04/07/2022
O teatro perdeu hoje sua figura mais importante em todo o mundo, o diretor britânico Peter Brook. Com suas ideias e sua prática teatral vem sacudindo e remexendo com certezas e dogmas da arte do teatro desde a década de cinquenta. Seu livro “The empty space” (O espaço vazio) era uma espécie de leitura obrigatória para os coletivos teatrais que, no Brasil e no mundo, no final das conturbadas décadas de 60 e começo de 70, buscavam os ares novos de um teatro que estabelecesse um jogo vivo entre os atores e a plateia e que servisse como contraponto à institucionalização da arte e da cultura, aquilo que Peter Brook denominava como ”teatro morto”.
Suas experiências sempre trouxeram uma lufada de vida e renovação ao teatro. Nesse sentido, vale chamar a atenção para duas iniciativas extremamente significativas. A primeira, a fundação de uma companhia internacional, com sede em Paris, no Bouffes du Nord, uma região mais periférica da cidade. A companhia era composta por atores das mais diferentes regiões e culturas do mundo, e foi ali que ele criou espetáculos memoráveis como “O Mahabaratta”, “Le conference des oiseaux” (por A conferência dos pássaros), entre outros.
Outra experiência magnífica que ele empreendeu com sua trupe de atores foi a longa viagem que fez pelas ruas da África, encontrando com seus improvisos e jogos teatrais delineados por um simples tapete estendido no chão, o povo e a cultura desse continente, pelo qual ele nutria uma verdadeira paixão.
Aliás, é difícil pensar onde a sua ação e influência não foram marcantes. Basta lembrarmos do impacto que teve o filme “Marat/Sade” baseado na peça de Peter Weiss ou da extraordinária viagem à cultura do Oriente e da tradição no filme “Encontro com homens notáveis”. Shakespeariano de carteirinha, sua obra sempre foi um diálogo com o vasto mundo do Bardo.
Lembro-me sempre de uma história de Peter Brook que o Paulo José gostava de contar a fim de ilustrar como o teatro é e sempre será o lugar do presente, da criação no aqui e no agora a partir do salto no escuro de preencher o espaço vazio. A história era essa: Lá pela década de quarenta, Brook é convidado para dirigir uma peça de Shakespeare na renomada “Shakespeare’s Company” em Londres. Preocupado em mostrar serviço e impressionar positivamente a equipe com seus conhecimentos de direção teatral, ele decide estudar e planejar todo o cenário e os figurinos da peça, elaborar uma intrincada planta baixa de todas as movimentações dos atores e dos coros da peça e estudar minuciosamente as situações e conflitos de cada cena. Feito essa longa prévia preparação, é finalmente chegado o primeiro dia de ensaio e ele conta ter caído em si ao se reunir em volta de uma mesa com seu grupo de atores. Na verdade, ele não sabia nada sobre aquela peça que ele teria que montar com aqueles atores, com quem estava encontrando pela primeira vez.
Na trajetória do Galpão, os textos de Peter Brook sempre iluminaram nossas crises, cheias de dúvidas e questionamentos. Lembro-me quando, bem no início do processo de montagem de “Romeu e Julieta”, estávamos às voltas com a dificuldade enorme de dizer o verbo Shakespeariano. Tudo soava um tanto declamado e superficial. Um texto de Brook falando sobre a necessidade de colocar no corpo dos atores as palavras de Shakespeare e como ele conseguiu isso em sua montagem de “Sonhos de uma noite de verão” fazendo com que os atores fizessem trapézio, foi fundamental para que elaborássemos as pinguelas a dois metros do chão, onde tínhamos que improvisar os textos e as músicas do espetáculo.
Em nossas andanças pela Europa em 1989, tivemos o privilégio de assistir a uma palestra dele. Foi no teatro Goldoni, em Firenze, na Itália. Vários grupos do mundo estavam celebrando a trajetória de pesquisa do diretor polonês Jerzy Grotowski. E Peter Brook foi falar sobre a experiência de teatralidade radical da negação do teatro como cena e como busca de uma espécie de interação mística. Ele falou por quase três horas, de pé, com um único foco de luz iluminando-o no centro do palco. Três horas em que mais de quinhentos espectadores hipnotizados ficaram deslumbrados com a fala simples, clara, absolutamente coloquial de um homem que sabia que o teatro se faz também da simplicidade de uma brincadeira de crianças que acreditam piamente naquilo que fazem.
(Eduardo Moreira, Grupo Galpão)