Anverso e Reverso do Verso Avesso

Anverso e Reverso do Verso Avesso Walter Gonzalis, sonhador, delirante, expectante, porém desesperançado.

22/10/2023
27/06/2023

[Prosa-poética de um distinto e inusitado sentimento]

O rebento que não virá não anunciará a boa nova. Ele não é daqui, não é deste tempo, não se subjugará.

A lágrima, que escorre única pelo canto esquerdo da minha face, diz que o tempo passou.

Toda expectativa é humana demais. Os algoritmos transformarão as máquinas naquilo que pior caminhou pela Terra e elas dominarão.

A vida é sempre ontem, porque precisa ser registrada e narrada. Hoje é apenas uma expectativa de contar a história. O futuro é mera visão do longe e tem pernas; a cada passo nosso, mantém-se à distância segura; o passado se alongínqua.

O rebento que não virá anuncia o futuro. Todo humano é mero expectante e contemplador. Tem aqueles que fecham os olhos e nunca lacrimejam -- são máquinas.

Por vezes eu preferi fechá-los; subjuguei e fui subjugado, mas não fui máquina -- eu era o observador. Quando abri, a carne humana pulsou intensamente e a lágrima escorreu; o tempo, felizmente, também.

Nunca fui daqui. Por que, então, pretender que alguém fosse, diante de tudo aquilo que nos reserva o futuro? As flores de plástico, dizem, são as únicas que não morrem, mas derreterão.

Humano demais...

23/06/2023
23/06/2023

[Crônica-poética da EQM sem fechar os olhos]

Chego tarde em casa -- há tempos não fazia. Não guardo direito as coisas que trouxe, espio o mundo virtual, correspondo umas mensagens. Deu fome e tristeza ao mesmo tempo. Preparo o prato e ponho para esquentar; distante, erro os minutos. Ligo a TV; em vez de vídeo, Debussy/Clair de Lune. Como devagar, a garfadas pequenas e mastigares pensantes; não porque esquentei demais, é que eu estou frio, quase morto. Um gole de vinho, um olhar para o alto, o prato ainda pela metade, de repente outras músicas. Parece-me que trouxe da rua mais do que fui buscar, mas bem menos do que eu preciso, ou desejo. Toca Satie/Gymnopédie e me recordo quando li para alguém, em voz alta, o primeiro texto em que menciono Cashemira; houve lágrimas, há lágrima. A fome vai passando, a tristeza não. Resta um gole de vinho e, nele, alguma verdade: quase ninguém procurará Debussy e Satie, ninguém mais se lembra de Cashemira (ela não está à altura de uma Capitu, Diadorim, Gabriela ou Ana Terra) -- tão morta quanto seu autor...

18/06/2023

[Crônica do tempo que vale um conto]

Ao teu lado estendi a noite -- há tempos não fazia. Ainda cedo para muitos, meio tarde para mim dos últimos anos. Assistimos aos causos, engraçados ou tristes, do sr. Brasil, contados por ele ou convidados -- único espetáculo a que eu gostaria de ir, mas Rolando, o Boldrin, morreu, alguns dos convidados também. Morre-me, portanto, mais um desejo. Noite fria lá fora, aconchegante cá dentro... E falamos de sonhos e de morte. Então, perguntei qual o sentido disso tudo (?!). Presentes num momento e de repente não mais. E o que será daqueles que nada deixaram materialmente registrado? Nem livros, discos, reportagens ou filmes. Alguns talvez até mais artistas, mais poetas, mais sonoros, mais filósofos ou sábios do que esses famosos das televisões, dos jornais, das editoras ou gravadoras, mas não famosos, famosos não; pessoas comuns, mas muito queridas de suas famílias, ruas, bares, bairros. Contam seus causos com café, cerveja ou pinga; e fazem rir o seu Zé, dona Maria, o Paulão e a Ritinha; fazem chorar a Tiana, o Eulálio, o Pereira e a Cacilda; e causam medo nas meninas e meninos, para depois lhes arrancar gostosas gargalhadas. Às vezes mentira ou meia-verdade, nunca verdade inteira -- é insossa. De repente, com tais ninguém mais se espanta, sorri, suspira nem gargalha, somente choram; um choro que a terra leva. Nada registrado, não estão no YouTube, na Wikipedia, deles os algoritmos nada retornam, o ChatGPT não lhes simulará; memórias que o tempo apagará. Qual o sentido? Aconchegante cá dentro, noite fria lá fora...

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