Para cada dia uma poesia

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Para cada dia uma poesia SER POETA É SER PENSANTE.
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Se o que estás vendo não lhe agrada
Redirecione o olhar 😍😍

30/05/2026

*Onde estás*

No vento frio da noite calada,
a brisa dança pela estrada,
balança a copa das pequenas árvores
como quem conhece antigas saudades.
Da minha vidraça fico a olhar
o mundo inteiro a caminhar,
tão alegre em sua canção,
enquanto choro na solidão.
Lá fora há risos e movimento,
gente vivendo cada momento,
e eu aqui, no mesmo lugar,
aprendendo sozinho a suportar.
Sofro tua doce partida,
ferida funda, mal resolvida,
feito inverno dentro do peito
onde o amor chegou sem jeito.
Sofro tua ausência silenciosa,
tão fria quanto a madrugada chuvosa,
pois teu adeus deixou em mim
um céu cinzento sem ter fim.
E o pior dessa dor sentida,
que vai consumindo a vida,
é amar com tanta verdade
e receber apenas saudade.
Mas talvez o tempo, devagar,
ensine meu peito a se curar,
porque até a noite mais sombria
um dia amanhece em poesia.

Cíntia Cardoso

30/05/2026

*Recuperação do Sol*

Porque o Sol andava tão cansado,
vivendo sempre apressado,
acordava antes do cantar,
só pra o mundo iluminar.
Queimou tristeza, aqueceu chão,
foi abrigo pra plantação,
mas guardou no peito ardente
um silêncio permanente.
Até que o brilho enfraqueceu,
e o próprio céu entristeceu.
A Lua, fria em seu lençol,
sentiu saudade do calor do Sol.
Pois na pressa de aquecer a Terra,
entre mares, montes e serra,
ele esqueceu, sem perceber,
da Lua também aquecer.
Então as estrelas em oração
pediram cura na imensidão:
“Volta forte, brilhante e fiel,
saúde eterna ao rei do céu.”
E que nunca lhe falte calor,
nem esperança, nem amor,
porque até quem nasce pra iluminar
também precisa descansar.

*Cintia Cardoso*

30/05/2026

*Meu idioma*

A língua portuguesa é um mapa vivo,
costurado em sal, memória e travessia.
Nasceu de impérios, mas sobreviveu
na boca do povo, que a recria todo dia.

É ciência quando define o universo,
é música quando Camões vira mar,
é código preciso em leis e tratados,
mas também gíria solta num bar.

No Brasil, dança com o improviso;
em Portugal, guarda pedras antigas no som.
Em Angola e Mozambique,
mistura tambores ao velho idioma de Roma.

Tem acentos que mudam destinos,
vírgulas capazes de absolver ou condenar.
Uma palavra mal posta é ruído;
a palavra exata pode salvar.

“Saudade” virou tese do indizível,
“jeitinho” ganhou sociologia informal,
e cada pronome revela distâncias
entre o íntimo, o político e o social.

O português não é apenas língua:
é arquitetura feita de ar.
Quanto mais o mundo f**a automático,
mais humano é saber falar.

*Cintia Cardoso*

30/05/2026

*Vamos*

Teu chamado chega antes da distância,
como um farol aceso dentro do peito.
Meu sensor, estranho nome para saudade, reconhece tua frequência no silêncio.
Então teu pensamento toca o meu
e abre uma estrada fora da realidade,
uma viagem feita de nuvens, vertigem
e coragem para esquecer as quedas.
Voamos.
Acima dos amores interrompidos,
das promessas deixadas nas estações,
dos beijos que morreram antes do inverno
e das cartas nunca enviadas.
Lá do alto, os fracassos parecem pequenos,
quase pontos dissolvidos na fumaça do tempo.
E por um instante, só por um instante,
amar não dói, liberta.
Tua mente segura a minha pela mão
e atravessamos constelações inventadas,
como dois corpos aprendendo
que nem toda perda é fim.
Há encontros que não pedem destino,
apenas sintonia.
E quando penso em cair outra vez,
teu pensamento me ensina a voar.

