01/12/2022
Crítica espetáculo “Casa Invadida”, assistido em 6 de novembro de 2022, no Teatro Gláucio Gill, em Copacabana, Rio de Janeiro.
“Dora e Zé vagam sem destino em meio a um temporal após ter sua casa no morro levada por uma enxurrada quando resolvem se abrigar em uma casa aparentemente vazia, mas na verdade, habitada por Argênida, uma figura misteriosa.”
O teatro Gláucio Gill recebeu para uma pequena temporada o espetáculo com texto e direção de Cecília Terrana: Casa Invadida.
A encenação caminha por uma linha naturalista, quebrada por um elemento mágico, que movimenta camadas as mais profundas da história, é o da personagem Argênida, vivida pela atriz Anita Terrana, que o faz de forma muito forte e convincente – um elemento chave dentro da história - um elemento fantástico, dúbio, que tanto pode ser uma real habitante de uma casa abandonada, como também o elemento que revolve as camadas mais profundas do texto e do ser humano.
Aparentemente simples, realista, CASA INVADIDA traz ao palco cenas do cotidiano, do morador de comunidade, das favelas, que vive, naquele momento, a tragédia “anunciada” de perda de todos os seus bens materiais, o que faz emergir sentimentos, falas, emoções.
Soraia Arnoni e Sidcley Batista compõem bem o casal, sendo que Sidcley Batista consegue imprimir mais força e verdade a seu personagem, mas a atriz Soraia Arnoni consegue manter a contracena sem prejuízo nenhum para o desempenho de ambos.
O cenário, de Flávio Vidaurre, embora criativo, traz talvez informações em excesso que acabam por interferir na narrativa. Traz efeitos interessantes e inesperados, mas a sobriedade e simplicidade receberiam melhor as cenas, dando-lhes apenas o espaço para que a força de seu texto f**asse mais evidente ainda - o texto deste espetáculo é, sem dúvida, protagonista.
Talvez aliada a esta questão, a luz do espetáculo, de João Gioia, f**a prejudicada; com certeza poderia ser melhor desenhada. Na era dos leds sabemos ser difícil o light designer sutil que os refletores “quentes” proporcionavam, mas os leds podem chegar bem próximo da qualidade daqueles “antigos” refletores de gelatina.
A trilha sonora, de Afonso Henrique Soares, é correta.
Em síntese, a Companhia de Teatro Sereníssima traz ao palco um texto consistente, uma encenação convincente falando de questões sociais e humanas contemporâneas, mas que mostram as angústias, dúvidas e indagações ontológicas do ser humano. Vale a pena assistir e sair depois para um chopp, um “papo cabeça”, mas cheio de emoção, que o espetáculo proporciona.
Carlos Augusto Nazareth
Crítico Teatral, dramaturgo, diretor teatral
Assinou a coluna de crítica teatral durante um ano no Jornal do Comércio e dois anos no JB, além de assinar críticas em diversos jornais alternativos e várias plataformas.