25/08/2026
Memória CASA DO POETA
Observação: Este texto foi escrito e publicado originalmente em 13/05/2025.
Republicado agora. Não se detenha diante do seu tamanho, absorva o seu conteúdo.
SARAU
Quando a periferia tomou a palavra
Por Celso Corrêa de Freitas (CCF)
A Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande-SP compartilha esta reflexão sobre a essência dos saraus, sua força cultural e o papel que esses encontros desempenham na vida artística e social de uma comunidade.
A inspiração para este texto nasceu de uma pergunta simples, feita recentemente por uma pessoa ainda muito jovem:
Afinal, o que é o Sarau dos Pensadores?
A pergunta parecia simples.
Não era.
Ela queria saber não apenas o que acontecia num sarau, mas qual era a essência daquele encontro realizado mensalmente pela Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande-SP
Pensei um pouco antes de responder.
Hoje, quando se fala em sarau, logo imaginamos um espaço aberto à poesia, à música, à dança, ao teatro e às mais diversas manifestações artísticas. Pessoas chegam, ocupam o microfone, mostram sua arte ou simplesmente assistem.
Mas nem sempre foi assim.
Durante muito tempo, encontros artísticos aconteciam de maneira mais reservada. Eram reuniões em clubes, associações, residências de artistas e intelectuais.
Em Praia Grande também existiam esses encontros.
Lembro-me das reuniões na Casa do Poeta, na residência de Leni Morato, figura fundamental de nossa vida social e cultural; dos encontros na casa da poeta Elza Lemke Batalha; e também daqueles realizados pela professora Pepita de Souza Figueiredo, ao lado de Ludimar Gomes Molina, no chamado Grupo de Sarau Lupel.
Naqueles tempos, a palavra “sarau” ainda parecia pertencer mais ao vocabulário erudito do que às ruas.
Enquanto isso, algo importante acontecia na periferia de São Paulo.
A poesia começava a sair dos espaços convencionais e encontrar novos palcos, novas vozes e, sobretudo, novos ouvintes.
Nesse movimento, o nome do poeta Sérgio Vaz se tornaria uma referência com a criação do Sarau da Cooperifa.
Como costuma dizer o poeta praiagrandense Nego Panda: “A periferia tem palavra.”
E talvez esta seja uma das definições mais bonitas que se pode dar a um sarau:
um lugar onde alguém que quase nunca é ouvido descobre que também tem voz.
A poesia deixou de ser apenas cerimônia para tornar-se encontro.
Deixou salas fechadas, atravessou portas, chegou aos bares, às periferias, aos bairros e às praças.
Misturou-se à música, ao teatro, à dança e à vida cotidiana.
Foi com esse espírito que nasceu, em 2007, o Sarau dos Pensadores.
Sua primeira edição aconteceu no Restaurante Netuno, no bairro Cidade Ocian, em Praia Grande.
Desde o princípio havia um desejo muito simples: criar um espaço onde qualquer pessoa pudesse chegar, independentemente de ser artista, poeta, músico ou apenas alguém disposto a ouvir.
Mas há uma curiosidade nessa história.
Durante muitos anos eu soube da existência de Sérgio Vaz sem conhecê-lo pessoalmente.
Uma amiga chamada Emília, que conheço desde meus primeiros dias em São Paulo, quando ali cheguei em 11 de agosto de 1979, certa vez falou de um poeta da periferia que eu precisava conhecer.
Naquele tempo eu morava no bairro da Água Funda e minha vida também passava pelos campos de várzea.
Joguei como lateral-direito e depois fui técnico do Parque do Estado Futebol Clube.
Percorri muitos gramados paulistanos.
Disputamos amistosos, campeonatos, jogos daqueles em que a torcida praticamente entrava em campo com a gente.
Às vezes me pergunto:
Será que, em algum daqueles domingos, Sérgio Vaz estava por ali?
Talvez jogando.
Talvez assistindo.
Talvez gritando da beira do campo.
Quem sabe até tenhamos trocado alguma palavra sem jamais imaginar que, anos depois, nossas trajetórias seriam aproximadas pela poesia.
Posso até imaginar alguém gritando:
— Arrebenta, Serjão!
Ou talvez alguma coisa bem menos publicável, porque futebol de várzea também tem seu próprio vocabulário.
Nunca saberei.
Mas gosto dessa possibilidade.
Dois homens caminhando pelos mesmos territórios de São Paulo, talvez separados por apenas alguns campos de futebol, sem saber que, anos mais tarde, a poesia construiria uma ponte entre eles.
Ele ajudando a transformar o sarau em voz da periferia.
Eu, anos depois, inspirado também por aquele movimento, ajudando a criar em Praia Grande o Sarau dos Pensadores.
Talvez seja justamente isso que um sarau faça.
Aproxima pessoas que antes estavam distantes.
Coloca lado a lado o poeta conhecido e aquele que recita pela primeira vez.
O músico experiente e quem acabou de aprender os primeiros acordes.
O artista e o público.
A palavra e o silêncio.
E, principalmente, oferece espaço a quem ainda procura um lugar para se expressar.
Por isso, quando aquele jovem me perguntou o que era o Sarau dos Pensadores, percebi que poderia ter respondido simplesmente:
É um encontro de poesia, música, dança, teatro e outras artes.
Estaria correto.
Mas seria pouco.
Um sarau é também um lugar onde alguém chega carregando uma palavra guardada dentro de si — e descobre que finalmente encontrou onde dizê-la.
E é para isso que o Sarau dos Pensadores continua existindo.
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O Sarau continua
A Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande-SP convida artistas, escritores, poetas, músicos e toda a comunidade para a 132ª edição do Sarau dos Pensadores.
29 de agosto de 2026 — sábado — a partir das 16h
Instituto Arte Terapia Off-sina
Rua João Jesus Rubio Garcia, 136 — Balneário Las Palmas — Praia Grande-SP
A edição integra as ações do Agosto Lilás, voltadas à prevenção e ao enfrentamento da violência contra a mulher.
Quem desejar também poderá colaborar voluntariamente com 1 kg de alimento não perecível, que será destinado a ação social promovida pelo instituto anfitrião.
Porque o sarau existe quando alguém leva sua arte.
E também quando alguém chega apenas para ouvir.
Casa do Poeta Brasileiro de Praia Grande-SP
Sarau dos Pensadores — SP 132