GORDOFalante

GORDOFalante Crônicas A vida nos subúrbios do Rio

24/03/2020

Odeio a expressão fake news, mas vou usá-la para dizer que notícia falsa para mim é problema para estúpido. Se você é minimamente inteligente não crê em lorotas.
O grande problema que tenho percebido são as notícias meio verdadeiras.
Há um vídeo de Drauzio Varella em que ele minimiza a força do Coronavirus. Foi gravado em janeiro. Varella gravou um outro vídeo, um tempo depois, tratando do dinamismo da propagação do vírus e reconheceu que foi otimista no anterior. Os que não gostam dele e se alinham de um lado do espectro político só propagam o primeiro vídeo.
Li um post ontem que trazia uma história do Zózimo Barrozo do Amaral, talvez, junto com Ibrahim Sued, o mais prestigiado colunista social da imprensa brasileira. A história, dizia o post, era extraída da biografia de Zózimo, escrita por Joaquim Ferreira dos Santos.
Fui ao Kindle e vi que o livro estava em promoção, 13 pratas. Comprei.
A história do post abre o livro. Não vou contá-la. Digo apenas que 90% do texto era verdadeiro, o final é falso. O final transformado corrobora a posição política de quem criou o post.
A notícia meio verdadeira é muito mais insidiosa do que a falsa, por ser mais difícil de ser percebida.
Nada deve ser aceito sem um cotejo com outras fontes.
No caso de um texto, vá ao original antes de repassá-lo.
A desonestidade e a ignorância estão em todo lado.

MÃEMÃES E PAIPAISMeu avô me contava que no tempo dele mulheres gostavam de piroca. "Meu neto, bebês eram feitos por home...
23/03/2020

MÃEMÃES E PAIPAIS

Meu avô me contava que no tempo dele mulheres gostavam de piroca.
"Meu neto, bebês eram feitos por homens e mulheres, trepando."
O vô era muito velho. 127 anos. Talvez o mais velho do planeta. Não dizia coisa com coisa. Bebês eram feitos em laboratórios.
"Sua mãe foi feita à moda antiga. Piroca e bo**ta. Você, não. Mãemãe. Engendrado em tubo."
O muito-velho era vigoroso. Não tinha vontade de morrer. Dos 90 aos 100, penou na cadeia. A mania da piroca e a bo**ta. Encontrou uma alopradinha de 30 anos, menor. A rebelde aceitou a experimentação. Punição pra ela, jaula pro velho. Bo**ta só de maiores de 40.
"Eu e sua avó trepávamos a noite inteira. Parece mentira. Sei que você não acredita, mas há pouco tempo homens e mulheres se comiam. Se devoravam. Com p***s e sem p***s se embolavam."
Dizia pro avô que ele não devia falar aquelas coisas. Com xota e sem xota não deveriam se misturar. Era antinatural.
"Não gostaria de morrer sem comer uma xavasquinha. Esse mundo eu desentendo. Maemães, paipais. Laboratórios. Seleção genética. Todos nascendo com o mesmo tom de pele."
O muito-velho não entendia o conceito da homogeneização cromática. No final do processo, todos marrom-acinzentado, o fim do preconceito. A seleção genética já impedia o nascimento de obesos. Eu sabia o que era obeso porque vivia com um: meu vô.
"Netinho, ainda bem que não estarei aqui para ver o final do processo de homogeneização. Um mundo só de iguais."
Meu avô não entendia que um mundo só de iguais seria um mundo sem conflitos, sem violência. O processo estava em andamento. Mais três gerações, não haveria paipais e maemães. Nasceriam os necessários.
"Há 100 anos, meu querido, existiam livros. Eram feitos de papel. O mundo estava ali. Muitos tentaram nos falar deste futuro que vivemos hoje. Eu lia muito. Nenhum deles chegou perto do que vivemos agora. O ser humano é f**a. Sempre se supera."

Nós, machos escrotos sexagenários, somos muito influenciados pela beleza feminina.Não assisto mais a concursos de misses...
23/03/2020

Nós, machos escrotos sexagenários, somos muito influenciados pela beleza feminina.
Não assisto mais a concursos de misses. Agora, a vencedora é a mais antenada e conformada ao pensamento moderno. Eu preferia quando vencia a mais gostosona. As gostosonas que diziam adorar O Pequeno Príncipe, então, estas me enlouqueciam.
Mesmo a fase misse modelo me desagradava. Mulher esqueleto nunca impressionou a esse velhote safadinho.
Mary Baianinha foi a mais bela Panicat. Não tinha ainda o corpo malhado de agora (este ancião não aprecia marombadas). Uma mulher à antiga, sacumé.
Vê-la no BBB 20 ainda me impressiona, mas quando ela abre a boca... Meu Deus!!!
Se ela participasse do programa muda, quem sabe? Eu faria campanha pra ela f**ar. Aqui na quarentena é agradável olhar pra ela... Calada.

