Acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

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Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, revisitamos a exposição “O Silêncio, o Tempo e a Voz”, realizada em 2018 co...
08/03/2023

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, revisitamos a exposição “O Silêncio, o Tempo e a Voz”, realizada em 2018 com obras da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo.

Oficializada pela ONU em 1975, a data remete à histórica luta de mulheres operárias que, no início do Século 20, reivindicavam por condições de vida e trabalho dignas.

Assim, o 8 de março passou a simbolizar a presença e o reconhecimento pessoal e profissional conquistados pelas mulheres ao longo das décadas que seguiram.

Com curadoria de Marina Roncatto – que atuou como bolsista no Acervo de 2014 e 2019 – a mostra “O Silêncio, o Tempo e a Voz” ocorreu entre os meses de março e maio no Saguão da Reitoria da UFRGS e apresentou ao público 25 obras realizadas por 19 artistas mulheres.

Com o propósito de refletir acerca da presença da produção feminina no Acervo Artístico da PBSA, a exposição buscou trazer visibilidade à vida e obra dessas artistas e problematizar situações do imaginário feminino a partir de um recorte que abrangia uma diversidade de estilos, períodos e técnicas.

As artistas presentes na exposição foram: Alice Esther Brueggemann (1917 – 2001), Alice Soares (1917 – 2005), Anico Herskovits (1948), Eleonora Fabre (1952), Fayga Ostrower (1920 – 2001), Gizah Nogueira Tavares (1927 – ?), Haydea Lopes Santiago (1896 – 1980), Hilda Campofiorito (1901 – 1977), Judith Fortes (1896 – 1964), Joyce Schleiniger (1947), Ledyr Vergara (1924 – ?), Mariza Carpes (1948), Maria Di Gesu (1928), Maria Lídia Magliani (1946 – 2012), Pietrina Checcacci (1941), Regina Silveira (1939), Romanita Disconzi (1940), Tetê Barachini (1961) e Vera Chaves Barcellos (1938).

A seguir, relembramos algumas obras que estavam presentes na exposição:

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IMAGENS:

Obras do Acervo da PBSA expostas em “O Silêncio, O Tempo e a Voz”, 2018.

[1] CHECCACCI, Pietrina. O dia. A noite. A vida. A morte, 1970. Acrílica sobre tela, 120 x 150 cm.

[2] SANTIAGO, Haydea Lopes. Retrato, 1934 [detalhe]. Óleo sobre tela, 55 × 46 cm.

[3] FORTES, Judith. Cigana, sem data [detalhe]. Óleo sobre cartão, 49 x 38 cm.

[4] CARPES, Mariza.
[esquerda] Silêncio, 2012. Pastel oleoso, têmpera, tinta de impressão, cimento e lápis sobre metal, 104 x 52,5 cm.
[direita] Tempo, 2012. Pó de mármore, linha e aguada sobre tecido, 107 x 52,5 cm.

[5] MAGLIANI, Maria Lídia. Anotações para uma estória: personagem, 1976. Óleo e colagem sobre aglomerado de madeira, 60 x 50 cm.

[6] SOARES, Alice. Menina e suas bonecas, 1955. Óleo sobre tela, 103 x 94,3 cm.

[7] BRUEGGEMANN, Alice Esther. Cabeça de menino, 1955. Óleo sobre tela, 53 × 44 cm.

[8] CHAVES BARCELLOS, Vera. A definição da arte, 1993. Vídeo-performance, 22’48”.

[9] Registro feito na abertura da exposição “O Silêncio, O Tempo e a Voz” , em 5 de março de 2018. Da esquerda para direita: Sandra de Deus, Lucia Carpena, Eleonora Fabre, Cláudia Aristimunha, Blanca Brites, Anico Herskowits, Marina Roncatto, Mariza Carpes, Jane Tutikian e Cláudia Boettcher. Fotos: Filipe Conde.

Por ora, as comemorações de Carnaval acabaram; felizmente, sua presença nas artes perdura.Essa temática esteve presente ...
23/02/2023

Por ora, as comemorações de Carnaval acabaram; felizmente, sua presença nas artes perdura.

Essa temática esteve presente na produção artística de Glauco Rodrigues (Bagé, 1929 – Rio de Janeiro, 2004), como podemos perceber na serigrafia de 1990 intitulada “Carnaval” [Figura 1]. O artista se percebia como uma “escola de samba”, com suas obras constituindo diferentes enredos apresentados a partir de uma estrutura básica de um “grande desfile alegórico”, em que o uso de imagens e de uma plasticidade tipicamente brasileira operam como comentário satírico acerca da construção da identidade nacional.

