18/02/2021
Maria Eliza Alves dos Reis (1909-2007) filha do dono do Circo Guarani, já nasceu no meio artístico. Iniciou a carreira como cantora com sua irmã Efigênia. Em 1929 passaram um tempo no RJ investindo na carreira, ficaram na casa do Benjamin de Oliveira, um dos maiores palhaços do Brasil. Cantaram na Rádio Nacional, onde conheceram César Ladeira, H**e Camargo, e Dercy Gonçalves.
Voltaram para SP em 1942. Ano que seu irmão Toninho, palhaço Gostoso, que era o palhaço do circo, teve uma doença grave. Da necessidade de substitui-lo, nasceu Xamego. E o papel provisório durou 50 anos.
Tornou-se "palhaço", assim mesmo, no masculino, em uma época que mulheres não desempenhavam este papel no picadeiro. Não foi fácil. Precisou convencer seu pai, João Alves. E de um jeito tradicional de circo, com o “faz me rir”. Eliza vestiu uma roupa engraçada, soltou seu cabelo crespo que ficava bem armado e colocou um chapeuzinho bem pequeno na cabeça. Engraçada que era, divertiu João, e Xamego ganhou corpo.
Fazia jogos cômicos em dupla com o pai, mas tinha participação em quase todos os números. Seu tipo principal era de brincalhão, o oposto do parceiro, sério, "inteligente", mas que sempre caía nas armadilhas do Xamego. E isso encantava as mulheres da plateia, muitas se apaixonavam por Xamego. No final do espetáculo, esperavam para vê-lo sem maquiagem, mandavam bilhetes.
O mistério só era desvendado no último de espetáculo da temporada, Maria Eliza se apresentava como mulher.
Se casou em 1942, e teve 9 filhos, mas apenas dois sobreviveram: Aristeu Alves dos Reis, guitarrista do cantor Roberto Carlos durante 40 anos e a jornalista Daise Alves dos Reis Gabriel.
“Minha avó era palhaço”, documentário sobre Xamego, com direção de Ana Minehina e Mariana Gabriel, filha de Daise, destaca também a influência dos negros no meio circense e o preconceito que sofriam. João Alves era o único negro proprietário de circo. Entretanto e felizmente, era respeitado e reconhecido. O machismo era outro revés que predominava na época. Segundo a historiadora Ermínia Silva, o termo palhaça surge apenas no final de 1970, junto as escolas de circo.
Maria Eliza faleceu em 2007, aos 98 anos.