O mundo virtual e o real são  diferentes. Surpreenderam-se?No virtual você xinga, basofia, ameaça, quase sem consequênci...
14/03/2020

O mundo virtual e o real são diferentes. Surpreenderam-se?
No virtual você xinga, basofia, ameaça, quase sem consequência. No real, pelo menos aqui onde vivo, se falar m***a, você dança.
A cultura de cancelamento virtual, aqui na Serra do Engenho tem equivalente no mundo real. E ninguém volta do cancelamento serrano.
Sou plateia de um reality e gosto muito. É bom ver pessoas "pontuando", se ressignif**ando, se desconstruindo... Da mesma forma, a rede julga tudo o que é dito pelos participantes e pesa a mão sobre aqueles de quem não gosta.
Quase tudo o que é dito precisa ser minuciosamente pensado. Um exemplo: Alguém disse que caderno de menina era mais bonito do que o de menino. Foi advertido: "Cuidado com o que você diz" - ameaçou uma patrulheira -, "muitos já saíram daqui por menos". Não consegui perceber desmerecimento na fala do homem, mas, confesso, não entendo mais os protocolos de comunicação entre homens e mulheres.
Sobre uma decisão que exigia coragem, a moça afirmou: "É preciso colhões pra isso". Foi desautorizada pela coleguinha: "Por que é preciso colhões? Mulher não tem colhões e tem coragem." Uau! Lacrou. A outra sentiu o golpe e se desculpou. Logo depois, a lacradora enfiava, duas vezes, o dedo no cu de um coreano. No começo do programa, o patolado quase foi pra rua acusado pela web de assédio.
A maioria desses casos, para mim, são tolices. Falta-nos hoje a capacidade de perceber a gradação de sentido do que é falado.
Serei mais óbvio ainda (ou nem tanto). Existe a linguagem falada e a escrita. No mundo real. No virtual, existe a argumentação-bordão e a fala de protocolos. Se você diz mãe solteira, moças se ofendem. O protocolo exige mãe single.
A apresentadora youtuber, tratando de cores, disse gostar de batom n**e. A policial ao seu lado recriminou-a: "Quando você diz n**e, em que tom de pele pensa?" A amiguinha n**e quase se ajoelhou para pedir desculpa.
Frequento bastante o mundo virtual (mais até do que gostaria) e pelas redes sociais temos oportunidade de lidar com gente má, gente que nos faz sentir como anjos. Acho que é resultado de mau caratismo, estupidez e ignorância. O imbecil ganhou voz e escrita. E ele não sabe escrever nem falar.
Sempre gostei de escrever. Gosto de usar linguagem coloquial. Não é fácil. Mas, gordinho, não é linguagem coloquial a usada pela turma do mundo virtual? Não.
Elmore Leonard, o gênio da linguagem coloquial, nos dizia: "Escreva, leia seu texto e se pergunte se você falaria daquela forma. Não? Então escreva tudo de novo".
Virtual, real. Mundos diferentes. Diferentes demais.

Não fiz muitas amizades durante a vida. As que fiz são sólidas.Lembrei-me de um amigaço, já falecido, ouvindo um disco.B...
12/03/2020

