11/10/2024
Ontem fiquei tão comovido vendo uma mãe batalhando para levar mais algum pra casa onde duas boquinhas a aguardavam, que acordei hoje de sobressalto, liguei o computador e danei a escrever.
Não sei se ficou bunitim, mas nem lhes digo o quanto me emocionei ao longo do desenvolvimento do texto.
Talvez até eu transforme em uma peça de Teatro, quem sabe...
CARTA ÀS GÊMEAS
Olha eu aqui, passando por cima dos e-mails e das redes sociais para escrever uma carta. Sim, uma carta, dirigida a pessoas que nem conheço, cujos nomes sequer sei direito, logo eu que não recebo uma carta há mais de 40 anos!
É muito atrevimento!!!!
O que me inspirou a essa façanha foi ver, ontem, uma atriz de raro talento fazendo o trabalho de técnica de luz e de som em uma peça de teatro com atores e atrizes talentosos, porém nenhum mais talentoso que ela quando está no palco.
Entre uma cena e outra, eu olhava pra ela e tentava adivinhar seus pensamentos entre cliques com o mouse do computador e ajustes na mesa de som. Pode ser até que, concentrada nessas novas funções por ela recém iniciadas (era a segunda vez que fazia esses serviços), que ela só estivesse pensando mesmo no seu trabalho naquele momento, mas eu me permiti ir além e me colocar no lugar dela, como se ela pudesse, em momentos fugazes, lamentar não estar em cima do palco fazendo o que ama muito fazer e que faz muito bem, que é representar alguma personagem.
Finda a peça, me juntei a ela e a parte do elenco para aquela tradicional resenha pós-espetáculo em um boteco característico do bairro de Copacabana, e ali eu soube que ela, no dia seguinte, estaria assistindo a um espetáculo do qual faz produção há 16 anos, com duas protagonistas gêmeas: a comemoração do aniversário de suas filhas gêmeas!
Pronto! ali estava, creio eu, uma grande parte da motivação que a levava a aprender meio "no susto" duas funções técnicas importantes em uma peça teatral: levar pra casa mais um pouco de dinheiro para, quem sabe, comprar pela manhã os ingredientes do bolo e alguns ornamentos para compor a mesa de parabéns à noite.
Já faço aqui a ressalva que o fato de estar dentro da atividade Teatro, mesmo fora do palco, é também atrativo para uma atriz.
Feita a introdução com a qual espero justif**ar essa missiva (procura aí no dicionário, digo, no Google, pra saber o que signif**a essa estranha palavra), agora quero me dirigir diretamente às filhotas da talentosa atriz.
Meninas, uma das poucas coisas certas nessa vida é que, enquanto filhos, não pedimos pra nascer, porém quando isso acontece, temos que contar com a sorte de ter como mãe e pai pessoas que se responsabilizem ao menos pelo início de nossa existência, que consiste na adaptação a um mundo novo, um mundo fora daquele ventre quentinho e protegido.
Essa adaptação consiste em, inicialmente, nos proporcionar saúde suficiente para aguentar o tranco dessa primeira adaptação a um novo ambiente, nos provendo com alimentação e outros recursos que nos façam passar dessa fase inicial com êxito.
A partir daí, entram em jogo outros itens, dentre os quais destaco a educação que nos é transmitida por mamãe e papai, seja através de palavras, seja através de exemplos. Sem tirar o valor do primeiro item, considero esse segundo elemento muito importante, fundamental, visto que, se tem uma coisa que as crianças e adolescentes absorvem são os exemplos passados através dos atos que presenciam em sua convivência com mamãe e papai, com irmãos e irmãs e até mesmo com parentes e pessoas com as quais têm convivência mais intensa.
Faço aqui um intervalo para pedir perdão por essa intromissão em forma de mensagem, e desde já tiro de vocês qualquer obrigação de continuar lendo ou de levar a sério o que ora escrevo, pois, às vezes, o que tentamos passar para outrem é, para nós, mais valioso, como um tipo de autoreflexão.
Bem, chega de ser circunloquial, perifrásico, procrastinador (olhaí mais três palavrinhas tão pouco utilizadas que só mesmo uma visita ao Google pode dizer o que signif**am).
Vou agora entrar no cerne da questão.
Meninas, valorizem, mas valorizem muito essa mamãe que tanto luta por vocês, que desde que soube que as estava concebendo, passou a orientar seus próprios passos em função da existência de seus dois novos tesouros, das obras das quais se tornou coautora.
É fato que, em nome de todas essas coisas, as mães são, algumas (ou muitas) vezes, realmente muito chatas, com aquela conversa do tipo "é para o bem de vocês que digo isso (ou que faço isso), minhas filhotas", mas acho que não custa tanto reconhecer que essa chatura é uma função que faz parte da maternidade, que é um fruto, às vezes amargo, do dever de alguém que lhes colocou no mundo sem pedir a sua autorização por escrito, com firma reconhecida no cartório.
Nesse momento em que vocês ainda estão no que chamo de "ventre externo" (vejam, acabo de criar um termo novo pro Google divulgar!), ainda dependendo do teto, da comida e da proximidade da "dona" Simone, aproveitem mesmo cada momento desse privilégio, curtam até a raiz, se aprofundem mesmo nessa lagoa de afeto e proteção, pois é fato que, um dia, digo em alguns dias, digo, em muitos dias, digo, talvez em todos os dias, a única coisa que lhes fará falta na vida é esse dia-a-dia com a "véia".
Estou pensando aqui (mais um intervalo no sermão)...de repente, não são apenas os fatos até agora descritos que estão me levando a escrever essa carta. Ao falar das coisas de mãe, me lembrei aqui que a minha mamãe Guiomar completará, na próxima semana, singelos 99 anos de idade, e que passei os últimos 34 anos sem ter o privilégio do dia-a-dia com ela, desde quando finalmente fui morar sozinho. Pudesse eu voltar no tempo e ter o poder de programar todos os dias da minha vida, certamente almoçar com ela todos os dias da minha existência faria, indubitavelmente (eita, palavrório!) parte dessa programação.
Bem, voltando ao que vim falar, e aproveitando a menção do dia em que fui morar sozinho, vou descrever um fato real que aconteceu no primeiro dia em que fui morar sozinho.
Após completar a mudança e uma primeira arrumação da casa, tomei um banho, coloquei uma roupa de passear e fiz um lanchinho com café e pão. Findo o lanche, escovei os dentes, girei a chave na porta, abri a porta e, de súblto, me lembrei do farelo de pão que havia caído no chão da cozinha durante o lanche, e aí refleti, falando comigo mesmo (uma característica de quem mora sozinho, saibam!): "Jorge, você não tem mais a mamãe pra catar aquele farelo! quando você voltar do seu passeio e entrar na cozinha, o farelo, na melhor das hipóteses, estará lá, pois, na pior das hipóteses você encontrará, junto ao farelo ou no lugar dele, uma barata saciada ou prestes a se saciar com aquele alimento gratuito por você ofertado.
É, meninas, até nesse detalhe besta ela fará falta!
Rio de Janeiro, 11 de outubro de 2024
Jorge Leão