Glauco Rodrigues foi um artista visual que atuou sobretudo como pintor, desenhista e gravador. Rodrigues iniciou sua trajetória artística como autodidata em 1945 e foi integrante do Grupo de Bagé e do Clube de Gravura de Porto Alegre, onde, inspirado pelo cenário dos pampas e da fronteira, praticou o desenho de observação da natureza e a gravura de cunho social.

Após experiências no Rio de Janeiro, onde atuou como ilustrador, e em Roma, o artista se estabeleceu na cidade carioca no ano de 1959. A partir desse momento, sua produção artística – que ao longo de sua experiência na Europa consistiu-se na pintura abstrata – passou a se aproximar novamente da figuração. Assumindo uma visualidade inovadora não só em sua técnica, mas também em sua temática, a obra de Rodrigues deixou de pautar-se exclusivamente em motivos gaúchos, e passou a abranger questões acerca da cultura brasileira. Através do uso do humor e da ironia, temas como o carnaval, o futebol, a imagem do homem indígena, a natureza tropical e a história do Brasil tornaram-se o centro da produção de Glauco Rodrigues.

Em sua dissertação, o cineasta Zeca Brito afirma ser “muito importante destacar que o lugar de onde vem Glauco é o ponto de partida que permanece impregnado em suas obras, mesmo depois de conquistar novos territórios.” (BRITO, J. T. “Glauco Rodrigues e sua obra: Trânsitos no tempo”, 2018). De fato, nas mais de cinco décadas em que produziu, Glauco Rodrigues demonstra entender plenamente a multiplicidade de contradições que constituem o Brasil.

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IMAGENS:

Gravuras de Glauco Rodrigues pertencentes ao acervo da PBSA, adquiridas em 2014, a partir da generosa doação de Norma de Estellita Pessôa, viúva de Glauco.

1. “Carnaval”, 1990.
Serigrafia sobre papel, 50 x 70 cm.

2. “Série Gaúcha: Desabotoando o buçal”, 1976.
Serigrafia sobre papel, 48 x 66 cm.

3. “Série Gaúcha: Preparando para laçar”, 1976.
Serigrafia sobre papel, 48 x 66 cm.

4. “Série Gaúcha: Escapou o laço”, 1976.
Serigrafia, 48 x 66 cm.

5. “Corrida de Cancha Reta 3”, 1977.
Serigrafia sobre papel, 32,8 x 48 cm.

6. “Corrida de Cancha Reta 8”, 1977.
Serigrafia sobre papel, 33,2 x 48 cm

7. "Arco-Íris na Fazenda Pau Brasil”, 1981.
Litografia sobre papel, 50 x 69 cm

8. “Futebol”, 1990.
Serigrafia sobre papel, 55 x 70 cm

PBSA VENCEDORA DO 14º PRÊMIO AÇORIANOS DE ARTES PLÁSTICASÉ com grande alegria que recebemos no dia de ontem, 27 de Outub...
28/10/2021

PBSA VENCEDORA DO 14º PRÊMIO AÇORIANOS DE ARTES PLÁSTICAS

É com grande alegria que recebemos no dia de ontem, 27 de Outubro de 2021, o Prêmio Açorianos de Artes Plásticas na categoria “Destaque Ações de Difusão e Inovação| Institucional.

Gostaríamos de agradecer a todos que acompanham nossas redes (forma mais próxima para acompanharem nossas ações institucionais devido às medidas de isolamento social) e compartilhar nossa enorme gratidão.

Seguimos ao apoio de exposições e eventos ligados ao ensino, pesquisa e extensão como um centro de produção e de difusão de conhecimento em Artes Visuais no Estado do Rio Grande do Sul.

Muito obrigada!

Período Antigravitacional, trabalho de Henrique Leo Fuhro (Rio Grande, RS, 1938 – Porto Alegre, RS, 2006), é uma obra di...
01/06/2021

Período Antigravitacional, trabalho de Henrique Leo Fuhro (Rio Grande, RS, 1938 – Porto Alegre, RS, 2006), é uma obra dividida horizontalmente, na qual, no espaço superior, uma figura masculina posiciona-se à esquerda de uma área quadrilátera. É difícil identificar se essa área apresenta-se como uma figura exposta em uma parede, ou como uma espécie de vão ou janela. O padrão de textura dessa área lembra uma rede, e sobre esta há uma área oval, de fundo branco, na qual se encontra um tronco feminino despido. Nas áreas escuras, Fuhro prefere o tom azulado. Não há, na obra, a cor preta.