Não fiz muitas amizades durante a vida. As que fiz são sólidas.
Lembrei-me de um amigaço, já falecido, ouvindo um disco.
Beniel era uma figuraça. Tínhamos um traço comum: éramos hostis, pouco sociais. Quando começamos a trabalhar juntos em uma sala, pensei que logo sairíamos na porrada. Nunca nos desentendemos.
Na época, continuava a sofrer do mal que me afligia e me aflige até hoje: dureza crônica. Ganhava pouco e gastava muito.
Beniel era o oposto. Ganhava pouco e não gastava nada. Ele me dizia que precisava ter dinheiro no banco para se sentir seguro.
Eu, empreendedor, vi a oportunidade e propus a ele que criássemos o FEAM (Fundo Evangélico de Assistência Mútua). Ele entrava com o dinheiro e eu e outro amigo, Mário Couto, seríamos os clientes.
Todas as vezes que eu precisava de dinheiro nos encontrávamos no Méier, em uma agência do Santander. Ele entrava, pegava o dinheiro, passava pra mim, sorrateiramente, como se fôssemos meliantes em uma transação escusa e, então, entrávamos em um boteco e comíamos uns pastéis.
Numa dessas vezes, depois do lanche, ia pra casa quando vi uma banquinha, na frente de um jornaleiro, vendendo uns cds. Saí de lá com Dosage, do Collective Soul. Gostei muito do disco. Todas as vezes que o ouço lembro-me de Beniel.
Há uns dias puxei o disco no Spotify. De repente, estava chorando. Muito.
Velho chora à toa, mas desta vez pelo menos foram justif**adas, as minhas lágrimas.
Nos últimos dias de Beniel, tinha perdido o contato com ele. Foi morar em Magé, meio isolado. Um câncer de próstata o matou.
Soube da morte dele pelo irmão. Liguei pra saber dele e tive a notícia.
Éramos totalmente diferentes um do outro, mas nos amávamos. (Espero que onde quer que ele esteja não leia isso. Não me perdoaria a pieguice.)
Era um cara especial, mas creio que poucos perceberam isso. É nosso destino.

"Click bait é uma tática usada na Internet para gerar tráfego online por meio de conteúdos enganosos ou sensacionalistas...
11/03/2020

"Click bait é uma tática usada na Internet para gerar tráfego online por meio de conteúdos enganosos ou sensacionalistas. Também chamado de 'caça-clique', esse termo se refere também à quebra de expectativa por parte do usuário que foi 'fisgado' por essa isca de cliques."
Youtubers adoram click bait. É o que atrai a maioria dos visualizadores da plataforma. Acredito que depois de vista a manchete cascateira, poucos assistem ao vídeo até o final para perceber se o título casa com o que é dito.
Outro truque barato usado no Youtube é o da falsa lacração. "Fulano deu uma invertida em Sicrano". Você vê o vídeo e percebe que a fala de seu herói está totalmente descontextualizada. Fala editada. O antes e o depois das palavras do seu idolatrado não são ouvidos. Mas você quer acreditar que seu guia deu mesmo uma invertida em seu oponente.
O texto precisa de contexto. O antes e o depois. O por que foi dito. Extrair uma porção do que foi dito não signif**a que o todo equivale à parte.
A informação que nos chega pela internet precisa ser checada com cuidado. De preferência em mais de uma fonte.
Um meme muito bom apresentava Walter White, professor de química, pai de dois filhos, doente com câncer terminal. O meme era pra ser compartilhado. Havia pedido de oração e de um amém. O meme circulou por várias redes sociais. Muitos se emocionaram com Walter White. Diante da foto do condenado, a piedade. Walter White, no entanto, era um personagem de ficção. A estrela de Breaking Bad.
Revistas impressas não costumam usar desses subterfúgios. Até porque, em uma revista impressa, esse expediente é mais complicado de ser utilizado. Impossível não é.
O click bait não foi inventado agora.
Na década de 1960 do século passado, uma manchete em um jornal mestre em títulos pilantras, a Gazeta de Notícias, fez com que a edição daquele dia do jornaleco esgotasse mas bancas: "Cachorro fez mal a moça". O cachorro, claro, era um hot dog.
A Última Hora, na década de 1970, inventou um personagem: o Mão Branca. Esquadrões da morte matavam e a UH faturava muito com a invenção do Mão Branca. Esse acompanhei de perto porque trabalhava no jornal.
O Mão Branca vendeu muito jornal. Vendeu tanto que depois foi relançado, mas aí o povo estava menos bobo e não funcionou.
Há quem ache que o povo é id**ta. Não é. O povão só tem menos recursos para se informar. Mas isso está mudando.

Já ouvi gente de quem eu gosto muito dizer que no Brasil não existe racismo. Existe.Não estou falando aqui do racismo de...
11/03/2020

