03/04/2022
“Em A festa do rouxinol, de Richard Plácido, as imagens vão se sucedendo como em palimpsesto de pesadelos. Está tudo aqui — a rua, a casa, o corpo, o expediente de trabalho e a marmita do almoço, mas, pelas lentes do poeta, a rotina se converte numa viagem delirante e cruel. Tudo é ruína ou está em vias de desmoronar, de se decompor. Não por acaso, passeiam por essas páginas moscas, formigas, porcos, ratos — toda uma horda hedionda — totens de um mundo infame? Em seu segundo livro de poemas, Richard Plácido aprofunda e refina a sua investigação poética, embrenhando-se no absurdo, na violência e na escatologia, por meio de uma linguagem impiedosa, lancinante e fragmentada. Suas metáforas doem. Mas, como a vida que brota da matéria morta, há também delicadezas nesta festa — no voo, na dança, no canto e na canção; como também há sutilezas — no arranjo poético, na concatenação dos versos, no roçar e trombar de palavras no interior dos versos. Suas metáforas doem. E, nos mostra o poeta, pode haver tanta beleza na dor.”
Felipe Benicio
Escritor