03/02/2026
Guapé - 102 anos
Hoje, Guapé comemora 102 anos de emancipação política, e quero aproveitar para registrar minha análise sobre o grande responsável por essa proeza, o senador Domiciano Augusto dos Passos Maia, ou Dr. Sano, como era carinhosamente chamado pelos munícipes da época.
Faço aqui uma alusão, comparando Passos Maia ao nosso imperador Dom Pedro II, claro, tudo dentro de suas devidas proporções.
Passos Maia, desde cedo, foi escolhido por seu pai, João Clímaco, e por sua mãe, Dona Agostinha Flor de Maria, para ser o estudioso da família, o líder, aquele que representaria e se tornaria o grande homem que foi para Minas Gerais e, especialmente, para nossa Guapé e região.
Assim como o imperador, teve acesso à melhor educação disponível. Contou com excelentes professores, tutores e formação sólida. Foi enviado inicialmente para Boa Esperança, onde cursou o ensino primário, e depois para Mariana, onde estudou em um colégio internato de formação católica francesa. Lá, estudou francês, latim, grego e espanhol. Após formado, integrou o corpo docente, sendo professor de figuras ilustres como Raul Soares e Mello Viana, que mais tarde se tornariam governadores de Minas Gerais.
Concluída essa etapa, decidiu dar continuidade aos estudos e mudou-se para o Rio de Janeiro, então capital do Brasil, para cursar Medicina. Já formado, demonstrando seu espírito empreendedor, fundou o Instituto Mineiro, que passou a dar suporte a conterrâneos que, como ele, buscavam dias melhores na capital do país.
Nosso imperador, igualmente muito jovem, culto e estudioso, fluente em diversos idiomas e tradutor de obras do árabe para o português, precisou assumir cedo o pesado fardo que o aguardava: o reinado do Brasil.
Passos Maia, por sua vez, não se contentou em ser apenas médico. Partiu para Paris, capital francesa, onde se especializou em doenças tropicais. Lá, conviveu com nomes do gabarito de Louis Pasteur e defendeu sua tese de doutorado, registro que, aliás, talvez eu seja a única pessoa que possua fisicamente. Retornando ao Brasil, atuou como médico em diversas cidades do Sul de Minas até retornar definitivamente a Guapé.
Aqui, dedicou-se intensamente à vida pública e ao desenvolvimento local, sendo senador por Minas Gerais, como era o cargo à época, e também vereador em Boa Esperança, município ao qual Guapé então pertencia.
Sempre inquieto e visionário, Passos Maia empenhou-se na desvinculação de Guapé de Dores da Boa Esperança e, em 3 de fevereiro de 1924, graças à sua grande influência política e à proximidade com seu ex-aluno Raul Soares, então governador do Estado, foi sancionada a Lei nº 824, que criou oficialmente o município de Guapé.
Assim como Dom Pedro II, que, por meio da Guerra do Paraguai, buscou garantir a hegemonia do território brasileiro e ampliou suas fronteiras com a incorporação do Acre, Passos Maia também deixou sua marca territorial.
Ele foi responsável pela demarcação do município de Guapé, inclusive rompendo normas vigentes da Secretaria de Viação da época, que determinavam que os limites municipais não poderia ultrapassar grandes rios. A regra mais relevante, contudo, era o número mínimo de habitantes. Para atendê-la, buscou população além do Rio Grande, anexando o Arraial dos Araújos (Araúna) e o Arraial dos Cabeças, rebatizado por ele próprio como Capitólio.
Ambos tiveram uma formação refinada, ambos dedicaram suas vidas a uma causa maior: a vida pública. Tiveram momentos de glória e apogeu, mas também abriram mão do conforto de um lar pacato e da tranquilidade pessoal. E, de formas distintas, ambos terminaram traídos pelo próprio povo: um foi destronado e exilado; o outro, derrotado politicamente, faleceu melancolicamente em 12 de outubro de 1951, fora do poder.
Passos Maia foi, para nós, o que Dom Pedro II foi para o Brasil. Fizeram a diferença, foram líderes e escreveram a história.
Somos gratos.
A história de qualquer nação, de qualquer povo, é sempre repleta de curiosidades, às vezes desgraças, às vezes vitórias e louvores. A nossa não é diferente, seja qual for o ponto de vista.
Este é o meu.
Abraços e feliz aniversário, Guapé!
Lenilton Soares