28/07/2026
Como é difícil escrever sobre alguém que nunca coube em palavras fáceis.
A Sol nasceu em Beagá, nas montanhas da Serra do Curral. Como professora, tornou-se Sol. Como escritora, Sol Barreto. Gostava dos passarinhos, dos rios, dos livros feitos à mão. Gostava das infâncias, das bibliotecas comunitárias, dos candeeiros que acendem memórias. Dizia que as levezas sustentam a alma.
Mas ninguém se engane.
A Sol era feita da delicadeza e da força. Nos ensinou que paz não tem nada a ver com ser morno. Mulher, como tantas vezes precisou ser, era das brabas.
Daquelas que não deixavam uma conversa terminar na superfície. Que interrompiam quando era preciso. Que defendiam uma ideia até o fim. Que não aceitavam que ninguém falasse por ela, nem decidisse por ela e, principalmente, que diminuísse aquilo em que acreditava. Tinha a coragem de quem escolheu viver a cultura como compromisso, nunca como enfeite.
Talvez por isso escrevesse tanto sobre o coletivo. Porque sabia que coletivo não é concordar o tempo todo. É permanecer junto mesmo quando é preciso tensionar, discordar, disputar caminhos. Ela fazia isso sem pedir licença.
A Sol costurava livros, mas também costurava gente. E costurava a gente. Juntava quem precisava se encontrar. Fez de uma biblioteca um lugar de afetos, levou livros em um carrinho de mão. Fazia da leitura um gesto político, do artesanal uma escolha e da cultura um jeito de cuidar da vida.
Ela escreveu que costurar livros era uma expedição. Era mesmo. Porque tudo o que fazia tinha essa disposição de atravessar caminhos, abrir frestas e insistir onde parecia mais difícil.
Guimarães Rosa, um dos seus grandes companheiros de travessia, escreveu que “a espécie humana peleja para impor ao latejante mundo um pouco de rotina e lógica, mas algo ou alguém de tudo faz frincha para rir-se da gente”. A Sol sempre preferiu as frinchas. Foi por elas que fez passar livros, poesia, infância, comunidade e encontro.
Que a gente não se lembre só da delicadeza dos seus passarinhos mas também da firmeza com que você defendia aquilo que amava. Porque era das duas coisas, ao mesmo tempo, que você era feita.