Se, na parte superior, a figura masculina encontra-se apoiada sobre uma representação de chão, na área inferior, que ocupa a maior parte da gravura, o artista abdica desse rigor, ao eliminar o chão e permitir ao seu personagem, agora em posição espelhada, que flutue, assim como o tronco feminino ao seu lado. Na parte superior, os dois elementos parecem pertencer a universos mais distantes, uma vez que cada um existe sobre um fundo diferente. Embaixo, o personagem masculino e o tronco feminino se encontram sobre o mesmo azul e a mesma textura, que não mais lembra uma rede, mas uma grade. Pairando sobre esses dois elementos, encontrase uma imagem enigmática, que surge exatamente no centro da obra: uma máquina, cuja função é incerta.

O período de criação da obra coincide com a forte influência da Pop Art na arte brasileira, apresentando certa relação com o movimento euro-americano. No entanto, essa xilogravura parece estar ainda mais conectada a algumas questões temáticas de artistas das vanguardas europeias das primeiras décadas do século XX. A ideia de trabalhar com uma quase-narrativa, que se aproxima do nonsense, evoca trabalhos de René Magritte (1898–1967) ou, mais ainda, de Max Ernst (1891–1976). A imagem de um maquinário que opera segundo preceitos de uma física impossível, talvez desprovido de função, também remonta aos trabalhos de surrealistas e dadaístas, como Marcel Duchamp (1887–1968). Quanto à sensualidade na gravura de Fuhro, como em alguns trabalhos de Man Ray (1890–1976) ou Salvador Dalí (1904–1989), o corpo da mulher surge mais como ideia, forma de sonho, do que como personagem.

Quanto à física impossível, anteriormente referida, o cientificismo do título já indica essa leitura. “Período”, em física, é o tempo necessário para que um movimento realizado por um corpo volte a se repetir. Estabelece-se esse tempo ao dividir a duração de uma única oscilação sobre a frequência que a mesma acontece. Tempo e frequência são, portanto, grandezas inversas na física tradicional. Inversas como a área superior e inferior dessa obra. Se a gravura ilustra um período, então configura um processo não só dicotômico e onírico, mas também cíclico. Esse processo de inversão é catalisado pelo único elemento ausente no plano superior, mas presente no plano cuja gravidade foi diluída: a enigmática engenhoca mecânica, cuja funcionalidade permanece tão desconhecida quanto o rosto do tronco feminino imaginado pela figura masculina.

GIORDANO GIL
(2014)

Henrique Leo Fuhro
(Rio Grande, RS, 1938 – Porto Alegre, RS, 2006)
Período Antigravitacional, 1970
Xilogravura, 72 x 35cm
Acervo Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

Veja a obra no site: https://www.ufrgs.br/acervopbsa/acervo-do-instituto-de-artes-ufrgs/periodo-antigravitacional/?perpage=12&order=DESC&orderby=date&search=henrique&pos=7&source_list=collection&ref=%2Facervopbsa%2Facervo-do-instituto-de-artes-ufrgs%2F

Em dezembro de 2019 recebemos um e-mail dos responsáveis pelo espólio de Yeddo Nogueira Titze (1935-2016), propondo a do...
13/05/2021

Em dezembro de 2019 recebemos um e-mail dos responsáveis pelo espólio de Yeddo Nogueira Titze (1935-2016), propondo a doação de obras do artista para a Pinacoteca Barão de Santo Ângelo.

Em janeiro de 2020, acompanhados pela pesquisadora Carolina Grippa, que trabalhava naquele momento com a obra do Yeddo, fomos até o apartamento de Diogo Demartini, seu primo em segundo grau, e fizemos a seleção das quatro obras que agora apresentamos ao público: uma "Madona" (1959), do seu período de formação e fortemente influenciada por Ado Malagoli (seu professor no Instituto de Artes), dois batiks sobre tecido (1978), técnica que ele introduz na produção erudita local e uma pintura sobre papel, dos anos 1970/1980.
Essas obras, somadas as três magníficas telas abstratas dos anos 1960 (já no acervo), complementam a representação desse importante artista e professor na coleção.

Agradecemos ao Francisco Dalcol (diretor do MARGS), que nos colocou em contato, a Carolina Grippa, que orientou a seleção das obras e aos doadores, o Sr. Diogo Ribeiro Demartini e a Sra. Rosa Maria Ribeiro Demartini, que num gesto de grande generosidade, formalizaram a doação no mês de abril de 2021 com a entrega das peças.

