05/08/2024
Aos quadrinistas, artistas participantes do beco dos artistas da Perifacon 2024 e à organização do evento.
Um chamado à reflexão sobre trabalho, mercado, acordos, direitos e deveres.
Nós, do coletivo Estúdio Molotov HQ, nos sentimos na obrigação de pontuar algumas graves quebras de acordo entre o evento e trabalhadores do beco dos artistas na Perifacon 2024. A dependência de eventos - sintoma da precarização da nossa categoria, resultado do longo período de expansão do mercado editorial estrangeiro no Brasil e das relações econômicas e políticas que permeiam essa expansão - tem gerado uma normalização de abusos trabalhistas dos quais nós não compactuamos e, portanto, trazemos aqui como crítica, seguida de sugestões que procuram construir um ambiente digno e debata abertamente com a nossa categoria, para a elevação da nossa consciência de classe.
Entendemos, apoiamos e reforçamos a necessidade de eventos que abracem a população das periferias. Em especial, no que diz respeito ao acesso amplo e gratuito à cultura. Nesse sentido a Perifacon cumpre um papel muito importante de apresentar perspectivas - no âmbito profissional, artístico e cultural - e construir oportunidades aos participantes. A partir de atividades promovidas pelo evento, muitos visitantes se conectam com mundos e possibilidades que por vezes são negados a parcela mais pobre e vulnerável da classe trabalhadora. O evento se propõe também a canalizar e direcionar interessados a produzirem seu próprio quadrinho, podcasts, audiovisuais, jogos e outras formas de trabalho. O evento busca fortalecer e evidenciar artistas locais, das mais diversas plataformas, das artes plásticas ao audiovisual, e entendemos isso como uma posição muito acertada, visto que muitas vezes esses trabalhadores são escanteados pelos órgãos públicos da região.
Apesar das contradições que existem em reforçar a colonização cultural e o olhar da democratização por vezes fundamentada no consumo de material estrangeiro em detrimento da precarização dos trabalhadores da nossa categoria, que são os principais prejudicados por essa dinâmica do mercado, os espaços que lá ocupamos se tornam ainda mais necessários para o fortalecimento da produção nacional independente, principalmente em contato com as camadas mais populares da nossa classe. Essa dinâmica não se coloca como exclusiva de um ou outro evento, mas como síntese das relações sociais da sociedade capitalista brasileira, sendo portanto importante pontuar como elemento chave da situação editorial do país.
Dito isso, é inaceitável normalizar algumas situações que, dadas as condições postas e aceitas por ambos os lados, rompem com a barreira da ética e dos acordos feitos entre artistas e organização. O primeiro e mais alarmante ponto é a falta de comunicação prévia em relação ao patrocínio no beco dos artistas e as decorrências do tratamento entre patrocinador e artistas. Entendemos a necessidade financeira de se estruturar um evento desse porte, porém isso não justifica relacionar diretamente, sem nenhum consentimento prévio, a imagem dos artistas com empresa A ou B, em especial da forma abusiva como foi com a placa de mesa que não podia ser coberta. O mal estar gerado foi tão grande que se tornou inevitável a retirada por parte do evento das placas no domingo. Vale lembrar que pagamos para utilizar aquele espaço e esse arranjo nos coloca em um lugar de pagar para propagandear uma empresa que apareceu de surpresa no beco e utilizou da nossa imagem para sua estratégia de marketing. Precisamos saber onde estamos pisando. Nos venderam, literalmente, uma coisa e recebemos outra.
Aí entra outra questão na categoria do que foi comprado. O espaço em questão, alugado para os artistas, não condizia com o que foi acordado. A mudança do tamanho das mesas, além de comprometer a logística e organização prévia dos artistas, prejudicou o espaço de circulação do público. No manual dos artistas, recebidos no dia 12 de julho, os artistas teriam direito a uma mesa no tamanho 0,5 x 1m. Porém o que recebemos foi uma mesa muito alta, com aproximadamente 0,6 x 0,7 m, que mal comportava as duas cadeiras prometidas por mesa, comprometeu nossa organização - que havia sido pensada para a configuração 0,5 x 1m, precisando ser repensada - tornando os corredores mais apertados do que deveriam e também nosso espaço atrás das mesas. Então o beco dos artistas, que já estava numa posição pouco privilegiada na configuração do evento, possuía uma entrada que, pelo pouco espaço, dificultava a vinda do público. Soma-se a isso a não possibilidade inicial de usarmos todo o espaço da mesa, visto a obrigatoriedade da exposição da placa do patrocinador.
Indicamos a necessidade urgente de uma revisão do manual do artista, disponibilizado aos locatários, pois o mesmo não compreende a dinâmica dos artistas no que diz respeito ao tempo necessário para arrumar seu material no espaço. Além do horário irreal sugerido de montagem, 4 horas antes do início do evento, quando 1 hora seria mais que o suficiente, deixando menos cansativa uma jornada que se estenderia até às 22h (15h de jornada de trabalho...), é preciso ser mais flexível sobre montagens com atraso. Depois de tudo o que houve com o evento em relação a quebras de acordo, entendemos como péssima a postura de impedimento de artistas montarem suas mesas por pequenos atrasos. Os artistas pagaram por aquele espaço e podem muito bem terem sido surpreendidos por questões das mais variáveis do dia a dia. Essa postura punitivista em relação a atrasos de pessoas que pagaram pelo espaço não faz muito sentido na nossa avaliação. Em relação à multa pela ausência presente no contrato de locação, entendemos que seja necessário a clareza sobre a possibilidade de avaliação caso a caso, evitando casos omissos e optando pela transparência com o locatário. Entendemos que isso pode ter passado batido no momento da construção do contrato, porém é seguro que seja documentado no contrato possibilidades de mediar condições inesperadas como problemas de saúde ou de outra natureza que fujam do nosso controle.
Um mapa das mesas/artistas, enviado antecipadamente aos artistas e a todo público, visto o número de artistas, nos parece uma necessidade para uma melhor organização do espaço e do engajamento do público com o beco. A criação de um canal direto de comunicação entre a organização, ou responsável pelo beco dos artistas, com os locatários da mesa, facilitaria a comunicação e evitaria o grande ruído de comunicação gerado por diferentes pessoas dizendo coisas diferentes umas das outras. Além é claro de possibilitar uma ação mais imediata em certos casos. Essas são algumas sugestões que deixamos para o melhor funcionamento do beco, buscando uma comunicação transparente; acordos claros e coesos; e um clima agradável de trabalho.
Essa série de quebra de acordos geraram um clima péssimo de trabalho no evento. Essa publicação nasce de uma somatória de relatos e atenta a organização à necessidade de esclarecer esses acontecimentos, firmar um compromisso com a resolução desses problemas e a proporcionar um ambiente de trabalho transparente e digno para toda a categoria. Juntos podemos tornar o beco dos artistas um espaço melhor para o evento como um todo, organização, artistas e visitantes.
Aos artistas, os convocamos a expressar sua insatisfação sobre “pequenos detalhes” que por vezes deixamos passar e acabam sendo normalizados, tornando o evento cada vez mais alheio às nossas necessidades. Aos que não querem se expor, o coletivo se coloca à disposição para ouvir, condensar e manifestar a somatória dos relatos e usá-los para denunciar todo tipo de abuso trabalhista, e/ou questões de opressão de modo geral, nas nossas redes. Não somos adeptos do corporativismo.
O debate público não pode e não será silenciado.