Na década de 70, meu pai tocava LPs à noite antes de dormir. Isso me embalava o sono, mas quando um lado do LP terminava, eu acordava e ele colocava o outro para eu continuar dormindo... Fui crescendo ao lado de um pai amante da música. Meu pai tocava violão e era festeiro. Tinha festa na minha casa quase todos os finais de semana. A vitrola começava a tocar no sábado de manhã e só parava no domingo à noite. Meu pai era DJ e não sabia...
Durante as festas ou encontros com os amigos, que meu pai fazia em casa, percebia que meu pai não baixava o volume da vitrola nem para conversar. Se alguém quisesse falar com ele teria de gritar mais alto que os alto falantes da vitrola. Ele respondia e, às vezes, também puxava assunto nessas condições: falando bem alto; gritando; com um belo sorriso no rosto. No início da minha adolescência, na década de 80, visitei um amigo que simulava um ambiente de “baile” no quarto de ferramentas do pai dele. Fiquei encantado com o ambiente iluminado apenas com luzes coloridas e piscantes. Lá, conheci gêneros musicais que até então eu desconhecia: tratava-se de funk e soul.
Aprendendo a dançar
Meu amigo era fã de Michael Jackson e gostava de imitar suas coreografias. Ele próprio tinha um jeito de dançar que lembrava James Brown. Ele chamava de “deslizante”. Eu já arriscava os meus passinhos... Esse meu amigo dizia que eu já tinha o meu próprio “deslizante”, mas o dele era muito melhor. Eu só sosseguei quando aprendi. A surpresa veio quando passei a imitar Michael Jackson e fui o primeiro do grupinho que gostava de dançar a aprender o mágico “Moon Walker”. Daí para frente, só curtia música dançante!
O meu grande presente
Meu pai foi um bom observador. Ele sabia das coisas que eu ia gostar antes mesmo de eu perceber. Ainda nos anos 80, meu pai trocou a vitrola por um pequeno sistema de som da Telefunken.
Diante do meu grande interesse e satisfação em ouvir e dançar músicas, meu pai me presenteou com um outro sistema de som da Telefunken:
Este sistema modularizado foi um divisor de águas. Meu lazer nunca mais foram os mesmos... Já não dava importância para o futebol, vôlei nem bike. Meu “negócio”, a partir de então, era gravar músicas em fitas magnéticas (K-7).
A escola da vida
Havia uma rapaziada que possuía equipamento de som profissional e costumava tocar em festas juninas, bailes de escolas, carnaval e eventos de igrejas. Era a equipe “Box 41”. Foi com eles, os dois da esquerda na foto abaixo, que eu aprimorei o meu dom: Jorge e Paulinho.
Superando as limitações
Fazer beat matching com pick-ups sem pitch, não era para qualquer um. Tinha de frear o prato do toca-discos aplicando pressão no pino central do do mesmo... Lá onde se encaixa o furo dos discos de vinil. Ou então, acelerar com movimentos suaves e circulares sobre o selo da gravadora do vinil. Não havia informação de BPM da música, de forma facilitada como hoje. Havia de ter a habilidade de tocar as músicas na mente para decidir se uma música era ou não candidata a encaixar-se na música que já estava tocando. O toca-disco que veio no sistema de som que meu pai me deu tinha pitch e acionamento do motor do prato por um botão, além de um sistema de luz estroboscópica que indicava se a rotação estava em 33 rpms exatos, acelerada ou atrasada. Eu treinava a coordenação motora tocando a música de um LP com o botão de acionamento motor do toca-discos desligado. Girava o disco somente com a força das mãos prestando atenção no sistema estroboscópico... Era quase perfeito!
Me tornando uma referência
Minha paixão por funk internacional, me fez comprar muitos discos. A maioria era comprada nas lojas de discos, mas andei adquirindo alguns poucos álbuns e discos “mix” importados. Afinal, a grana estava curta! Pouco a pouco, minhas gravações em fitas cassete foram ganhando notoriedade entre os mais chegados. Havia uma particularidade que me destacou: como eu não tinha mixer em casa, eu gravava “balanços” na fita cassete mixada por corte. Uma vez, o Paulinho da Box 41 disse que eu fazia o estilo Whiskadão cujas músicas do set dos álbuns eram mixadas assim.
Volta e meia, aparecia alguém lá em casa me pedindo para gravar músicas neste estilo de mixagem.
Tocando profissionalmente por amor
Quando me dei conta, já tinha quase uma centena de vinis e estava fazendo parte da equipe Box 41 como DJ oficial de “balanço”. Minha “remuneração” era estar no comando das “carrapetas” e colocar a massa para dançar ao som dos meus vinis. Nesta fase, eu já possuía um mixer Tonos IC7. Não consegui encontrar nenhuma foto deste modelo na internet, mas ele era muito parecido com o IC8 da imagem abaixo. Exceto, pelo fato do meu IC7 ser de aço escovado. Aí, já dava para brincar em casa mixando as músicas do Tape Deck e do Toca-Discos que compunham o sistema modularizado de som que meu pai me deu (aquele da foto lá em cima...).
A despedida
Como qualquer homem, eu precisava trabalhar para ganhar dinheiro. Era com o meu humilde salário de balconista de um botequim situado na rua José de Alvarenga (Duque de Caixas - RJ) que eu pagava pelos meus discos. Eu trabalhava no botequim de segunda à sábado. Tinha de estar no ponto do primeiro ônibus que eu pegava às 5h30min, se não me atrasava. Então, tinha de acordar pelo menos 1h antes disso. Tocando da noite de sábado à madrugada de domingo, matinê das 15h às 18h no domingo e à noite do mesmo domingo das 20h à meia-noite, a segunda-feira era um dia sofrível de tanto sono. Então, abri mão da materialização da minha paixão para não perder o emprego. A partir dali, perdi o contato com a arte de mixar músicas. Isso aconteceu no final dos anos 80.
