18/06/2023
[Crônica do tempo que vale um conto]
Ao teu lado estendi a noite -- há tempos não fazia. Ainda cedo para muitos, meio tarde para mim dos últimos anos. Assistimos aos causos, engraçados ou tristes, do sr. Brasil, contados por ele ou convidados -- único espetáculo a que eu gostaria de ir, mas Rolando, o Boldrin, morreu, alguns dos convidados também. Morre-me, portanto, mais um desejo. Noite fria lá fora, aconchegante cá dentro... E falamos de sonhos e de morte. Então, perguntei qual o sentido disso tudo (?!). Presentes num momento e de repente não mais. E o que será daqueles que nada deixaram materialmente registrado? Nem livros, discos, reportagens ou filmes. Alguns talvez até mais artistas, mais poetas, mais sonoros, mais filósofos ou sábios do que esses famosos das televisões, dos jornais, das editoras ou gravadoras, mas não famosos, famosos não; pessoas comuns, mas muito queridas de suas famílias, ruas, bares, bairros. Contam seus causos com café, cerveja ou pinga; e fazem rir o seu Zé, dona Maria, o Paulão e a Ritinha; fazem chorar a Tiana, o Eulálio, o Pereira e a Cacilda; e causam medo nas meninas e meninos, para depois lhes arrancar gostosas gargalhadas. Às vezes mentira ou meia-verdade, nunca verdade inteira -- é insossa. De repente, com tais ninguém mais se espanta, sorri, suspira nem gargalha, somente choram; um choro que a terra leva. Nada registrado, não estão no YouTube, na Wikipedia, deles os algoritmos nada retornam, o ChatGPT não lhes simulará; memórias que o tempo apagará. Qual o sentido? Aconchegante cá dentro, noite fria lá fora...