08/10/2013
Nordeste - Tu me contas teus passos e eu te canto em mil compassos...
Eu vou contar para vocês,
Num cordel bem “arretado”
A história do Nordeste
Onde o Brasil foi achado.
Em tempos idos, remotos,
Seu Cabral aqui chegou,
No costado da Bahia
A caravela aportou.
Quando gritou “Terra à vista!”
Que visão estonteante!
Tanta terra, tantos montes,
Nativas de grande beleza,
Verdejante natureza...
“Esta terra é formosa,
Em se plantando, tudo dá!”
Os intrépidos desbravadores,
Começaram a explorar.
Lançando mão das riquezas
O pau-brasil, com certeza,
Levaram pra tingir as vestes
Da coroa portuguesa.
E o indígena selvagem
Foi logo catequizado,
Vestido, perdeu a liberdade,
Por eles foi “civilizado”.
E nos bosques cheios de vida,
Sentiram-se aprisionados.
Nem brado retumbante,
Nem tampouco clava forte,
Flechas por chumbo!
E o indígena aculturado,
Viu dizimado o seu mundo.
Outrossim
Plantou-se ali a lavoura da ganância
E a verdejante exuberância
Em grandes engenhos se transformou,
Trouxeram negros acorrentados,
Amontoados, jogados
Nos porões da embarcação,
Com a alma em farrapo
Tanto horror, tanto mau trato,
Vinham para a escravidão.
Depois, o gado abrindo picadas,
Adentrando o sertão
Aos poucos desbravando
Os caminhos tão fechados
Foi levando negros escravos
Para o plantio do algodão.
Eta sertão nordestino,
Terra da seca danada,
Terra dos buchos vazios,
Chão da terra rachada!
Gente que vive de teima
Com as panelas esvaziadas...
Vou cantar-te nos meus versos
Neste cordel embolado
Vou cantar a tua dor
Teu olhar de desengano
Tua tristeza chorada
Em todos os meses do ano
Os coronéis mandatários,
Grandes latifundiários
Desviam água do açude
Para o gado refestelar
E o pobre sertanejo
Com o gado morrendo à míngua
Esse f**a ao deus-dará!
Nem a súplica do vaqueiro
Com os olhos cheios d’água
Faz cair água de “riba”
Na terra tão ressecada...
Sua prece é um lamento
Só desaba a sua mágoa
Nem aboio, nem viola
Só a seca excomungada!
Plantar justiça neste chão,
Esta é a solução!
Só assim a terra seca
Há de ter produção.
E a miséria brota solta,
Causando indignação.
Cresce qual erva daninha
No solo da enganação!
Mas os que padecem na dor
Não aguentam a desolação
Juntam os trapos numa trouxa
Jogam em cima de um caminhão.
Outros vão marchando a pé
Abandonando o sertão.
Nordeste de Canudos,
De Antonio Conselheiro,
Da fé do “Padim Padi Ciço”
Do lavrador, do vaqueiro.
De um cabra afogueado,
Um terrível capitão,
Com ele era na bala,
Não tinha conversa não!
Cabra da peste arretado
Robin Hood do sertão,
Virgulino, o rei do cangaço,
O temível Lampião!
Nordeste dos literatos
De Amado e Alencar
Terra de Gonçalves Dias,
De Bandeira e Gullar.
Terra de Gilberto Freyre,
Da poesia e da prosa
Terra de Coelho Neto
E do grande Rui Barbosa
Terra de Castro Alves,
Suassuna, João Cabral,
Terra de Graciliano,
Patativa, fenomenal!
Terra de tanto expoente,
Do cordel e do repente,
Do frevo alegre e fremente
Que chega pra incendiar.
Terra do tambor-de-crioula,
Do coco e do cupuaçu,
Do acarajé, da buchada,
Da cambinda e da cambada,
Ao som do maracatu.
Nordeste das emboladas,
Dos repentes, dos cordéis,
Da viola enluarada,
Mamulengos e afoxés.
Na roda da tua ciranda
Vou rodando pra outras bandas
E vou pras bandas de lá
Pegar um Ita pro norte,
Vou pra Belém do Pará
Misturar o bumba-meu-boi
Com o famoso boi-bumbá.
Conhecer a selva amazônica
Paraíso universal,
Milagroso pulmão do mundo
Floresta descomunal!
Adeus meus algodoais,
Vou pras terras do Amazonas
Conhecer os seringais.
O Acre de Chico Mendes,
Defensor da natureza!
Rondônia e Tocantins,
Roraima e Amapá
E toda a gente de lá!
A cerâmica e os búfalos,
Na ilha de Marajó,
Os teatros, a marujada,
E a arte rococó.
Sacudir o esqueleto
No ritmo alucinante
Da dança do carimbó!
E a arte corre solta
Por toda essa grande nação
Terra de luz e de canto
Que se espraia no encanto
Por todo canto a que se vai!
Na harmonia da sanfona,
Nas cordas do violão,
Nas notas alegres ou tristes
Na sinfonia do coração.
No batuque do tambor
Ressoa o nosso amor!
Nos passos de tua gente,
Meu Brasil, vamos em frente,
Saudamos- te com louvor!
Maria da Graça Bergamini Gusmão