Convidamos todos a visitarem nosso site para mais informações sobre as obras e sobre o artista: https://www.ufrgs.br/acervopbsa/autor_/titze-yeddo-nogueira/

O Ciclo Conversas sobre Arte  - iniciativa do Instituto de Artes e o Departamento de Difusão Cultural da UFRGS - receber...
11/05/2021

O Ciclo Conversas sobre Arte - iniciativa do Instituto de Artes e o Departamento de Difusão Cultural da UFRGS - receberá nessa Quarta-feira às 11h da Manhã o professor e artista visual Alfredo Nicolaiewski.

A conversa se devenvolverá em torno do projeto de curadoria (de autoria do Prof. Alfredo e da Prof. Blanca Brites) da exposição da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

A exposição, que ocorreu entre 18 de fevereiro e 12 de abril de 2020, levou 86 obras oriundas da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo ao MNBA. Foi a primeira vez que o acervo da nossa querida Pinacoteca foi exposto na meca das artes visuais no Brasil.

A conversa será transmitida pelo canal do DDC-UFRGS no YouTube: youtube.com/ddc-ufrgs

Este Jardim Encantado é o local no qual todos nós demos o nosso primeiro beijo na infância. A pureza, as cores, os traço...
05/05/2021

Este Jardim Encantado é o local no qual todos nós demos o nosso primeiro beijo na infância. A pureza, as cores, os traços simples reforçam a genuína alegria de estar em comunhão com o outro e, mesmo sem saber a definição de amor, nós o sentimos. A série Namorados, realizada em 1965, é pautada na felicidade do encontro, atravessada por um olhar delicado sobre os eventos que, no seu conjunto, remetem-nos a uma narrativa sobre esta fase dos relacionamentos amorosos: ciranda, passeio no parque, fotografia de casamento...

Artista de múltiplos talentos, Zoravia Bettiol (Porto Alegre, RS, 1935) explorou, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, a madeira e seus veios. A xilogravura encontrou nessa artista uma intérprete singular, que introduziu um tratamento novo, ao privilegiar a cor, que explode em suas composições, bem como os desenhos lúdicos, a inclusão de texto ou interferências posteriores. Como sempre, Zoravia se reinventa, amplia suas possibilidades de atuação e presenteia o espectador com uma nova visão da técnica.

Na gravura em destaque, não há distância entre as figuras e o fundo. A menina, que ocupa toda a extensão do espaço, está entre flores, ramos, pombos, mas vai além: ela é parte deles e eles dela, numa sobreposição de planos e cores que reforça a ideia de simbiose. Embora haja uma representação de chão, seus pés flutuam, indicando o estado de encantamento para o qual foi alçada.

A beleza da imagem e a sensação sugerida são acessíveis a todos, através da utilização de simbologias conhecidas para a maioria dos espectadores. É impossível observar esta obra e não penetrar no seu universo de encantos, tanto os técnicos, quanto os temáticos.

ANA LAURA BENACHIO
(2014)

Leia o texto completo no site: https://www.ufrgs.br/acervopbsa/acervo-do-instituto-de-artes-ufrgs/jardim-encantado-i-serie-namorados-2

Zorávia Bettiol
(Porto Alegre, RS, 1935)
Jardim Encantado, 1965
Série Namorados
Xilogravura sobre papel, 74 x 52,5 cm
Acervo Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

O pintor, gravador e muralista Danúbio Villamil Gonçalves nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1925. No ano de 1935, mu...
29/04/2021

O pintor, gravador e muralista Danúbio Villamil Gonçalves nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, em 1925. No ano de 1935, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde estudou com Cândido Portinari (1903–1962) e o escultor August Zamoyski (1893–1970). Em 1946, frequentou aulas de xilogravura com Axl Leskoschek (1889–1975), de gravura em metal com Carlos Oswald (1882–1971) e de desenho com Tomás Santa Rosa (1909–1956) (SCARINCI, 1982). Em 1951, funda o Clube de Gravura de Bagé com Glauco Rodrigues (1929– 2004) e Glênio Bianchetti (1928–2014). Foi em xilogravura que executou alguns de seus trabalhos mais expressivos e emblemáticos, como as séries Xarqueadas (1953) e Mineiros de Butiá (1956).

