09/11/2024
Este é o mais belo e poderoso manifesto de Lorca sobre a fome que transcende o corpo: a fome da alma. Em suas palavras, ele ergue um grito por aquilo que realmente sustenta o ser humano em sua essência. “Nem só de pão vive o homem.” Se Lorca estivesse faminto e abandonado nas ruas, ele pediria não um pão inteiro, mas meio pão e um livro. Pois a fome do corpo, diz ele, é breve e pode ser saciada; mas a fome do espírito, a sede pelo saber, é uma agonia sem fim se não nutrida.
Lorca não poupa palavras contra aqueles que reduzem a dignidade humana ao material, esquecendo o valor das reivindicações culturais, aquilo que realmente eleva e liberta os povos. Ele entende que é preciso que todos os homens comam, mas é essencial que todos saibam, que tenham acesso ao conhecimento, ao “fruto do espírito humano”. Sem isso, as pessoas se tornam máquinas, ferramentas ao serviço de uma sociedade sem alma.
E o pedido de Lorca ecoa pelo tempo: “Livros! Livros!” Para ele, essa palavra é tão mágica quanto dizer “amor”. Ele relembra a história de Dostoiévski, que, isolado na Sibéria, cercado pelo frio e pela fome, não pediu fogo, nem comida ou água, mas livros — porque livros são horizontes, são escadas para a alma ascender.
Assim, Lorca nos ensina que a carência do corpo é passageira, mas a falta de alimento para a alma é uma condenação perpétua. Enquanto o estômago vazio grita, a alma faminta agoniza em silêncio, e essa dor, essa sede de saber e crescer, é a mais longa e insuportável de todas.
Sigam o nosso Instagram: https://www.instagram.com/sobreliteratura_/profilecard/?igsh=MXB2aTI3d2FqcHppNg==