13/08/2024
J. BORGES - UM SER MARAVILHOSO!
Minha admiração por J. Borges vem de décadas. Desde a época da Casa da Criança, liderada pelo italiano Giuseppe Baccaro, eu já o via por lá, quando tinha uns 16 ou 17 anos.
Aos poucos, fui me aproximando do mestre, a ponto de, sempre que passava pela BR-232, parar em sua antiga oficina, seja para comprar algumas de suas obras, seja para bater um papo. Mais tarde, tive a oportunidade de entrevistá-lo para o documentário "Carnavais", que fiz no final dos anos 80, destacando os festejos de Momo no interior de Pernambuco, mostrando que o carnaval do estado vai muito além de Recife e Olinda. J. Borges também fez as ilustrações do álbum de João do Pife e Banda Dois Irmãos, produzido pela Página 21, e nos presenteou com a matriz dos desenhos esculpidos na madeira.
Em outra ocasião, por meio do diretor teatral Manoel Constantino, que adaptou para o teatro o cordel "A Chegada da Pr******ta no Céu", marcamos um encontro com Jota para pagar seus direitos autorais. Era um sábado, e chegamos ao novo ateliê dele, numa entrada da BR-232. Jota estava dormindo, mas logo foi acordado por um de seus filhos, que lhe disse que havia um pessoal de Recife querendo falar com ele. Pouco depois, ele apareceu, sorridente. Quando dissemos que estávamos ali para pagar pelo uso do cordel, seu sorriso se alargou ainda mais, e ele disse: "Menino! Prepare a churrasqueira e bote um pedaço de bode pra assar. Vocês querem uma cerveja ou um whisky? Já fico feliz em ver meu cordel virar peça de teatro e ainda ganhar dinheiro com isso, recebendo em casa! Muito bom!"
J. Borges foi a pessoa mais simples e humilde que já conheci, um ser encantador por tudo que o cercava – suas conversas, sua história de vida, seu jeito de ser. Passamos a tarde e o início da noite ouvindo suas histórias, sobre suas viagens pelo mundo, os causos, os amigos, a relação com o escritor Eduardo Galeano, para quem fez a capa de um livro, e até sobre Saramago. Ele nos contou como foi expor no Louvre e, sem falar francês, pediu pegadores de roupa para pendurar suas xilogravuras e cordéis, com a ajuda de um segurança brasileiro que conheceu lá.
Quem teve o privilégio de conhecer J. Borges, seja pessoalmente ou através de sua obra como xilogravurista, cordelista e contador de histórias, guarda sua lembrança com carinho. Que sorte a minha ter convivido com esse ser encantado.
Viva J. BORGES!
Abaixo, fotos do espetáculo "A Chegada da Pr******ta no Céu", produzido pela Página 21, com adaptação do cordel e direção de Manoel Constantino, e grande elenco. Ficou 5 anos circulando pelo Brasil.
Fotos: Filho.