24/05/2013
Alguns indicadores de avaliação de bem-estar em vacas leiteiras – revisão
Esta revisão tem por finalidade descrever e analisar os sistemas de indicadores de avaliação de bem-estar para vacas leiteiras que se considerou serem os mais consistentes, rigorosos e úteis, entre os que se encontram atualmente descritos e publicados.
Metodologia
Esta revisão sobre os principais indicadores indiretos de bem-estar em vacas leiteiras. Optou-se por classif**ar os sistemas numa das três categorias seguintes de indicadores: comportamentais, de saúde e de maneio. Selecionaram-se os sistemas de indicadores com base em três critérios: a) serem largamente referenciados na bibliografia de diversos grupos de trabalho (sempre que possível a pesquisa bibliográf**a foi realizada tendo por critério existir maior número de citação do artigo científico e simultaneamente incluir as publicações mais recentes), b) possuírem critérios de avaliação objetivos, possíveis de medir com rigor (repetibilidade e reprodutibilidade) e c) possibilitarem interpretações para estados de saúde ou de bem-estar animal adequadamente validadas e publicadas por pelo menos um investigador ou grupo.
Para cada sistema de indicadores é evidenciada a metodologia de abordagem, assim como os respectivos critérios de classif**ação. Descrevem-se ainda as suas potencialidades e limitações, a respectiva forma de interpretação e as implicações que a pontuação de resultados possui em termos de produção, saúde e bem-estar animal.
Desta revisão foram excluídos alguns indicadores de avaliação de bem-estar, tais como: doenças, parasitas na pele, lesões no corpo, estado da pele, descarga vulvar, descarga nasal, descarga ocular, diarreia, taxa de respiração, condição podal e consistência das fezes, que apesar da sua utilização em protocolos de avaliação de bem-estar, são pouco referenciados em revistas científ**as.
Referem-se de forma muito sintética alguns sistemas de avaliação de bem-estar desenvolvidos e implementados na Áustria e na Alemanha.
Indicadores comportamentais
As alterações comportamentais dos animais nas explorações são frequentemente utilizadas como um indicador para a avaliação do bem-estar animal. Por isso o conhecimento abrangente das atividades comportamentais dos animais é fundamental para a melhoria da produção animal (Gordon, 1995). Estudos recentes indicam que interações negativas homem-animal poderão influenciar negativamente a produção das vacas leiteiras (Rushen et al., 1999; Breuer et al., 2000).
Atitudes negativas podem conduzir a interações agonísticas, medo, desregulação hormonal e stress com reações nefastas sobre a produção, bem-estar e dificuldades no maneio animal, aumentando o risco de lesões para os animais. Por outro lado, a manipulação dos animais de uma forma tranquila permite aumentar o seu desempenho reprodutivo e de produção de leite.
Os métodos experimentais de avaliação comportamental, como a observação direta e a análise de gravações em vídeo, têm evoluído nos últimos anos permitindo progressos neste domínio. Os primeiros têm alguns inconvenientes, sobretudo devido à interferência humana; os segundos são métodos demorados e que exigem mão-de-obra especializada. Muller e Schrader (2003) desenvolveram um método de gravação automática da atividade comportamental de vacas leiteiras que consiste num sistema de vigilância mediante dispositivos electrónicos fixados aos membros dos animais. Este método pode medir objetivamente a atividade comportamental e monitorizar os movimentos e períodos de repouso e atividade dos animais, sem restrição à liberdade de circulação dos mesmos. São diversos os fatores de incerteza associados às observações feitas com estes métodos.
Em ambientes mais complexos, como a estabulação livre ou em sistemas de pastoreio pode tornar-se difícil observar a atividade ininterruptamente durante vários dias. Caso estejam envolvidos mais do que um observador, poderão surgir problemas adicionais com as interpretações dos diferentes operadores (Martin e Bateson, 1993; Schwarz et al., 2002). A consistência do observador também pode variar devido a fatores como distrações por motivos específicos. Acresce ainda a possível perturbação do investigador durante a observação ou análise (Martin e Bateson, 1993). Por último, a observação direta pode influenciar o comportamento dos animais ao serem observados (Gordon, 1995).
