18/07/2024
“Você não sabe? Eu sou filho de maré, sou canoa que navega e meu porto é solidão” Mestre Dikinho ⭐ 07.07.1941 ✝️17.07.2024
Raimundo Miranda Amaral, vaqueiro, pescador, poeta e músico, reconhecido como Mestre por suas composições de carimbó, toadas de boi, sambas enredo, além de bossas, lundus e xotes, é também artesão e constróis bois-bumbás, cavalinhos e outras alegorias e instrumentos de percussão.
Vida e obra de Mestre Diquinho
Um dos maiores expoentes da música popular paraense faleceu aos 83 anos na madrugada desta quarta-feira, 17 de Julho, em Soure, Ilha do Marajó-PA. Raimundo Miranda Amaral, o Mestre Dikinho, como era conhecido e gostava de ser chamado, nasceu no dia 07 de julho de 1941, com uma irmã que não resistiu ao parto. Filho biológico de Maria José e Zacarias, foi criado desde os primeiros dias de vida por Augusta de Castro Miranda e Pedro Alexandrino do Amaral, seu avô.
Miranda quando criança era tímido e tinha um comportamento muito tranquilo.
Morou na fazenda Ritlandia, no retiro Jutaí de Jesus Maria José, onde declarou ter vivido os melhores tempos de sua vida. Foi lá que se tornou vaqueiro e conheceu outros vaqueiros valentes como Procópio.
Foi na fazenda também que conheceu Merá, amigo de Boaventura (o famoso vaqueiro que se encantou) e que contou- lhe as aventuras nos campos com o amigo, as histórias de encantaria como da mãe de fogo, que tempos depois inspirou muitas composições.
"Meu cavalo Itajara
Mãe de fogo mundiou
Foi lá na boca da Mata
Caiçara me cercou
Eu não sei de onde foi que o fogo saiu
Foi do pé do parapará
Foi de lá que veio o assobio
Lua lua, lua luê
Eu não conheço mandinga
Meu pai é jurutaí
Lua lua, lua luê
A mãe de fogo é do campo
Põe vaqueiro pra correr"
Ele volta para Soure e dá início, mesmo sem grandes expectativas, a linda e longa caminhada artística.
A primeira paixão de Mestre Dikinho foi pelo boi-bumbá, ele citava como grandes Mestres e Mestras da época: Dona Benta/boi Sem Receio; dona Magnólia/boi Pai do Campo; dona Nilma/ boi Estrela Dalva; dona Iracema/ boi Flor da Lembrança; dona Graça/ boi Rosa Branca; Sr. Vavá Campina/boi Pingo de Ouro.
Mestre Dikinho foi criador do boi Sete Estrelas e venceu vários concursos. O boi Sete Estrelas brincou nas ruas de Soure durante 09 anos, no entanto, a perda do seu filho de 10 anos, no período que o boi estava na rua, o entristeceu profundamente, decidindo por acabar com a brincadeira. Anos depois, ele compõe a música entitulada " saudade do meu boi bonito", em memória ao boi Sete Estrela.
Miranda participava nas apresentações de carimbó em todos os conjuntos, com grandes Mestres de carimbó como: Abelardo, Regatão, Petita, Leomar e muitos outros. Ele teve até seu próprio conjunto, embora sem nome, tocavam todos os domingos no comércio do Rochedo. Seus musicos e dancarinas eram: cabo do firme, barulho, salgado, Pedrinho Sá, Mestre Babi, dona Conceição, Socorro, Maria do Tigre e quati.
Aos 25 anos ele se junta com a companheira Maria do Carmo, com quem tem 06 filhos. Maria do Carmo participa ativamente na brincadeira de boi, fazendo os cavalinhos e na pescaria do camarão ela produzia os matapis e ensinava o companheiro.
Em 1990 ingressou no conjunto de Tradição Marajoara Cruzeirinho, onde assumia a direção musical, deixou um legado imensurável de músicas durante os 20 anos de Cruzeirinho, a maioria gravadas em CD's do grupo em 1998, 2005 e 2011. Em 2010, aos 69 anos, Mestre Dikinho começa a participar dos ensaios do conjunto de carimbó Tambores do Pacoval. O conjunto tinha como principal objetivo juntar os mestre de carimbó afastados do cenário cultural. Com o Tambores do Pacoval, Dikinho liderou quase 15 anos as Rodas de Carimbó, todo sábado, no barracão da Associação de moradores do Pacoval.
Mestre Dikinho foi um artista nato, profundo conhecedor das riquezas naturais, das tradições marajoaras, suas canções são inspiradas numa imagem, numa saudade ou nas encantarias. Isso fez dele artista um gigante, um patrimônio que deixa um legado inesquecível ao Marajó, ao Pará, à Amazônia, sem exagero, ao mundo.
Vá em paz, Mestre!
*Fotos e vídeos de minha vivência desde 2016 com o eterno e GRANDIOSO MESTRE DIKINHO!
*Com informações de Cilene Andrade (AMPAC-SOURE)