Sobretudo ao longo das décadas de 1940 e 1950, a produção gráfica de Danúbio Gonçalves foi marcada pela temática social, expressando sua crença na ideia da arte como ferramenta de transformação da sociedade. Como sabemos, ele não estava sozinho. Muitos artistas brasileiros e latino-americanos, preocupados em fortalecer identidades locais e em valorizar os trabalhadores, voltaram-se, no período, a projetos engajados politicamente e comprometidos, via de regra, com os propósitos do Partido Comunista. Como indica Aracy Amaral (2003, p. 175), esses artistas tratavam da vida nas cidades, das condições dos trabalhadores, do drama humano decorrente das situações de guerra, das mobilizações classistas e populares, além da exaltação do operariado. Essa concepção de Realismo foi entendida como o ressurgimento do humanismo na arte, em contraposição ao formalismo e às tendências abstracionistas. E a gravura, devido à sua natureza popular, reproduzível e não elitista, foi uma das expressões artísticas mais valorizadas. Nesse sentido, a experiência do Taller de Gráfica Popular (TGP), surgido no México em 1937, foi reveladora para muitos artistas brasileiros, como o próprio Danúbio, participante, no Brasil, dos Clubes de Gravura de Bagé e de Porto Alegre, francamente inspirados no TGP e que tinham como uma de suas marcas a ênfase no regionalismo, pois a representação dos tipos locais acarretaria a maior identificação do público com as imagens.

O Pescador do São Francisco (1954) é uma das obras em que Danúbio enfatiza o homem no seu ambiente de trabalho. Na gravura, vemos a representação de um jovem com traços típicos de um caboclo: rosto largo, lábios grossos e nariz levemente chato. A luminosidade da cena é generosa, percebendo-se o efeito dramático da luz e sombra no rapaz: seu olhar sugere um pensamento distante, como se a mente fosse longe, enquanto o corpo se dedicaria, naquele cenário, à labuta cotidiana. No entanto, uma certa ambiguidade é reforçada pelo gesto de mascar capim: estaria entediado ou indiferente? Já a camisa simples, entreaberta, e o chapéu de palha, sugerem a sua condição humilde. O feitio das nuvens densas e das águas dos rios dá a impressão de um movimento caudaloso. Não se sabe ao certo o local representado pelo artista. Entretanto, em 1953, Danúbio conquistou o Prêmio de Viagem ao País, no II Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro; essa distinção lhe permitiu visitar diversas regiões brasileiras, inclusive os estados atravessados pelo Rio São Francisco, como Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. Provavelmente foi a partir dessa experiência que ele desenvolveu a imagem.

Para Danúbio, “[...] a gravura, por sua missão sociológica e cultural na humanidade, continua insuperada até o presente milênio, podendo expressar algo inesgotável na temática do cotidiano” (GONÇALVES, 2003, p. 23). As relações de Danúbio com o Instituto de Artes se estreitaram quando, pouco tempo depois, lecionou a disciplina de Gravura, entre 1969 e 1971. Danúbio foi professor do Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre entre 1962 e 1995, tendo sido, também, diretor da instituição. Realizou diversas exposições individuais e coletivas, com destaque para: 12ª Bienal de São Paulo (1973); Grupo de Bagé – Mostra do Projeto Cultura da Secretaria de Turismo e Educação, em Porto Alegre (1976); Grupo de Bagé no Clube de Gravura, mostra do projeto Caixa Resgatando a Memória, em Porto Alegre, Brasília, Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo (1996–1997); Investigações – A Gravura Brasileira, no Itaú Cultural, em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro (2000– 2001). Danúbio Gonçalves recebeu vários prêmios, entre os quais: Prêmio em Gravura no Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna de São Paulo (1974); Prêmio Anual de Artes Plásticas da Associação Riograndense de Artes Plásticas Francisco Lisboa (1994). O artista lançou os livros Do Conteúdo à Pós- Vanguarda (1995), Processos Básicos da Pintura (1996) e Ser ou Não Ser Arte (2003). Danúbio possui uma produção de painéis e murais, cerâmica e mosaico, como o painel comemorativo ao Centenário da Imigração Judaica no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, e o mural em mosaico da fachada do Santuário do Sagrado Coração de Jesus (ou Santuário Padre Reus), em São Leopoldo.

ANDRÉIA CAROLINA DUARTE DUPRAT
(2014)

Veja a obra no site: https://www.ufrgs.br/acervopbsa/acervo-do-instituto-de-artes-ufrgs/pescador-de-sao-francisco/?perpage=12&order=DESC&orderby=date&taxquery%5B0%5D%5Btaxonomy%5D=tnc_tax_17&taxquery%5B0%5D%5Bterms%5D%5B0%5D=107&taxquery%5B0%5D%5Bcompare%5D=IN&pos=8&source_list=term&ref=%2Facervopbsa%2Fautor_%2Fgoncalves-danubio%2F

Imagem:
Danúbio Gonçalves
(Bagé, RS, 1925 – Porto Alegre, RS, 2019)
Pescador de São Francisco, 1954
Xilogravura, 32,5 x 23,5cm
Acervo Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