A avaliação da relação homem-animal é uma componente muito importante para o conhecimento do bem-estar nas explorações de vacas leiteiras (Rousing e Waiblinger, 2004). Para estes autores a realização dos te**es de abordagem voluntária e forçada do animal para a sua avaliação é importante. A distância de evasão dos animais, por exemplo, poderá refletir o nível de relacionamento homem-animal. Embora os te**es de abordagem sejam muito influenciados por fatores externos, a sua inclusão deve ser equacionada nos estudos de comportamento (Waiblinger et al., 2003).
Teste de abordagem voluntária do animal
Consiste na avaliação da motivação do animal para explorar um humano, devendo ser executado pela manhã, cerca de uma hora após a distribuição do alimento. Determina-se uma área de ensaio no sistema de alojamento livre com cubículos, posicionada de forma central e amplamente visível em relação à zona de alimentação e a uma distância mínima de 10 m dos bebedouros. Procede-se à medição com fita e marcação a giz, serradura ou palha moída, de uma zona de 2,5 m de diâmetro, no centro da qual f**a localizado o operador durante o teste (centro do teste). Aproximadamente 5 minutos após a conclusão da marcação da área de ensaio, o operador caminha lentamente para o centro da área de teste e coloca-se de costas para os cubículos, permanecendo parado durante 15 minutos e o teste inicia-se imediatamente.
Regista-se o número de vacas em pé na zona de 2,5 m e são assinalados os animais que efetuam a primeira travessia da zona bem como os possíveis contatos com o operador.
Teste de abordagem forçada do animal
Baseia-se na avaliação da reação do animal, ao teste de aproximação de uma pessoa, numa amostra aleatória de vacas em sistema de estabulação livre. A pessoa aproxima-se da vaca de uma forma pacíf**a, abordando o animal pela frente, caminhando lentamente (aproximadamente um passo por segundo), olhando para a vaca, mas sem fixar os olhos e mantendo braços e mãos junto ao corpo. O operador deve permitir que as vacas o visualizem antes da aproximação individual a cada animal. À distância aproximada de 1 m da vaca, o operador estende lentamente a mão e passados cerca de 10 segundos tenta tocar no seu pescoço. O teste termina quando a vaca se afasta do operador, dando passos bem definidos.
As respostas deste teste são classif**adas em cinco categorias, a partir do momento de retirada da vaca, em relação à distância da pessoa ou à aceitação (sem fugas), da seguinte forma:
Categoria 1 - A vaca evita a pessoa a uma distância superior a 2 m;
Categoria 2 - A vaca retira-se a uma distância entre 1,5 a 2 m;
Categoria 3 - A vaca retira-se a uma distância inferior a 1,5 m e evita a pessoa quando esta estende a mão, após estar imobilizada a cerca de 1 m;
Categoria 4 - A vaca aceitou o teste da pessoa ao esticar a mão, mas evitou ser tocada;
Categoria 5 - A vaca aceitou ser tocada pela pessoa.
Teste de comportamento na sala de ordenha
As vacas leiteiras são geralmente manipuladas através de rotinas diárias, sendo a ordenha uma das mais importantes, que se realiza duas ou três vezes ao dia. Esta rotina é um fator importante para o bem-estar das vacas, uma vez que o seu comportamento é ajustado às preferências de cada animal (Arave e Albright, 1981). A escolha de um dos lados da sala de ordenha é um fator valorizado por alguns animais, pois existem alguns estudos evidenciando que as vacas eram consistentes na opção, por isso têm uma clara preferência lateral (25,8% das vacas) (Hopster et al., 1998). No entanto Costa e Broom (2001), não encontraram evidências de desconforto, inclusive nas vacas que evidenciavam alta consistência de preferência lateral. As vacas normalmente identif**am as pessoas individualmente na ordenha e o medo perante estranhos presentes no local, poderá aumentar substancialmente o leite residual e reduzir a produção final de leite nessa ordenha (Rushen et al., 1999).
Segundo Rousing et al. (2006) os animais na ordenha são avaliados em dois momentos distintos. O primeiro relaciona-se com a abordagem à máquina de ordenha (convencional ou automática), sendo atribuída a pontuação 1 para os animais que entram normalmente no equipamento e 2 para os que efetuam uma paragem no momento do ingresso à ordenha. O segundo prende-se com a existência de passos e/ou coices durante a ordenha. Os passos são definidos como a deslocação suave dos membros mantendo-se contudo numa posição vertical; os coices são definidos como sendo o movimento violento dos membros e sua elevação, muitas vezes dirigidos para a frente. Estes dois eventos são avaliados separadamente classif**ando-se do seguinte modo:
Classe 1 – Nenhuma ocorrência durante a ordenha;
Classe 2 – Uma ocorrência por ordenha;
Classe 3 – Duas ou mais ocorrências durante a ordenha.