Já ouvi gente de quem eu gosto muito dizer que no Brasil não existe racismo. Existe.
Não estou falando aqui do racismo de campos de futebol, de discussão de rua, de demonstrações de ódio. Não é racismo de Supremacia Branca, de Black Power (sim, sei que não há racismo reverso ou há, sei lá). Estou tentando falar do racismo velado, racismo do olhar, racismo que está lá no lado sombrio de nosso coraçãozinho. Este tipo de racismo é difícil de ser observado, pq é escamoteado. Não temos coragem de admiti-lo.
No BBB 20 esse tipo de racismo pode ser visto. Babu Santana é ator, negro, gordo, feio... E é também o personagem mais interessante do jogo.
Em uma oportunidade, ele afirmou: "O olhar dessa mulher para mim é o de patroa. Eu odeio esse olhar." Ele falava de uma participante do jogo.
Outra, toda hora repete: "Tenho medo do Babu". Não é pelo mau humor (presidente Jajá, é assim que se escreve mau humor) nem pela rispidez dele. Participantes do BBB não primam pela boa educação, nós sabemos. Até a Leblonzinho deixou o ar blasé de lado (mas ela é alva, elegante, estilosa, aí pode).
O garoto lourinho foi mais incisivo (Aqui cabe breve explicação sobre o mecanismo do jogo. Os participantes são divididos em cozinha vip e xepa. Babu, por causa do jogo, sempre esteve na xepa.). Sua parceira no jogo disse que se pudesse levaria o Babu para a vip. O garoto mandou: "Acho que o lugar dele é lá na xepa" (não disse exatamente isso, mas foi o que quis dizer).
O racismo que aparece nesses momentos vem sempre misturado com condescendência. E na TV vemos isso com clareza. Aqui fora não temos como observar esses aspectos da vida. Pela TV podemos ver tudo com atenção e sem risco.
Aqui do meu lado está sentada minha querida sogra. Na TV, o rosto de Babu é enquadrado. Ela olha e diz, candidamente: "Que homem esquisito!"
Até a santa derrapa.

LÍQUIDOMotoboys não têm muito tempo pra conversar. “Tio, tô sempre no corre.” Sou um velho conversador. Conservador, tam...
18/02/2020

LÍQUIDO

Motoboys não têm muito tempo pra conversar. “Tio, tô sempre no corre.” Sou um velho conversador. Conservador, também.

Um amigo é dono de várias pizzarias. A primeira nasceu há alguns anos aqui no Engenho da Rainha. À noite, eu voltava do trabalho e, na frente da Lavoro, quatro, cinco motoboys estacionavam aguardando as pizzas f**arem prontas para serem levadas aos clientes.

A BBC News publicou extensa reportagem sobre as dificuldades que aplicativos têm causado a restaurantes menores. Meu ponto de vista, aqui neste texto, será o do cliente e, também, um pouco o do motoboy.

Há apenas cinco anos, se você quisesse almoçar, regularmente, em casa, precisaria sair recolhendo prospectos de propaganda, cartões e buscar informações de restaurantes que entregavam quentinhas em sua casa. Era trabalhoso. Quase sempre você era mal atendido. Os motoboys levavam sua quentinha junto com outras dez. Se a sua fosse a última a ser entregue, imagine como ela chegava.

Os motoboys eram mal pagos. Dependiam da consciência dos donos de comércio. O serviço era quase sempre deplorável.

A curva foram os apps. Para melhor ou pior, o futuro dirá. Por enquanto, clientes e motoboys têm gostado bastante.

O motoboy paulista Tavares 160, youtuber com 500 mil seguidores, já foi entrevistado até pelo Datena. Trabalha com o Ifood e o UberEats. Fatura, diariamente, cento e poucos reais. Já conseguiu em um ótimo dia chegar a 260 reais, só com o UberEats.

Você pode pensar, se for um jovem empapuçado, que é pouco dinheiro. Não é. Pelo menos para 90% da garotada.

Sou usuário pesado de apps. Compro remédios, comida e lanches dessa forma. Faço mercado por app. E, na maioria das vezes, sou muito bem servido.

O comerciante pode usar os motoboys dos apps ou contratar seu pessoal próprio. Se assim fizer, paga uma taxa menor só app. Difícil está encontrar motoboys que troquem uma remuneração variável que passa de 100 reais por uma fixa de, no máximo, 50 pratas.

Como esclareci, o lado do comerciante eu não sei, mas para nós clientes tudo vai bem. Almoço todos os dias em um delivery chamado Boca Nervosa (é sério). Cheguei a eles pelo Ifood. Um dia, junto com a quentinha, veio propaganda do restaurante. Passei a pedir comida pelo zap. Não demorou muito e rolou o primeiro vacilo: a comida não veio. O motoqueiro não tinha aparecido. Outro dia, esperei mais de duas horas. Como disse, sou chegado a um papo. Elogio e malho a comida servida com naturalidade. A mocinha do zap das quentinhas Boca Nervosa me disse que há uma semana o restaurante procura profissional para fazer entregas. Quando se trata de comida, sou pouco fiel. Engatei um romance com o ótimo Boisucesso e sou servido pela rapaziada dos apps. Até o momento, sem furo.