O olhar contemporâneo à obra de Leopoldo Gotuzzo (Pelotas, RS, 1887 – Rio de Janeiro, RJ, 1983) pode considerá-lo um art...
21/04/2021

O olhar contemporâneo à obra de Leopoldo Gotuzzo (Pelotas, RS, 1887 – Rio de Janeiro, RJ, 1983) pode considerá-lo um artista essencialmente ligado aos cânones da arte acadêmica. O contraste de sua produção com obras modernistas, de fato, é grande. No entanto, o olhar da época de atividade do pintor pode revelar algo diferente. O crítico e artista Angelo Guido (1893–1969), por exemplo, salienta a liberdade de expressão de Gotuzzo, que o afasta da frieza puramente acadêmica, ao mesmo tempo em que o elogia por evitar extravagâncias modernistas (KERN, 2007, p.54–55). Gotuzzo estaria, assim, em uma espécie de limiar entre o acadêmico e o moderno, incorporando alguns aspectos desse, mas evitando seus excessos.

A obra de Gotuzzo se caracteriza por uma série de temas recorrentes: a figura humana (em especial, o nu feminino), as paisagens, as naturezas-mortas (LIMA, 2001, p.27). Nesses dois últimos, talvez se verifique com maior facilidade a “liberdade de expressão” a que Guido se referiu. Pinceladas soltas, visíveis na obra, deixando a marca do artista, são características mais presentes nessa sua produção, aproximando-o talvez de uma linguagem mais moderna. No trato da figura humana, Gotuzzo parece mais convencional, menos dado às liberdades e mais fiel aos cânones acadêmicos.

De fato, é o que se verifica na obra A écharpe rosa. Trata-se de um nu feminino, cuja composição se estrutura em uma grande curva formada pelo corpo da mulher, sentada em uma poltrona e levemente reclinada, e por um vaso com flores, situado atrás dela, que sugere um corte diagonal. Seus elementos de fundo e de cenário apresentam um tom azulado, quebrado pelos elementos da diagonal, como o amarelo das flores e os tons acobreados do corpo da mulher, e também por um fino tecido rosa, ocupando a parte inferior da tela. O tecido, identificado pelo título da obra como uma écharpe, cobre as pernas da mulher, mas acaba por revelá-las e moldá-las, devido à aderência e transparência, contribuindo para suscitar sensualidade à cena. A luz incide pela esquerda da tela, distribuindo-se homogeneamente, sem criar zonas escuras em excesso e contribuindo para a sensação de volume e tangibilidade.

Gotuzzo apresenta, assim, uma bela mulher, tipicamente brasileira, em uma composição equilibrada e racional. A obra recebeu o Grande Prêmio Rio Grande do Sul, o maior prêmio do I Salão de Belas Artes do Rio Grande do Sul, realizado em 1939 pelo Instituto de Belas Artes.

MARCELO DE SOUZA SILVA
(2014)

Leopoldo Gotuzzo
(Pelotas, RS, 1887 – Rio de Janeiro, RJ, 1983)
A écharpe Rosa, 1939
Óleo sobre tela, 92 × 73 cm
Acervo Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

Veja mais obras do artista no site: https://www.ufrgs.br/acervopbsa/autor_/gotuzzo-leopoldo

Mauro Fuke é escultor, nascido em Porto Alegre, em 1961, e formado pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Ri...
20/04/2021

Mauro Fuke é escultor, nascido em Porto Alegre, em 1961, e formado pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Com uma carreira sólida e intensa desde os anos de 1980, obteve diversos prêmios, entre eles o de Desenho, no XI Salão do Jovem Artista, em 1982, e, em 1983, o Prêmio Aquisição no 3º Jovem Arte Sul América. No mesmo ano, realizou sua primeira exposição individual na Galeria Tina Presser, em Porto Alegre. Teve obras expostas em Bienais do Mercosul e, em 2002, expôs individualmente no Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS), em Porto Alegre, e no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo (SP).

A obra de Mauro Fuke que integra a Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, intitulada O errado, data de 1992 e é bastante representativa de sua poética. A maioria das esculturas de Fuke são em madeira, ainda que empregue uma série de outros materiais em suas feituras, como cordão, cabelo,
crina, ossos, e possua algumas obras em aço, mas sempre mantendo a madeira como matéria primordial. Seu trabalho seduz por se tratar, muitas vezes (e também neste caso), de
peças articuladas, que despertam interesse e curiosidade, ao permitirem a mudança de forma ou de posição. Mas seduz, principalmente, pelo acabamento, belamente polido, que convida ao toque e revela a superfície suave e macia da madeira. Mesmo em O errado, na qual se percebe maior rigidez, suas formas não deixam de ser delicadas, configurandose em níveis que se sobrepõem e se encaixam, constituindo uma paisagem sinuosa.