Para além desta avaliação poderá ser oportuno ainda o registo de outras ocorrências como, coices por nos componentes da ordenha, cauda presa, tentativa de fuga do animal e a defecação. As respostas fisiológicas e comportamentais de vacas leiteiras, tanto em sistema de ordenha automática como convencional foram relativamente baixas e típicas para o padrão da espécie, sendo ambos os sistemas igualmente aceitáveis no que se refere à observância dos requisitos de bem-estar animal (Hopster et al., 2002). Contudo a frequência de passos na ordenha automática foi signif**ativamente superior à convencional (Wenzel et al., 2003). Num estudo de comportamento durante a ordenha, em ambiente familiar e não familiar, Rushen et al. (2001) verif**aram que as vacas efectuam menos passos e exibem mais coices em situação familiar, pois em geral tal como descrito por Rousing et al. (2004) o comportamento de passos e coices é realizado por vacas não temerosas e/ou confiantes. Além disso, em unidades automáticas as vacas escoiceiam principalmente no final da ordenha, provavelmente pelo desconforto, devido ao baixo fluxo de leite e pressão do sistema de vácuo.
O comportamento de passos durante a ordenha foi associado positivamente à produção diária de leite. As vacas com lesões nos tetos foram mais propensas a coices durante a ordenha, devido a dor e desconforto, especialmente nas que toleravam o contato no teste de abordagem humana. Não foi encontrada relação entre claudicação ou outros sinais de distúrbios nos membros e propensão para coices ou comportamentos anormais durante a ordenha (Rousing et al., 2004).
Este teste pode revelar-se muito útil, como ferramenta de avaliação do bem-estar ao nível da saúde do úbere, técnicas de ordenha, lesões na pele e qualidade das rotinas de maneio em efetivos leiteiros.
Ascensão do animal e posturas
O tipo de estabulação influencia o comportamento das vacas em descanso. O tempo médio de repouso e a frequência com que cada animal se deita é influenciado pelo tipo de dieta, pela hierarquia social, pela estrutura do cubículo, incluindo o tipo de piso, entre outros fatores associados (Dechamps et al., 1989).
Segundo Krohn e Munksgaard (1993), o tempo que as vacas se mantêm deitadas é geralmente de 8 a 14 horas, durante períodos de observação dos animais de 15 a 25 horas. A duração de cada período varia, de apenas alguns minutos (perturbação dos animais), até mais de 3 horas. Neste domínio o teste de ascensão tornou-se muito popular.
No teste de ascensão desenvolvido por Chaplin e Munksgaard (2001), as vacas são observadas individualmente, ao amanhecer previamente à limpeza dos alojamentos. Consiste em encorajar os animais a levantarem-se dos cubículos, sendo atribuída pontuação de acordo com a seguinte descrição:
1. Movimento suave e fluído com sequência normal de posturas;
2. Pequena pausa nos joelhos com sequência normal de posturas;
3. Longa pausa nos joelhos com sequência normal de posturas;
4. Longa pausa nos joelhos e/ou alguma dificuldade em levantar-se, tal como embaraçosa torção da cabeça e do pescoço, mas com sequência normal de posturas;
5. Ascensão anormal, desviando-se da sequência normal de posturas, tal como levantar primeiro os membros anteriores ou simplesmente recusa levantar-se.
A sequência normal de posturas no momento em que o animal está deitado e se levanta é descrita e ilustrada (Tabela 1), devendo ser tido em conta para avaliação deste parâmetro.
Existe ainda uma versão simplif**ada deste teste, em que o observador se posiciona posteriormente à vaca deitada no cubículo, sendo esta incentivada a levantar-se através de simples estímulo oral do operador e seguidamente por um ou mais toques suaves na parte posterior do animal. Assim o nível de encorajamento é classif**ado da seguinte forma:
Baixo – Sem encorajamento ou apenas um toque na parte posterior;
Médio – Encorajamento de voz e 2 a 3 toques na parte posterior;
Alto – Encorajamento de voz e mais do que 3 toques na parte posterior.