Restaurantes têm dificuldades de enfrentar o poderio dos apps; entregadores querem ser mais bem remunerados; e nós, clientes, desejamos ter nossas necessidades atendidas.

Nunca fui a Foz do Iguaçu. Um amigo vai sempre. Ele atravessava a fronteira de táxi e pagava cerca de 50 reais do hotel ao shopping no lado paraguaio. Há um ano, ele me disse, o Uber começou a funcionar bem por lá. Na primeira corrida, pagou 10 reais. Alguma dúvida que ele jamais embarcará, de novo, num táxi em Foz?

O mundo muda rapidamente nas pequenas coisas e nas grandes, também.

Leandro é motoboy em Fortaleza. Acompanho-o pelo Youtube, também. Em um de seus vídeos, ele mostrava preocupação porque o Ifood ia mudar a periodicidade da remuneração: em vez de quinzenal, passaria a ser semanal. O garoto se preocupava em programar sua remuneração para pagar combustível, moradia, despesas eventuais e poupança. Em 2020, está cada vez mais difícil o trabalho formal, com carteira assinada. Circulando pelas ruas de Fortaleza, ele diz: “Não sou empreendedor, eu me viro. Estou aqui por opção, mas com o estudo que tenho não ganharia o que ganho em uma firma”.

Em nosso mundo polarizado, uma coisa sempre precisa excluir outra. É o que chamo idiotia dos tempos atuais. O jovem pode ir atrás de dinheiro para asfaltar o caminho de seus sonhos e, simultaneamente, lutar por melhores condições de trabalho. Não dá é pra choramingar paralisado.

Em um município do Rio, havia um riacho. A população pedia à Prefeitura que fizesse uma ponte sobre ele. Ponte feita, quem morava de um lado do riacho deixaria de caminhar 2km para chegar ao centro comercial da cidade. A Prefeitura enrolava. “Não temos 500 mil para construir a ponte.” A população se uniu e fez a ponte por 5 mil reais. Foi noticiado por toda a imprensa. O mundo se transforma e temos de pensar sobre o que fazer diante de situações que anteriormente não nos cabia resolver.

Quando comecei a trabalhar em 1974, no Jornal do Brasil, éramos 150 revisores de texto distribuídos por três turnos. Dez anos depois, não havia mais revisores no JB.

Hoje, muitos estudam para serem profissionais de carreiras que não existirão quando estes alunos estiverem formados.

A fluidez do mundo de hoje pode ser apavorante, mas ela está aí. Não adianta chorar no meio-fio. Aliás, ainda existe meio-fio?

O POVO- Geraldo e Beatriz foram a Paris?- Fala baixo. Segredo de estado. Ir a Paris com essa crise... Parece ostentação....
23/03/2019

O POVO
- Geraldo e Beatriz foram a Paris?
- Fala baixo. Segredo de estado. Ir a Paris com essa crise... Parece ostentação. Bibi quis. Gegê foi contrariado. Se alguém souber no Partido.
- Estão indo com o dinheiro deles. Trabalharam. Bibi é romântica.
- No Partido pregam que o dinheiro não deve ser usado para satisfazer aspirações egoístas.
- Você se filiou?
- Não, mas assisti a umas palestras. O Gegê deve vir candidato a dep**ado estadual. Ele é batalhador, estudioso, tem uma p**a consciência social. Não perde um debate.
- Cara, não sei se é porque fui amarradão na Bibi, mas sempre achei o Gegê um babaca. Ele é do contra.
- Está sempre na contramão, não segue a manada.
- E se a manada estiver indo na direção certa?
- A manada é manipulada. A imprensa...
- O material de propaganda do Partido não manipula?
- ...
- Ele vai sumir dez dias com a mulher, ninguém vai perguntar por ele?
- Foi pra Araruama. Está se preparando para os embates de novembro. Nem celular levou.
- Que embates?
- Não sou do Partido, mas creio que serão realizadas várias manifestações. A pauta ainda será definida.
- Mas não entendo porque têm de esconder uma viagem romântica. O dinheiro é deles.
- Não é. É dos guerreiros. A imagem de Gegê não pode ser maculada. Quando ele chegar ao poder e usar o dinheiro do Partido, sempre para o bem do povo, ninguém poderá dizer que ele está agindo incoerentemente.
- Você admira genuinamente o Gegê.
- Admiro e respeito. Tanto que já aceitei o convite para ser assessor dele depois de eleito. Faço tudo por Gegê e pelo povo desvalido.

