30/12/2021
SOBRE O FIM DO NOSSO ESPAÇO!
RESPEITÁVEL PÚBLICO e pessoas parceiras do Sítio Cultural Alsácia, temos um último recado para vocês: O Sítio Cultural Alsácia encerrou suas atividades nesse dezembro de 2021 e gostaríamos de deixar com essa postagem algumas palavras sobre o fim do nosso projeto.
Embora nossa abertura oficial ao público aconteceu em abril de 2016 com uma temporada do nosso espetáculo Primavera da trupe Teatro de Torneado, em 2015 já havíamos iniciado o processo de construção de um Complexo Cultural na cidade de Ribeirão Pires que a cada ano foi se reformulando conforme as mais diversas realidades possíveis das mais variadas pessoas que contribuíram para a nossa existência.
Durante o ano de 2019 o nosso projeto parecia caminhar para um outro rumo e ali iniciamos diálogos que poderiam ampliar a nossa presença na cidade de Ribeirão Pires e seus arredores. E esse processo não foi nada fácil e hoje sabemos o quanto ele também gerou um desgaste em nossa rede e em nossa vontade de produzir e fruir cultura em Ribeirão Pires. Assim, já iniciávamos 2020 conscientes de que teríamos um ano que nos exigiria uma necessidade de readequação.
A chegada da pandemia em março de 2020, além de abalar a nossa já frágil estrutura, abalou demais o emocional das pessoas que de certa maneira “seguravam com muito sacrifício” a existência do nosso espaço. Em meio a tantas interrupções, seguramos a existência do nosso espaço até o presente momento por conta dos compromissos dos projetos do Teatro de Torneado (3 editais) e da formação da primeira turma da Escola Atemporal de Artes (a questão estrutural do endereço é obrigatória para a Regional de Educação). Agora que esses editais já estão em fase de finalização e a turma de alunos da Atemporal já cumpriu seu ciclo de formação, decidimos encerrar as atividades do nosso espaço nesse endereço que ocupamos desde 2015.
Por enquanto, até junho de 2022, sabemos que continuaremos ativos com o nosso CNPJ num outro endereço da cidade de Ribeirão Pires. Nesse endereço, continuaremos o nosso processo de criação de maneira mais íntima e ainda refletindo a presença e continuidade de nossas ações. Sobre a continuidade da Escola Atemporal de Artes, em março de 2022 faremos um post exclusivo e detalhado sobre esse assunto.
Nesses 07 anos de existência do nosso espaço realizamos inúmeros ensaios, oficinas, palestras, reuniões, cursos, imersões, celebrações culturais e apresentações de espetáculos com gente de tudo quanto é canto de Ribeirão Pires, do Estado de São Paulo, do Brasil e até do MUNDO!
Agradecemos a generosidade da família Strasser, principalmente pela entrega do competente e carinhoso Marc. Sem a presença dele o nosso projeto não teria saído do plano das ideias. Hoje seguimos sem o Marc, mas com a certeza de que boa parte do que aprendemos sobre organização e planejamento veio de momentos de partilhas com ele.
Agradecemos a força criativa e inspiradora do William Costa Lima, que durante esses 07 anos se entregou totalmente aos projetos de nossa rede, sempre nos desafiando a pensarmos as esferas da coletividade. Ao mesmo tempo, desejamos que esse momento de transição seja para ele uma boa oportunidade de cuidar de si e recuperar o fôlego para que sua existência continue nos inspirando.
Agradecemos a cada artista da Trupe Teatro de Torneado por trazerem para nosso território uma poderosa e singular história de 16 anos de uma arte sensível e contagiante. Foi lindo ver a natureza do nosso espaço como pano de fundo dos espetáculos da trupe. Sentiremos saudades do modo como ocupavam a Casa Frank Wedekind e o Teatro a Céu Aberto. Só quem viveu essa inovação sabe do que estamos falando! Viva o risco e um axé para a ousadia e força dessa trupe!
Agradecemos a cada jovem da Escola Atemporal de Artes, que em nosso território passaram por momentos tão humanos e transformadores e com a grandeza de suas transparências, alegrias e dores, refletiram suas visões educativas e criaram um projeto pedagógico onde a presença do espírito diante das experiências vividas em comunidade são os principais agentes educadores capazes de promover alguma transformação.
Agradecemos às centenas de pessoas fazedoras da arte e da cultura que trouxeram centenas de proposições e espetáculos para o nosso território e que com suas presenças nos ativaram a necessidade de importantes desvios. Um grande amor por cada um de vocês! Um grande amor pelas tantas vezes que a competente e inovadora Andrea Macera (Teatro da Mafalda) trouxe para nosso território o brilho revolucionário da Escola de Mulheres Palhaças (tanta palhaça linda).
Agradecemos as alegrias e aventuras dos cães e cadelas que nos acompanharam com tanto amor nesses anos e por vezes com suas lambidas ou corridas atrás de galhos tornaram os nossos dias mais vivos ao mesmo tempo em que com suas mortes e sumiços nos relembravam a ideia de que a qualquer momento tudo poderia naturalmente se findar.
E por fim, agradecer ao nosso RESPEITÁVEL PÚBLICO, que conosco pôde viver as efêmeras experiências desse projeto e o quanto ele propôs de inovação para os modos de se pensar, fazer e fluir arte e cultura em estado de natureza. Só quem esteve presente em nossos eventos sabe o como fazer diferente pode fazer alguma diferença no cotidiano das pessoas. Não esqueceremos dos olhares de vocês curiosos e encantados tentando decifrar se aquilo que presenciavam era arte ou era vida. Eram as duas coisas! Eram as duas coisas! E pela união dessas duas coisas: seguiremos!
Que a arte nunca seja instrumento de nenhuma intencionalidade demagoga e que ela seja livre até para gritar que acabou! Acabou! Acabou! Acabou!
(Cantando o axé music “Acabou” da banda “Jammil uma noites”, o ator e aluno da Escola Atemporal de Artes, Victor Luiz, intérprete do personagem Moritz Stiefel, do espetáculo “Primavera” da Trupe Teatro de Torneado, após cometer um suicídio cênico, sai de dentro do espaço da Casa Frank Wedekind e segue cantando o axé music “Acabou” até o portão laranja do Sítio Cultural Alsácia onde ele percebe que mais uma vez o vento derrubou a pequena placa de plástico e que ela não se sustentava presa num suporte móvel de pvc. Enquanto isso a plateia do espetáculo aguarda um pouco triste e um pouco constrangida sem poder fazer muita coisa em relação àquele fim, ensaiado em 2007, reapresentado em abril de 2016 e talvez para sempre presente na memória daqueles que se permitiram tentar construir algo juntos).