16/04/2026
O Rio Grande Afundou
Houve um tempo em que o Rio Grande do Sul caminhava com a cabeça erguida. Não por arrogância, mas por consciência histórica. Um estado que ajudou a moldar o Brasil, na política, na cultura, na economia, no futebol. Um estado que produziu líderes, ideias e identidades que ultrapassaram suas fronteiras.
Hoje, no entanto, a sensação que ecoa é outra: a de que o Rio Grande afundou. E não foi de uma hora para outra, foi um processo silencioso, contínuo, quase imperceptível até se tornar evidente demais para ser ignorado.
Na política, o contraste é inevitável. O estado que deu ao país figuras como Getúlio Vargas e João Goulart, e que também foi berço de lideranças como Leonel Brizola e Olívio Dutra, hoje parece distante daquele protagonismo. O que se vê é um governo sem brilho, sem projeto claro, incapaz de mobilizar o orgulho coletivo que já foi marca do povo gaúcho.
No futebol, outro símbolo da identidade do estado, a queda também dói. Grêmio e Sport Club Internacional, campeões do mundo, referências continentais, vivem momentos que não correspondem à grandeza de suas histórias. Não se trata apenas de resultados, mas de perda de protagonismo, de identidade, de respeito no cenário nacional e internacional.
Na comunicação, a crise é ainda mais silenciosa, e talvez mais profunda. A mídia que já foi combativa, plural e formadora de opinião hoje, em muitos casos, parece refém de interesses. O jornalismo que deveria fiscalizar o poder, questionar e informar com independência, frequentemente se limita a agradar. Perde-se, assim, não apenas qualidade, mas o próprio sentido da profissão.
Na economia, os sinais são concretos. Empresas deixam o estado em busca de ambientes mais favoráveis. A competitividade diminui. Até setores tradicionais, como a produção agrícola, começam a dar sinais de desgaste. Recentemente, li que até a lavoura gaúcha, historicamente eficiente e produtiva, vem perdendo espaço para outros estados. É um alerta que não pode ser ignorado.
O problema não está em reconhecer dificuldades. Todo estado, toda sociedade, enfrenta ciclos. O verdadeiro problema é naturalizar a decadência. É aceitar como inevitável aquilo que, na verdade, é resultado de escolhas, ou da falta delas.
O Rio Grande do Sul sempre foi mais do que números, governos ou resultados esportivos. É um estado de identidade forte, de povo orgulhoso, de história densa. Mas identidade não se sustenta apenas no passado. Ela precisa ser renovada, reinventada, defendida.
A pergunta que f**a, e que inquieta, é simples e dura:
Davi Lima de Oliveira