19/05/2022
INTRODUÇÃO
Ei, vaqueiro, chegue já
Ouça bem a história
Que eu vou contar
Certo dia, em Serrita
Sem pena, sem dó
Mataram Raimundo Jacó
Era vaqueiro como a gente
Humilde, bondoso, contente
E aqui estamos nós
Até hoje sem resposta
Só que a luta vira semente
E canção na nossa voz
Entoou a morte, Gonzagão
E fez a missa, Padre João
Ganhou as ruas, a procissão
Que hoje é celebração
Tem vaquejada, cavalgada
E soube que até no Carnaval
Vai ter desfile em oração
É uma tal de Apoteose
Que fará nossa missa na pista
Mostrando que o sonho nunca morre
E que vaqueiro também reza com sambista
SINOPSE
“Ei, gado, oi”
Em nome do Pai, dos filhos que aqui estão e dos espíritos que pairam sobre essa terra seca.
Badalam sinos e soam berrantes; tremulam chamas de velas feito bandeiras; lá em cima, a cruz; e sobre os ombros, o couro. Ressoam cânticos e clamores, assim como se ouve ao longe o mugido do gado. Sob o Sol que alumia o caminho e teima a toda essa gente ressecar, segue o sertanejo que teima em (re)existir pelas veredas que vida o leva, rumo ao altar.
“Tengo, lengo, tengo, lengo
Tengo, lengo, tengo”
Todos de joelhos, olhos fechados... Tende piedade de nós.
Que o Pai perdoe o filho que clama para que Sol pare de queimar sua pele e seque o açude e a sua fé. Que o filho perdoe o sertão pela sua inclemência ao engolir as almas que tocam seu chão. Perdoa, meu Pai. Da própria desgraça, seu filho vaqueiro canta para tentar ser feliz. Acode, meu Pai. O espírito da vida escorre pelos dedos feito chuva, que por ora não cai, mas há de chegar e irrigar nossa salvação.
Palavra do vaqueiro, graças a Deus!
Naqueles dias em que o corpo se esvaia pela quentura da terra, a poeira do sertão inspira os profetas da seca. Evangelhos da caatinga, liturgia da lida do roçado. No sertão, palavra da salvação é chuva. Nos salmos e escrituras daqueles que resistem aos desafios desse chão, o desvario é labuta de sobrevivência e o sertanejo, uma fortaleza.
Recebei, ó Senhor, a nossa humilde oferta.
Dessa vida de sofrimento eu carrego o meu amor pelo gado que toco. Minha carapaça é feita de gibão. No meu aboio, deixo as dores que rasgam minha alma. Pai, venha cá. De chapéu e berrante, eu entrego, em suas mãos, o ofertório do vaqueiro desse chão.
Anunciamos, Jacó, a sua morte. E suplicamos que tu volte pra essa gente. Vinde, Raimundo!
Carcaças guardam sacrifícios de cada sertanejo sonhador. Nosso companheiro Jacó foi morto, no meio da boiada, defendendo seu ganha-pão. Foi recebido em carruagem por Caetana, a moça mais temida do sertão. Pouco se fala sobre nosso herói vaqueiro, que se sacrificou pela sua gente. Ficam as memórias costuradas em cada medalha da sua roupa. Lembrai-vos, Jacó, do teu povo! Lembrai-vos, Raimundo, dos teus discípulos! Iluminai daí, o sertanejo daqui, que te carrega no peito.
Corações ao alto. O nosso vaqueiro está com Deus.
Em cada casinha de taipa, há baús de sentimentos guardados, de pedidos de fartura, alegria e proteção a Deus, aos santos e ao vaqueiro que se foi. É Padre João Câncio, junto de Gonzagão, que carregou esses baús e montou, no terceiro domingo de julho, a celebração sertaneja para Raimundo Jacó. Vem gente de tudo quanto é lugar... pra vaquejar, cavalgar e orar. Pedir a benção. Agradecer ao herói do chão rachado, entidade protetora dos sertanejos, que carrega os pedidos do teu povo e afasta Caetana da gente. Na missa em sua memória, nós, vaqueiros, denunciamos também a injustiça e a miséria. Nosso aboio é brado de luta, canto que declara guerra contra tudo o que assola o sertanejo. Gente de garra que segue em romaria pela memória do Raimundo protetor. Que o Senhor esteja convosco, porque Jacó sempre estará no meio de nós.
Pesquisa e desenvolvimento: Vanderson Cesar
Introdução: João Carlos Martins
Sinopse: Lucas Guerra
Logotipo: Rodrigo Cardoso