Mirante das Artes

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05/06/2026
01/06/2026

Depois de edição que descaracterizou dicionário de Câmara Cascudo, editora Global volta a recriar edições, dessa vez sem alterar o texto original, mas incluindo "cacos" em O Mulo, de Darcy Ribeiro

Responsável por reeditar obras de autores clássicos do pensamento brasileiro, como os livros do professor Darcy Ribeiro, a editora Global foi alvo de um livro denúncia do poeta e comunicólogo Moacy Cirne sobre um famoso livro de Camara Cascudo, o "Dicionário do Folclore Brasileiro". Intitulado "Dicionário do Folclore Brasileiro: uma edição desfigurada", o livro de Cirne, publicado em 2010, teve efeito sobre as edições posteriores do dicionário de Cascudo, como podemos notar na página da editora Global para a sua 13a edição, na qual somos informados que se trata de

"uma edição fiel ao volume de 1979, último revisado pelo autor. A obra mantém intacta a riqueza de seus milhares de verbetes, que exploram superstições, crendices, mitos, danças, lendas e práticas mágicas do cotidiano brasileiro. Com a ortografia atualizada conforme o Novo Acordo Ortográfico, a edição foi supervisionada pela Família Cascudo, garantindo que a integridade e a autenticidade do conteúdo sejam preservadas".

Mais recentemente, a editora Global voltou a recriar a obra de Cascudo, dessa vez sem alterar o texto original, mas retirando parte dele. Na série que podemos chamar informalmente "Câmara Cascudo para Jovens", a editora subtrai das novas edições o texto das análises de Cascudo sobre contos populares, mantendo apenas os textos recolhidos da história oral. Em títulos como "Contos tradicionais para jovens", "Vaqueiros e cantadores para jovens" e "Lendas brasileiras para jovens" lemos histórias pesquisadas por Cascudo, mas não suas análises sobre essas obras.

Em relação à obra de Darcy Ribeiro, identificamos dois livros que foram modificados em reedições da Global. Em "Noções de coisas", publicado em 1995 pela FTD, metade do conteúdo do livro foi alterado, com a mudança do autor das ilustrações, que deixou de ser Ziraldo e passou a ser Maurício Negro na edição atual.

Em O Mulo, apesar de nada ter sido modificado no texto original, foram adicionadas informações em diversas páginas que modificaram a leitura do livro. Na publicação original, O Mulo termina suas muitas partes com citações dos mais diversos autores, com o instigante detalhe de não explicar em nenhum lugar do livro qual a autoria dessas citações. Provavelmente preocupados em ampliar o romance em sua reedição na Global, os editores incluíram nas páginas das citações o nome de seus autores. Incluíram os nomes desses autores não como uma discreta nota de pé de página, mas escrevendo seu nome logo abaixo da citação de Darcy, incluindo informação ao texto original. Esse acréscimo modificou consideravelmente a leitura do livro, pois esses nomes escritos ao final de cada parte acabam tendo um efeito não previsto pelo autor ao escrever O Mulo. Dá a impressão que cada trecho tem um "autor" que assina ao final com a citação, alterando a interpretação de Darcy Ribeiro sobre a exposição das diversas citações presentes em O Mulo.

O objetivo da página Darcy Ribeiro ao publicar essa análise não é desmerecer as novas edições da Global, que deve ser enaltecida por manter viva a obra desses grandes intelectuais, Darcy Ribeiro e Câmara Cascudo. No entanto, não encontrando textos na internet sobre essas reedições, que alteraram algumas obras mais do que outras, acredito que tenha algum valor fazer essas anotações, na esperança que edições de obras tão relevantes venham a merecer maior atenção do público.

Pablo Freitas, professor de sociologia no ensino médio.

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Sobre

"Um Cascudo paulistano" - Pesquisador Moacy Cirne aponta modificações na edição da editora Global que descaracterizam o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo - Tribuna do Norte - 20/07/2010: https://www.facebook.com/share/p/14iFwVvPvx/

01/06/2026

O discurso popular costuma repetir que “o povo é oprimido pelos poderosos”. Mas essa afirmação, embora confortável, ignora uma realidade mais incômoda: a maioria das pessoas não apenas tolera a dominação — ela a deseja. A história não é feita apenas por tiranos, mas por massas covardes que, ao invés de lutar por autonomia, preferem entregar sua liberdade em troca de promessas fáceis. Como nos adverte Maquiavel, o povo quer apenas “não ser oprimido”, e nunca assumir o fardo de pensar, escolher e agir por si mesmo. O problema não está apenas na elite que governa, mas no povo que implora por um governante que pense e decida por ele.

O povo é escravo, antes de tudo, por escolha. Deseja ser conduzido, ter um salvador da pátria, um “pai” que resolva os problemas enquanto permanece infantilizado e irresponsável. Essa abdicação da autonomia gera o que Maquiavel descreve como uma sociedade baseada nas aparências, onde o governante precisa apenas parecer virtuoso para manter as massas dóceis: “Todos veem o que pareces ser, poucos sentem o que és.” Em outras palavras, o povo não busca a verdade; busca conforto emocional. Aceita a mentira bem contada, o discurso ensaiado, o espetáculo superficial — desde que não precise arcar com a responsabilidade de pensar criticamente ou agir com coragem.

Essa submissão não é apenas emocional; é também moral. O povo terceiriza a ética, espera que o governante seja o espelho de seus valores, mas não se dispõe a praticá-los. Quer justiça, mas não participa da política. Reclama da corrupção, mas aplaude o político “esperto”. Quer mudança, mas se recusa a sair da zona de conforto. Como dizia La Boétie, o povo aceita a servidão porque tem medo da liberdade — e a liberdade exige deveres, sacrifícios, ação contínua. Ao invés disso, prefere alienar-se com trivialidades, distrair-se com supérfluos, enquanto a estrutura de dominação permanece intacta.

Maquiavel já mostrava que o poder se mantém não apenas pela força, mas por meio de artimanhas psicológicas: festas públicas, distribuição de recompensas simbólicas, criação de inimigos imaginários e controle da moral pública. Tudo isso serve para manter o povo ocupado com o que não importa, enquanto o que realmente interessa — a posse do poder e das decisões políticas — permanece nas mãos de poucos. E o mais trágico: não há resistência significativa. Há resignação, cinismo e, pior, apatia.

A verdade é dura: o povo é cúmplice de sua própria escravidão. Ele escolhe ser governado, manipulado e controlado, desde que não precise arcar com o peso da liberdade. Quer estabilidade sem esforço, direitos sem deveres, mudanças sem rupturas. A elite apenas oferece o que o povo já espera: um messias, um pai, uma promessa, uma narrativa confortável. Quando o “salvador” falha, o povo se revolta brevemente — mas não aprende, apenas espera o próximo. Substitui um nome por outro, sem jamais questionar o próprio papel nessa engrenagem cíclica de dominação.

Não há tirano que se sustente sem o consentimento das massas. Não há elite opressora sem um povo que se recusa a amadurecer. O povo não é vítima inocente: é agente da própria servidão. Enquanto continuar buscando salvadores ao invés de assumir a responsabilidade por si mesmo, permanecerá eternamente dominado — não por imposição, mas por conveniência. Porque, no fim, é mais fácil ser súdito do que cidadão.

01/06/2026

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