*Cintia Cardoso*

30/05/2026

*O garoto da esquina*

Ele f**a encostado na mesma esquina
como quem espera um trem que nunca vem.
A fumaça sobe devagar dos dedos,
e os olhos escuros, lindos, perigosos, parecem carregar a noite inteira dentro deles.
Ninguém sabe ao certo o nome dele.
Uns dizem que se perdeu nas dr**as,
outros dizem que nasceu perdido.
Mas existe uma diferença enorme
entre quem se perde sozinho
e quem foi empurrado para fora do amor.
Porque aquele rapaz já amou alguém.
Dá pra perceber no jeito que ele olha o vazio,
como se ainda conversasse com uma memória.
Talvez fosse uma mulher impossível:
rica demais, distante demais,
bonita demais para enxergar
a fome emocional de um garoto quebrado.
E ele amou mesmo assim.
Amou como quem p**a de um prédio
acreditando que o vento vai salvar.
Mandou mensagens longas,
esperou respostas curtas,
aceitou migalhas achando que era banquete.
Até o dia em que ela partiu
sem perceber que levava junto
a última parte boa que existia nele.
Depois disso, veio a rua.
Vieram as madrugadas tortas,
os ci****os divididos,
as substâncias que silenciam pensamentos,
os amigos temporários,
e aquela tristeza funda
que homens aprendem a esconder com ironia.
Mas às vezes — bem às vezes —
quando a cidade dorme
e a chuva deixa tudo brilhando,
ele ainda olha para longe
com uma delicadeza absurda no rosto.
Como se, apesar de tudo,
ainda estivesse apaixonado.

*Cintia Cardoso*

30/05/2026

*Amor de vagabunda*

Nas esquinas tortas da madrugada
ela fuma o silêncio como quem reza,
batom borrado, salto cansado,
mas nos olhos , uma beleza acesa.
Chamavam ela de vagabunda
como se o nome fosse prisão,
mas ninguém via as cicatrizes
costuradas dentro do coração.
Ela amava feito temporal:
sem pedir licença, sem medida.
Dava o corpo por sobrevivência
e a alma inteira por uma vida.
Teve homens de bolso cheio,
perfume caro e fala bonita,
mas foi um garoto sem dinheiro
quem beijou sua dor infinita.
Na janela de um quarto barato
ela descobriu, pela primeira vez,
que carinho não compra silêncio
nem cobre a falta de sensatez.
E quando ele dormia tranquilo,
ela vigiava a noite passar,
com medo que o mundo levasse
o pouco que aprendeu a amar.
Porque amor de vagabunda
não vem limpo nem organizado
vem sangrando pelas beiradas,
mas quando é verdadeiro,
ama mais fundo
que muito peito respeitado.

*Cíntia Cardoso*

30/05/2026

*Sol ou chuva?*

O sol ficou triste com a lua
e resolveu se esconder.
Sumiu do céu, não apareceu hoje,
e por isso a chuva caiu.

As nuvens choraram baixinho
pela falta do seu calor,
enquanto a lua, lá longe,
guardava silêncio e dor.

*Cíntia Cardoso*

30/05/2026

*Amores impossíveis*

Desde o princípio
o amor do sol e da lua
nasceu condenado à distância.
Quando um chegava,
o outro precisava partir.
E assim viveram eternamente:
um ensinando adeus ao outro
na beira do horizonte.
A lua amava em silêncio,
com sua luz ferida e emprestada.
O sol queimava de saudade,
mas nunca podia permanecer.
Havia amor,
imenso, antigo, celeste,
mas não havia encontro.
Então Deus,
vendo a tristeza escondida
entre o dia e a noite,
criou o eclipse.
E por alguns instantes raros,
o universo inteiro prende a respiração.
O sol e a lua se encontram
no meio do céu,
sem pressa,
sem distância,
sem despedida.
A lua encosta seu rosto
na luz do sol.
O sol envolve a lua
num abraço que esperou séculos.
E enquanto a Terra escurece,
o céu inteiro entende:
há amores impossíveis
que Deus permite acontecer
nem que seja só por um momento.

*Cíntia Cardoso*

30/05/2026

*Abandono*

A lua está desapontada.
O sol se pôs cedo demais,
sem deixar calor suficiente
para atravessar a noite.

Ela esperou um último gesto,
um brilho lançado de longe,
um adeus pousado sobre o céu
como mãos tentando permanecer.

Mas o sol virou as costas.
Partiu em silêncio,
como fazem os que já não amam
e não sabem explicar a ausência.

Agora a lua atravessa a escuridão
com sua luz pálida e cansada,
iluminando o mundo inteiro
sem conseguir aquecer a si
mesma.

As estrelas observam de longe,
frias, imóveis, indiferentes.
Nenhuma delas alcança
o vazio deixado pelo entardecer.

E a noite cresce dentro dela,
devagar, funda, interminável,
porque há abandonos
que continuam acontecendo
mesmo depois da despedida.

*Cíntia Cardoso*

30/05/2026

*Paixão*

No peito mora um incêndio antigo,
uma chama que não pede licença.
E eu me pergunto, em silêncio:
o que fazer com a paixão que existe dentro de mim?
Guardo?
Mas ela transborda pelos olhos.
Entrego?
Mas tenho medo de virar cinzas.
Então descubro, devagar,
que paixão não nasceu para prisão.
Ela nasceu para movimento:
para virar palavra, abraço, música, coragem, poesia.
Talvez eu não precise apagá-la.
Talvez eu só precise aprender
a caminhar sem medo
com esse fogo aceso dentro de mim. 🌹

*Cíntia Cardoso*

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