10/12/2025
Manifesto Filé Alagoano, IA pois! – Entre o bordado da raiz e o algoritmo da resistência
Há um silêncio perigoso nos grandes modelos de inteligência artificial quando se busca por “filé”.
O que aparece é o filet lace europeu: branco, frio, simétrico — belo, sim, mas não é o nosso.
Nosso Filé é quente. É colorido. É feito à mão, na região das lagoas, do Pontal da Barra a Marechal Deodoro, com histórias nos pontos e suor nas linhas. É um tecido vivo de resistência cultural.
Ao criar as artes para o Festival Hermeto Pascoal de Música Universal, percebi que não existia na IA um olhar para o Filé alagoano. E pior: quando tentávamos evocá-lo, a máquina respondia com uma versão estrangeira, apagando nossa especificidade.
Diante disso, não aceitei o vácuo. Passei meses desenvolvendo duas aplicações próprias:
— Uma para analisar a estrutura, os pontos, as cores e a trama do Filé autêntico;
— Outra para aplicar esse olhar em imagens, transformando retratos de Hermeto, Cháu do Pife, Fábio Pascoal e tantos outros em verdadeiras homenagens visuais ao bordado alagoano.
Este processo nasceu da minha infância no Pontal da Barra, onde minhas três irmãs bordavam — e eu, curioso, aprendi alguns pontos, mesmo que não tenha seguido com a linha. Hoje, duas delas ainda bordam. E é a elas — e a todas as bordadeiras invisíveis da nossa terra — que este trabalho se dedica.
Não é apropriação. É tradução.
Não é substituição. É amplificação.
Espero que, ao ver essas imagens, as pessoas sintam orgulho, curiosidade e respeito — e que artesãos encontrem nelas inspiração para criar novos pontos, novas combinações, novas tramas.
Esse estilo se chama “Filé Alagoano, IA pois!”
E é um grito de afirmação:
“Nossa arte é tão forte que até a máquina vai aprender a respeitá-la.”
— Silvano Almeida
Maceió, dezembro de 2025