O processo de criação de Mauro Fuke está presente e vivo em sua produção. O artista, que desde 1994 utiliza ferramentas de computação para planejar suas obras com maior precisão (como a modelagem 3D), sempre desenhou detalhadamente seus projetos de escultura, para então
produzi-los. Por serem peças de grande complexidade de execução, e realizadas com maestria por Fuke, esse processo cuidadoso será perceptível em seu trabalho na medida em que o observador buscar vislumbrar o trajeto feito pelo artista: desde a concepção, clara em sua mente, ao processo de passar a ideia a limpo e, então, o momento da realização; livre de arbitrariedades no momento de feitura,
mas não livre de subjetividade. Dessa forma, suas obras não deixam de ser também proposições que o artista faz a si mesmo. A partir do rigor com que dá corpo a suas ideias, a produção artística de Mauro Fuke se traduz em delicadeza e engenhosidade, de peças que discutem, entre outras coisas, a sua própria forma e funcionalidade, bem como o lugar da obra de arte.

LIANA DOMBROWSKI
(2014)
Veja a obra no site: https://www.ufrgs.br/acervopbsa/acervo-do-instituto-de-artes-ufrgs/o-errado/?perpage=12&order=DESC&orderby=date&taxquery%5B0%5D%5Btaxonomy%5D=tnc_tax_17&taxquery%5B0%5D%5Bterms%5D%5B0%5D=490&taxquery%5B0%5D%5Bcompare%5D=IN&pos=1&source_list=collection&ref=%2Facervopbsa%2Facervo-do-instituto-de-artes-ufrgs%2F

Imagem:
Mauro Fuke
(Porto Alegre, RS, 1961)
O Errado, 1992
Escultura, 22 x 58 x 21cm
Acervo Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

Waldeny Elias (Capoeiras, RS, 1931 – Porto Alegre, RS, 2010) estudou no antigo Instituto de Belas Artes de Porto Alegre,...
15/04/2021

Waldeny Elias (Capoeiras, RS, 1931 – Porto Alegre, RS, 2010) estudou no antigo Instituto de Belas Artes de Porto Alegre, onde foi aluno de Aldo Locatelli (1915–1962), Ado Malagoli (1906–1994), João Fahrion (1898–1970), Alice Soares (1917–2005), Fernando Corona (1895–1979) e Angelo Guido (1893–1969), vindo a se formar em 1961. Também teve experiência em ateliês de artistas uruguaios, aprimorando sua técnica.

No período de 1950 a 1970, como sabemos, ocorrem mudanças importantes no campo das artes. Se, no panorama internacional, desponta a arte conceitual, no contexto nacional a arte abstrata tem sua aceitação afirmada. No âmbito acadêmico, no entanto, a arte figurativa ainda é defendida. Diante da complexidade deste momento histórico, novos artistas e grupos surgem, na tentativa de consolidar e desenvolver uma arte própria. No final da década de 1950, um desses grupos, o Bode Preto, surgido em Porto Alegre, tem Waldeny Elias como integrante, juntamente com Claudio Carriconde (1934–1981), Leo Dexheimer (1935), Francisco Ferreira (1935) e Joaquim da Fonseca (1935).

Na década de 1970, em seu trabalho, Waldeny Elias vai paulatinamente abandonando a figura humana e passa a dar espaço a planos bem definidos e a cores vibrantes, em contraste com superfícies fechadas, nas quais pontualmente são registrados elementos figurativos que atribuem leveza ao todo. É a partir desses trabalhos que o artista conquista reconhecimento, realizando diversas exposições individuais e tendo sua obra comentada por importantes críticos locais.

A pintura aqui destacada é representativa dessa fase de Waldeny Elias. Os elementos da composição, sintéticos, revelam o domínio técnico da fatura de Elias e estimulam a percepção do observador. É possível ver, na margem esquerda, uma agulha com um fragmento de linha, que permite estabelecer uma relação de escala com a pequena esfera branca acuada, no lado oposto. Tal disposição cria um espaço enigmático sobre a base de um vermelho intenso e um fundo limitado de caráter opressor. Se considerarmos a conjuntura política de 1973, esta obra daria margem a sugestivas interpretações.

