04/08/2023
PAINEL CRÍTICO: E o Palhaço, O que é? É mãe solteira, preta e artista! - por Bárbara Freitas
Olhar crítico a partir de “E o palhaço, o que é?” da Cia. Palhaçaria para
"E o Palhaço, o que é?” É uma obra de palhaçaria, mas também é sobre a luta das mães solteiras, especialmente das mães pretas solteiras, inspirada na criação de Maria Eliza Alves dos Reis, a primeira mulher palhaça negra do Brasil, que se apresentava como o Palhaço homem Xamego.
Uma das cenas mais bonitas da obra é quando, sozinha em seu camarim, depois de já tirar a maquiagem, com seu bebê no colo, a mulher por trás do palhaço coloca seu braço por dentro do figurino estendido em um cabideiro e abraça a si mesma e o bebê. Ao fazer isso conseguimos ver, ao mesmo tempo, ela, o pai-palhaço e o bebê. A figura do palhaço torna-se, neste momento, também a figura do pai ausente, e ela, essa pessoa com uma missão tripla: a de ser artista, a de ser mulher e a de ser pai e mãe.
Essa é uma peça sobre a solidão da mulher negra e, de forma muito delicada, a solidão da mulher negra artista.
São pequenos detalhes que nos mostram que a obra tem um recorte racial: a troca de uma boneca de pano branca por uma boneca abayomi, as músicas no rádio e as fotos da família na parede. São detalhes que vão direcionando nossa leitura para entender mais sobre essa figura e, posteriormente, reconhecermos isso com a retirada da maquiagem branca do palhaço e da peruca lisa.
Quando ela tira a maquiagem, por um breve momento, a vemos sem o nariz do palhaço. Pouco tempo depois, o nariz do palhaço volta à face, agora lavada, a criança acorda chorando e os desafios para cuidar dela recomeçam. E é tão bonito, tão honesto e tão delicado ver a palhaça sem maquiagem, sem figurino e ainda assim, palhaça.
Maria Eliza Alves dos Reis precisou ser um palhaço homem porque era proibido que mulheres se aventurassem na arte da palhaçaria. Ao tirar a maquiagem, nos deparamos com a mulher palhaça que existe ali para além do Palhaço Xamego, podendo ser engraçada com sua feminilidade e maternidade à mostra [...]
Acesse a crítica completa no site fitriopreto.com.br