e práticas preservadas por mestres, como Cobrinha Verde, que chegou a ensinar a técnica de jogar com navalha nos pés, mantêm viva a memória de um período em que a capoeira esteve intimamente ligada à malandragem, ao perigo e à sobrevivência nas ruas.