DÉBORA DA SILVA MARGONI BARBIAN
(2014)
Veja mais sobre a obra no site: https://www.ufrgs.br/acervopbsa/acervo-do-instituto-de-artes-ufrgs/momento-i

Imagem:
Waldeny Elias
(Capoeiras, RS, 1931 – Porto Alegre, RS, 2010)
Momento I, 1973
Óleo sobre aglomerado de madeira, 91 x 60cm
Acervo Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

A pequena pintura intitulada Medas integra o trio de paisagens do artista porto-alegrense Libindo Ferrás (Porto Alegre, ...
12/04/2021

A pequena pintura intitulada Medas integra o trio de paisagens do artista porto-alegrense Libindo Ferrás (Porto Alegre, RS, 1877 – Rio de Janeiro, RJ, 1951), pertencente à Pinacoteca Barão de Santo Ângelo provavelmente desde sua execução.

Da junção de dados biográficos, desde registros, comentários, críticas e elogios em autores como Círio Simon (1998), Susana Gastal (2007), Maria Lúcia Bastos Kern (2007) e Paulo Gomes (2012), deduzimos que estamos tratando de um notável: da personalidade controvertida do professor, do administrador, com seu “dinamismo visionário” e “garra”, ao rigoroso diretor junto a seus pares, dotado da “inteligência construtora adequada a um meio ainda arredio aos experimentalismos vanguardistas do impressionismo” (GOMES, 2012, p.29). Tudo demonstra que sobre seus ombros foi construído muito do atual Instituto de Artes. Se polêmica foi sua extensa e eclética atividade profissional, mais ainda foi sua produção artística. Damasceno a considera “inconstante” (apud GASTAL, 2007, p.42); Guido via sua obra “como desatualizada e fria...” (apud KERN, 2007, p.54); o mesmo autor observa que Libindo “executa […] pinturas descritivas, quase documentais e sem expressividade” (apud KERN, 2007, p.54). Paulo Gomes nota que o artista está principalmente “[...] envolvido com a criação de um discurso plástico autônomo, fundado na excelência da fatura pictórica, no desenho ‘correto’, na perspectiva bem aplicada, empenhado em criar retratos mais atmosféricos na abordagem da paisagem local e, consequentemente, mais emocional e menos comprometido com uma representação realista” (GOMES, 2012, p.29).

É raro, nos dias de hoje, observar uma meda. Essas medas, vistas na obra, são provavelmente de arroz. Essa dedução baseia-se na representação da água junto às medas e na topografia plana do vale representado, intenso no colorido verde claro do último plano em diagonal, aparentemente indicando que se dera ali a recente colheita. Libindo, na sua ânsia de artista, “vendo” o interior gaúcho, ainda pouco fotografado e, naturalmente, sem a impressão da cor que traduz a realidade, interpreta o sincronismo da luz com o silêncio abafado e morno da meda. Os dois pequeníssimos vultos caminhando à direita do quadro evidenciam a solidão e distância do mundo urbano, além do desnível do terreno; a aparente entrada de inverno está pincelada no arbusto amarelado que “decide” o cair das folhas e reflete na cor da palha ressequida da meda. Perguntamo-nos o porquê de representar a valeta de contenção de água da chuva, a terra nua exposta na beira do curso de água? São testemunhas da contínua degradação da terra, estão ali evidenciadas para a nossa visão.

Considerando sua obra e seu tempo, podemos dizer que, sim, havia “ainda” a necessidade dessa paisagem com o seu desenho “correto”, sua bem usada perspectiva, que leva o espectador a perscrutar a tela até o fundo. Talvez a melhor interpretação de sua arte viria da atenta observação de suas nuvens, que ocupam dois quartos da tela, feitas com pinceladas temperamentais. Independentemente de opiniões, essa obra precisava ser feita, pois, como nos lembra Heinrich Wölfflin “épocas diferentes produzem artes diferentes”.

VERA PY
(2014)
Veja a obra no site: https://www.ufrgs.br/acervopbsa/acervo-do-instituto-de-artes-ufrgs/medas/?perpage=12&order=DESC&orderby=date&metaquery%5B0%5D%5Bkey%5D=11&metaquery%5B0%5D%5Bvalue%5D%5B0%5D=Medas&metaquery%5B0%5D%5Bcompare%5D=IN&pos=0&source_list=collection&ref=%2Facervopbsa%2Facervo-do-instituto-de-artes-ufrgs%2F

Imagem:
Libindo Ferrás
(Porto Alegre, RS, 1877 – Rio de Janeiro, RJ, 1951)
Medas, 1921
Óleo sobre tela, 33 x 44cm
Acervo Pinacoteca Barão de Santo Ângelo

Endereço

Senhor Dos Passos, 248
Porto Alegre, RS
90020180

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