24/11/2022
ROTINA.
Não tinha muita certeza do que estava sentindo. Mas acordou com uma sensação incômoda de ser cedo ou tarde demais para qualquer coisa. Nada fazia sentido e não se sentia parte de lugar algum. Queria simplesmente se anular... se apagar... existir apenas na ausência que sentia em tudo ao redor.
A despeito da manhã fria e calma de Primavera, Seu peito explodia em uma confusão de sensações. Suas frustrações latejavam bombeando milhares de dúvidas e incertezas para a mente confusa, envenenando todo o seu corpo com um torpor estranho.
Não era bom, mas também não o era de todo ruim. O estranho incômodo provocava em seu organismo a sensação de que algo precisava ser feito. Mas não queria mais planejar nada, com medo de frustrar-se novamente.
Queria viver coisas de improviso, negar de forma prática o destino e debochar da predestinação. Queria correr de pés descalços e sentir o mundo sob seus pés.
Talvez fosse esse o incômodo. Vestir o mesmo uniforme todos os dias, bater o ponto eletrônico de modo britânico. Dizer "Sim, senhor!" "Não, senhor!". Cumprir um script que não o permita decidir nada em sua própria rotina. Comer a sobremesa após a refeição e jamais inverter a posição dos talheres. Isso estrangulava sua liberdade.
Desejou se libertar dos movimentos engessados, das atitudes comedidas e do tom de voz equilibrado. Excitou-se com a mera possibilidade de poder ser o que quiser, fazer o que quiser, dizer o que quiser em alto e bom som. Soltar esse grito entalado na garganta, sufocado pela garras do cotidiano.
Já não sentia mais muitas das coisas das quais tinha certeza.
Mas acordou. Sempre é tempo de fazer algo e Isso já é motivo suficiente.
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Clayton Guimarães