06/03/2016
A sociedade dos professores e alunos mortos
Tenho o hábito de assistir mais de uma vez os filmes que me tocaram/me tocam profundamente. Penso que os melhores filmes são aqueles que nos deixam marcas e que nos permitem “viajar” nas reflexões propostas por eles. Gosto de rever esses filmes justamente pela possibilidade que eles nos proporcionam de realizar sempre novas leituras e interpretações a cada vez que o assistimos. O filme "Sociedade dos poetas mortos" é um desses casos. Filme clássico para aqueles apaixonados pela arte de ensinar, sempre indicado por professores nas licenciaturas. Para aqueles que ainda não o assistiram, ele conta a história de um professor que decide lecionar a disciplina de literatura numa escola extremamente tradicional e famosa da Inglaterra na década de 1950. Interpretado pelo magistral Robin Willians, a produção aborda os esforços desse professor em revolucionar suas aulas, trazendo para seus pupilos uma nova maneira de ver sua disciplina e o próprio conhecimento. Fugindo dos padrões impostos pela escola, da perspectiva de ensino tradicional, o professor Keating, ou como ele preferia ser chamado pelos alunos, de "Oh, meu capitão, oh meu capitão", uma alusão a uma obra de Shakespeare, tocava seus alunos de uma maneira que estes não haviam ainda experimentado dentro da escola. A sensibilidade, o afeto, o prazer pelo conhecimento, esses eram seus maiores ensinamentos. Seus alunos não eram discípulos, esponjas ou máquinas, mas interlocutores, parceiros de debate. Em um momento do filme, o professor Keating recomenda aos seus pupilos que se reúnam numa caverna próxima a escola para se expressar livremente, lendo e expondo poemas de autores reconhecidos ou deles mesmos, cantar, dançar, ou mesmo ouvir histórias ou relatos que seus companheiros tivessem vontade de compartilhar. “Saborear esse conhecimento como mel na boca”, deixar fluir naturalmente o pensamento. Para o professor Keating, essa livre-expressão os formaria para vida, os tornaria sujeitos críticos e transformadores do seu mundo. Em um momento emblemático do filme, Keating pede para que seus alunos subam na mesa, indicando que o olhar de cima da mesa, olhar diferente, representaria um ritual de passagem para estes, onde uma nova forma de ver e atuar no mundo se formaria dentro destes alunos.
Gostaria que a Moringa Escola de Artes Integradas representasse para os inscritos essa mudança de perspectiva, esse momento para saborear o conhecimento, esse ritual de passagem para um novo olhar sobre o mundo.
O professor Keating ao recomendar para os seus alunos os encontros nas cavernas, revela a eles que também realizava essa prática e que seu grupo se auto-intitulava “Sociedade dos poetas mortos”, uma crítica a desvalorização que a arte tinha naquela escola de prestígio em que tinha sido aluno e que agora era professor.
A Moringa quer representar justamente o oposto de professores e alunos máquinas, aos autômatos que são formados diariamente nas escolas e nas universidades. Que a vivência artística os mude e forme para a vida, como pessoas melhores, conscientes, sensíveis e não indiferentes às desigualdades, preconceitos e injustiças que assolam a sociedade dos professores e alunos vivos.
Aguardo ansiosamente os ingressos nessa sociedade dos professores e alunos mortos, e convido aqueles que ainda não se matricularam, para participar, prometo em nome dos professores, que buscaremos saborear essa vivencia artística.
Khalil Jobim, coordenador da Moringa.