19/04/2022
“Para que serve o período de recolhimento na época da iniciação?
O recolhimento é um período que serve para que a pessoa seja testada em sua firmeza religiosa. É tempo de ver dentro de si mesmo, enquanto se prepara para ingressar em um novo mundo, em uma nova realidade! Período delicado, que produz algumas modif**ações no ritmo de vida do iaô. Mas muito necessário para que a pessoa sintonize-se bem com seus orixás, conheça melhor seus novos parentes e também seu/sua sacerdote/sacerdotisa. Porém, o tempo necessário para o recolhimento é determinado de acordo com o orixá e com cada casa de candomblé.
É um período em que a pessoa f**a acomodada em um quarto, chamado de rondêmi ou roncó. Local restrito, afastado do movimento público, completamente limpo, onde reinam a paz e o silêncio. No momento em que se recolhe, o iaô desliga-se de todos os seus problemas e de toda e qualquer coisa que diga respeito às relações exteriores. Sua cabeça precisa estar voltada somente para as ligações espirituais, que ajudarão a produzir uma transformação em sua vida. Haverá momentos tensos, pois o desconhecido assusta a todos, e são muitos os iaôs que entram na religião sem saber sequer o que é o recolhimento. Em compensação, haverá momentos de grandes alegrias e satisfação que, com certeza, nunca serão esquecidos. Porém, o mais importante é
que nesse período o iaô obterá ensinamentos úteis que serão usados no seu dia-adia. Aprenderá as regras, os dogmas, conhecerá a hierarquia e a diretriz da religião e do seu Axé e penetrará nos meandros do candomblé. O iniciado prestará juramento à sua casa, a Exu, às divindades, a seu/sua babalorixá/iyalorixá, pois ele tem que ser uma "pessoa que não vê, não escuta e não fala"! Segredos e mistérios são invioláveis!
O recolhimento serve também para que a pessoa passe pelos preceitos sagrados e secretos que ajudarão na possessão do seu orixá.”
A sua doutrina será mais apurada, seus conhecimentos se tornarão mais consistentes, aprenderá a base de alguns saberes. Nele, conhecerá pessoas que dedicarão tempo integral a ele e às suas obrigações religiosas. Pessoas que partilharão do seu dia-a-dia, como a "mãe-criadeira" ou o "pai-criador", cuidando dele, transmitindo-lhe ensinamentos primordiais e essenciais para essa fase e para o seu futuro dentro da religião. Ganhará também um "pai-pequeno" e uma "mãe-pequena" particularizados, pessoas que participarão de algumas fases de sua iniciação e do seu aprendizado. Com todos estes o iaô cria laços eternos de parentesco religioso, geralmente advindo daí uma grande amizade. Terá também como companheiros e instrutores seus irmãos mais antigos na religião. A partir do período da iniciação, pertencerá a uma nova família, que tem como principal mestre o/a babalorixá/iyalorixá.
Para muitos, é neste período que ocorre o primeiro contato com a sua divindade. E será por meio desse transe que conhecerá a personalidade mítica da sua divindade: se é calma ou voluntariosa, dócil, violenta ou irrequieta. Nessa fase também aprenderá a qual panteão seu orixá pertence, se ao das divindades vibrantes, de movimentos violentos, espalhafatosos, ou ao grupo conhecido como o dos orixás calmos, ponderados. Nesta fase, conhecerá muitas palavras da língua das divindades, para que possa participar cotidianamente da comunidade e também para crescer dentro da religião. Aprenderá as danças do seu orixá, e também as danças das demais divindades.
Aprenderá também cantigas e rezas (oriquís) necessárias no seu dia-a-dia e também para agradar e chamar as divindades. Muitas vezes será testado/a e precisará corresponder plenamente aos anseios de seus superiores e também aos seus próprios. Porém, o não conseguir não deverá lhe perturbar, tirar a calma e o equilíbrio. Deverá procurar fazer com que cada erro seja um aprendizado, uma lição de humildade, de estar vencendo
cada etapa com dificuldade, mas também com dignidade, amor e resignação.
A iniciação produz momentos de alegria que poderão ser intercalados com nostalgia e saudade. Isso é natural, pois a pessoa encontra-se reclusa, muitas vezes reunida a pessoas que conhece muito superficialmente. Para esses instantes, a religião possui um ser especial, o Erê, uma divindade infantil e descompromissada, que distrai e acalma o iaô, fazendo-o esquecer a vida mundana. Mas este período passa e o iaô retorna à vida externa, modif**ado e mais enriquecido no seu interior, mais forte espiritual e fisicamente!..”
Texto do retirado do Livro O Candomblé Bem explicado.