CRIA
O Cria é um encontro mensal no qual o jornalista Leonardo Lichote (repórter e crítico do jornal O Globo) recebe, no palco do Clube Manouche, um compositor para uma conversa regada a memórias, reflexões e, claro, música. Já passaram por lá artistas como Adriana Calcanhotto, Jards Macalé, Moraes Moreira, João Bosco, Martinho da Vila, Alceu Valença e Tom Zé. Gilberto Gil é o próximo convidado, em agosto.
A conversa, entre 1h15m e 1h45m, é entremeada por canções que a ilustram - quase sempre no formato voz e violão, mas Martinho, por exemplo, se acompanhou apenas por percussão. O conceito do Cria parte do processo de criação e tudo que o envolve - desde a origem de algumas canções, a relação entre letra e música, os métodos de composição, o desenvolvimento da linguagem do compositor ao longo de sua carreira, os marcos determinantes para que essa linguagem se construísse desde a infância do artista... As músicas entram na conversa no sentido de enriquecer as falas, provocá-las, dar novo sentido a elas. Em alguns casos, o artista traz músicas de outros que marcaram, como influência, sua própria obra.
Muitos momentos especiais já marcaram a plateia que costuma lotar o Manouche para ver os artistas nesse contexto intimista. Adriana Calcanhotto cantou "Pra não dizer que não falei de flores", de Geraldo Vandré - que nunca tinha levado ao palco. Jards Macalé desconstruiu com beleza anárquica símbolos como o Hino Nacional e "Desafinado". Moraes Moreira e João Bosco mostraram como seus violões tão pessoais foram se formando sob influências mil, da sanfona de Luiz Gonzaga ao piano de Little Richard. Martinho da Vila revelou a inspiração para clássicos como "Disritmia" e "O pequeno burguês". Alceu Valença lembrou sua primeira composição - um choro - e como uma temporada na França foi fundamental para que ele desenvolvesse seu estilo de tocar. Tom Zé contou como o despertar da libido teve um impacto que repercutiu em toda sua obra.
Mais que revelar a profundidade do ato da criação, o Cria leva ao palco a profundidade da vida de cada compositor - e a desvela em camadas. O mais importante, sem nunca deixar de lado a perspectiva de um espetáculo, no qual os artistas cantam sucessos e fazem a plateia rir e chorar. Uma dinâmica guiada, enfim, pelo prazer e pela sensibilidade. Ou melhor, pelos prazeres e pelas sensibilidades - que nascem da conversa e da música.