A força de uma saudade
Com o advento da Internet e a possibilidade de baixar músicas no formato .mp3 fui em busca de todas as músicas que eu possuía em vinil e que já não os possuía mais. Vendi quase todos eles um pouco antes de servir à aeronáutica. Foi aí que conheci um software chamado Acid Pro que veio de brinde num CD de uma daquelas revistas que traziam dicas para usar o Office e uma centena de figurinhas do tipo “clipart”. Passei a montar alguns “Mega mixes” com as músicas que eu baixava em mp3 misturadas com os samples que vinham no próprio pacote de instalação do Acid Pro. Isso, já no final dos anos 90.
O reencontro
Em 2007, conheci o software Virtual DJ e fiquei apaixonado pela sua interface gráfica. Ela trazia a tona toda a minha lembrança dos tempos de DJ com aquele par de toca-discos que é exibido na tela depois que o programa é carregado. Os braços dos toca-discos virtuais lembram de longe o braço em “S” da lendária MK2 da Technics.
Paixão ao primeiro click... E frustação, tabém... Era muito chato e limitado controlar a execução das músicas com teclado e mouse. Foi a partir de então que eu me interessei por controladoras DJ. A da imagem abaixo foi a minha primeira aquisição. Ocorreu em 2015.
Combinava com o Virtual DJ até nas cores. E sei lá... Eu sou flamenguista... :) Minhas primeiras produções para a página “Ouvir Diferente Para Ver Diferente” foi performada “on the fly” com esta minúscula controladora. Mas a paixão se foi quando, em 2016, eu vi uma controladora maior: A Pioneer DDJ-SB2.
Os jogs eram maiores e emulava 4 decks. Isso me fez desfazer da antiga e adquirir esta. Mas o layout desta controladora não batia com o padrão dos comandos do Virtual DJ. Deu trabalho, na época, para encontrar um arquivo que mapeasse esta controladora para o Virtual DJ. Eu estava satisfeito até que conheci a Pioneer DDJ-SX2, em 2017, que além de inúmeros recursos adicionais, também funcionava como um mixer “físico” onde eu poderia conectar em um dos seus 4 canais qualquer dispositivo emissor de sinal tais como toca-discos, CDJs, etc...
Depois dela, só quis saber do Serato DJ! Principalmente, depois de assistir uma performance do meu DJ predileto: DJ Jazzy Jeff! É! Ele usa o Serato DJ! Sem falar que ao adquirir este modelo, vem junto uma licença para uso das versões mais atuais do software, mais alguns pacotes de expansão que torna o “brinquedo” ainda mais interessante.
Em 2018, adquiri a tão sonhada DDJ-SZ2. A controladora top para Serato DJ... Olhos menos atenciosos podem confundir com a DDJ-SX2, mas eu garanto que essa controladora além de ser grande e ter Jogs enormes, oferece vários outros excelentes recursos! Para quem tem mãos com dimensões de 20cm x 20cm que começaram a tocar em pick-ups, essa controladora com grandes Jogs resolveram o meu “problema”:
Vivendo e aprendendo
Eu gostei mesmo desta coisa de produzir versões diferentes de músicas conhecidas, mas fazê-lo somente com a controladora era limitado e corria o risco de repetir o árduo tempo investido no processo todas as vezes em que eu esquecia de algum detalhe e tinha de refazer a gravação. Então, reconheci para mim que a alma que me habita é de um produtor. Por influencia de um amigo músico decidi comprar um teclado musical por conter vários instrumentos em um só.
Influências e inspirações
Digo para minha esposa que desejo tocar teclado como Michael Mcdonald, performar como o DJ Jazzy Jeff e produzir música eletrônica como o Remagic da KV Music Beats. Quando eu estiver neste ponto, imagino que estarei muito mais feliz!
Ajuda e oportunidade
Tenho contado com a ajuda do meu Mano Deuszedir para aprender a tocar teclado e recebido valiosas sugestões e orientações do amigo Fritz para a produção de música. Ambos são feras no que fazem e como os caras sabem!
Colocando a mão na massa
Produzi alguns remixes e postei no meu perfil do Facebook. Uma pessoa de grande valor passou a me incentivar ao passo que me propunha novos desafios. A cada entrega, uma palavra encorajadora... O resultado foi este: passei a acreditar na possibilidade de ter mesmo música nas veias!
Fugindo do anonimato
Recentemente, tenho participado de alguns concursos de remixagem divulgados pelo Indaba Music. Na verdade, foram 3 e ainda não ganhei nenhum, mas estou trabalhando duro para alcançar o meu lugar e enfim, ser reconhecido como DJ, músico e produtor de música eletrônica. Enquanto esse dia não chega, seguirei em uma outra paixão que é produzir código-fonte como Analista de Sistemas em tempo integral. Um dia, com fé em Deus, eu chego lá!
Realizando um sonho
Atualmente, com pouco tempo e grana, mas com muita fé e empolgação, estou iniciando a montagem de um modesto Home Studio. Por enquanto, a “cara” dele é a da capa desta página. Tenho a intenção de adquirir equipamento para sonorizar eventos. Principalmente, festas que demandem por músicas eletrônicas tocadas por um DJ performático: Eu! Termino com uma frase de minha esposa: “É justamente o sonho que nos faz seguir em frente”.