Não sei se é porque tenho pouca resistência à dor, mas admiro quem, sob tortura, mantém-se em silêncio e não revela a se...
23/03/2019

Não sei se é porque tenho pouca resistência à dor, mas admiro quem, sob tortura, mantém-se em silêncio e não revela a seu algoz segredos comprometedores.
A bravata da Mulher ao afirmar desprezo por delatores e se dar como exemplo de resistência à tortura é só isso mesmo: bravata. Não tenho números, mas posso chutar: menos de 3,7% de homens e mulheres submetidos à tortura resistem ao suplício e não entregam até o que não sabem.
Há delatores mais desprezíveis do que outros. O maniqueísmo entranhado em nós não permite, algumas vezes, que percebamos isso. Há quem traia os companheiros porque muito apanhou. Há quem o faça por vantagens. A figura do delator, é fato, nos causa um horror hipócrita.
Lembro-me que aqui no Brasil, durante a ditadura militar, apareciam na tevê revolucionários “arrependidos”. Davam testemunho, reconheciam as escolhas erradas e garantiam que teriam vida nova. Muita porrada antecedia essas declarações. Em Angola, a ditadura de Salazar agia assim na colônia. Na União Soviética, Stálin fizera a mesma coisa. E lá os “arrependidos” falavam para não serem mais torturados. A morte era certa.
Esquerda e direita torturam. Policiais e bandidos torturam. E os torturados cantam. Há exceções, mas são tão poucas que não f**a bem cascatear dizendo que resistiu à tortura. Só quem acredita são os muito crédulos, os babacas, os id**tas, os simples.

Um aspecto de “Se joga, Charlie”, série criada por Idris Elba, chamou minha atenção: não se discute (nem é mencionado) r...
22/03/2019

Um aspecto de “Se joga, Charlie”, série criada por Idris Elba, chamou minha atenção: não se discute (nem é mencionado) racismo. (Nestes tempos de baixa compreensão, desgraçadamente, preciso explicar que não discutir racismo não quer dizer que racismo não existe.)
Vamos em frente.
“Se joga, Charlie” enseja muitas oportunidades de se falar sobre racismo e homossexualismo, mas a opção da produção é apresentar negros e homossexuais vivendo. Papeando, e não discutindo pautas. Os personagens multirraciais convivem harmonicamente.
O homossexualismo é tratado rapidamente e relaciona-se, no caso, à cultura nigeriana. A única fala sobre homofobia é irônica, e ótima.
Talvez uma explicação seja a de que a produção é europeia e esses temas, por lá, já estejam sendo deixados para trás. Lembro-me que na década de 80 escrevi uma resenha sobre “Poluição e a morte do homem”, do filósofo e teólogo Francis Schaeffer. Era um tema estranho entre evangélicos. Levou muito tempo para o assunto ganhar importância. Fernando Gabeira, tratado pela esquerda como um deslumbrado quando voltou do exílio, declarou recentemente que quase venceu uma eleição majoritária por ter tratado, na ocasião, de segurança pública. Assunto que atingia a todos.
Em “Se joga, Charlie”, o que é tratado com muita naturalidade é o uso alucinado de dr**as. Queimam, cheiram, bebem... Muito. Não há lição de moral no filme. Advertência só à criança de 11 anos. Um descuidado “Drogas, não, Gabs.”
Eu estranho. Vivo, e sempre vivi, em outro mundo. A droga que usei a vida toda foi comida. Estava aqui na época do movimento hippie, tive muitos amigos usuários de dr**as. Saíamos do Jornal do Brasil, na década de 70, de madrugada, caminhando, cinco, seis colegas, cada um com um cigarro de maconha na mão. Menos eu. Dos 20 anos para cá parei com o cigarro, álcool. A comida perniciosa, não.
Não entendo a defesa das dr**as (a série não faz isso, simplesmente naturaliza seu uso), mas, na idade em que estou, o que desentendo não me esforço mais pra entender.
Desculpem-me os paladinos da justiça, mas não tenho colhões para assistir a programas que precisam ter uma lição moral, social e ética a cada 15 minutos.
“Se joga, Charlie” é entretenimento ligeiro, agradável de se assistir. Poderia ter sido mais bem desenvolvido. Tem elenco ótimo. Piper Perabo é sempre muito boa de se olhar. Espero que haja uma segunda temporada. Se não houver, a primeira fechou satisfatoriamente, sem ganchos.

Endereço

Rio De Janeiro, RJ
20765-171

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