27/09/2019
Crônica da Semana: https://www.facebook.com/escritoraAnaLuPalma/photos/a.104433857573365/132478204768930/?notif_t=page_post_reaction¬if_id=1569590744669288
Mau agouro
Não sou uma pessoa de muitos “não gosto”, destas que têm um prazer especial em dizer que “odeia” alguma coisa. Muito pelo contrário, posso até dizer que sou uma pessoa de bem com a vida: normalmente o copo pela metade, eu chamaria de um copo quase cheio. Exceção aqui para os espetáculos teatrais que considero ruins e que me levam a retirar-me da sala sem dó nem piedade, ainda nos primeiros minutos de apresentação. No mais, sou até bem tolerante! Consigo até mesmo dizer uma mesma coisa umas vinte vezes para a mesma pessoa sem ficar irritada e tenho como prática de boa convivência buscar enxergar no outro seu lado mais positivo. Claro, não consigo isso a torto e a direito e se na terceira tentativa eu não encontrar nada louvável, só mesmo seu lado escrotinho, eu me autorizo cantar com bastante alegria a música que Cris Nicolotti entoa lindamente no Youtube (não conhece? Procure, porque você vai querer cantar para alguém em algum momento solene de sua vida).
Mas, porém, todavia, entretanto, tem uma coisa que me tira do sério: quando estou dirigindo neste trânsito tranquilizador do Rio de Janeiro e vejo na minha frente um carro escrito FUNERÁRIA, aí, prezado leitor, eu rezo porque imediatamente um pensamento trágico me toma de assalto e encontro inevitavelmente a Temida.
Acho que deveria ser terminantemente proibido este nome estampado em letras garrafais naqueles veículos longos e tenebrosos. Parecem um mau agouro, um vaticínio, uma praga andando à minha frente. Pior ainda se for em horário de rush! E eu não consigo cortar pela direita (sim, diante destes carros eu corto até pelo meio) e sou obrigada a ficar olhando cada letrinha maldita que me lembra que o meu fim pode estar próximo.
Não consigo nem sequer olhar no rosto do motorista que guia o tal veículo porque à sua imagem já está anteposta uma caveira branquinha em folha e que ainda tem o mau gosto de acenar para mim com um sorrisinho na boca ossuda. Não ouso tocar a buzina porque tenho medo de, ao chamar atenção do carro da frente, ele finalmente me veja e me espere na curva seguinte.
Eu tento muitas vezes não olhar para o carro, fingir que vou paquerar o cara que está no carro da esquerda, mas quem tem mais poder que a morte, que o carro da morte? E todas as minhas tentativas caem por terra, e fico com um gosto de sabão na boca, humilhada e desgostosa.
É que isso acontece com uma frequência invejável na minha vida. Eu não vejo tantos carros fortes, cheios de dinheiro, poxa! Por que tenho que ver então os da FUNERÁRIA? E olha que eu amo preto, mas diante daquelas lanchas de rodas no asfalto, esbanjando luto, eu fico obcecada pelo colorido da vida.
Acabei de descobrir que existem carros de funerária à venda. Te esconjuro três vezes! Usar meu santo dinheiro para comprar um fantasma ameaçador ambulante? Seria a minha última ação nesta face da Terra e só sob tortura! E tem mais: há um sem número de modelos disponíveis no mercado. Não consigo me imaginar analisando qual seria mais adequado para eu compor a minha frota. Por favor, no dia que eu morrer, tragam um coche, um b***o sem rabo, um cortejo de homens fortes, mas não me coloquem neste automóvel nada auspicioso. Respeitem minha última vontade, isso é o mínimo que posso pedir!
Mas se até aqui nada disso comoveu você totalmente, eu digo que tal perseguição ainda pode piorar: um dia deste encontrei na minha caixa de correio uma propaganda de CARROS FÚNEBRES. Aí eu estremeci e neste dia me recusei a sair de meu quarto. No folheto descreviam os diversos modelos: de luxo, tops, adaptados, transparentes e, pasmem, de dois andares: para o caso de uma morte em conjunto. O valor de cada um quase me fez ter um ataque cardíaco na hora. Evidente que havia a possibilidade de escolher um mais simples, só que aí todos os meus amigos iriam saber o quanto minha família se prontificara em gastar para me levar até a última morada. Aliás, eita coisa de mau gosto é a expressão ‘última morada’! Mas isto é assunto para outra crônica.
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Foto: "Lincoln Town Car Hearse" by MSVG on Flickr - CC BY 2.0