21/12/2016
Não é fácil fazer teatro no Brasil (mas que novidade). Outro dia, logo depois da peça, um sujeito engravatado vira pra gente e diz: "é pra isso que vão nossos impostos?", com um sorrisinho. "Não, a cultura pega só as migalhas, o dinheiro vai para os corruptos que estão rindo da nossa cara", respondi. Por sorte ou não estes comentários são exceções. Hoje e amanhã são os últimos dias da temporada de Avenida Central, no Teatro Dulcina, na Cinelândia, às 19h, com entrada gratuita, minha direção, supervisão de Celina Sodré. Nas 10 apresentações nas arenas da Penha, Madureira, lona Anchieta e teatro Arthur Azevedo tivemos casa cheia, cerca de 200 pessoas por sessão, graças ao fantástico trabalho de formação de plateia da Claudia Bueno. Depois da peça, invariavelmente dezenas de pessoas vinham nos questionar como João do Rio tinha escrito aquilo tudo há cem anos, se era tão próximo de nós. Desde o início, o nosso tema era claro: buscar as doenças do carioca. Que, não por acaso, estavam em estado de formação há exatos cem anos, exatamente naquele momento em a cidade era esburacada em nome de um projeto de belle epoque carioca. Milhares de cortiços, ruas, prédios históricos, culturas, oralidades, saberes, colocados abaixo da noite pro dia. Dessa mesma fonte beberia Nelson Rodrigues por exemplo, e tantos outros. Está tudo lá: o frenesi com a chegada do automóvel, da fotografia, do flerte, da moda, o culto ao corpo, ao esporte, ao mar, ao carnaval, o surgimento desse estado de perpétua alegria do carioca, a cidade em permanente estado de construção e ruína. Nós no meio dela, no meio desse caos, dessas utopias sempre naufragadas, também o teatro e a arte arruinados por essa ficha que foi caindo ao longo do século XX, por essas ideias de progresso e de civilização que desembocaram em bomba atômica, destruição e vazio. Cidadãos, atores, atores-cidadãos, teatro, cidade, cidade-teatro, teatro-cidade, realidade, ficção, todos vagando, indistinta e perdidamente, por esse espetáculo "Avenida Central" (o primeiro nome da Av Rio Branco), por esse nosso Rio de Janeiro de cada dia, nos dai hoje o pão nosso de cada dia, perdoai-nos as nossas ofensas agora que já caímos em tentação. Mas livrai-nos do mal. Se ainda der tempo (João Bernardo Caldeira, diretor de 'Avenida Central')