22/04/2018
SOBRE A MONTAGEM TEATRAL DE O DIA EM QUE EXPLODIU MABATA BATA.
O espetáculo é uma montagem da Cia de TROTAMUNDOS de Teatro. Baseado em um conto do poeta moçambicano Mia Couto, é uma adaptação realizada por Jonatas Tavares, que também faz a direção geral do espetáculo. Para melhor compreensão da proposta em transpor uma obra literária no texto dramático que ora apresentamos, realizou-se um estudo minucioso da fonte, do conto de Mia Couto “O dia em que explodiu Mabata-bata”.
Neste conto, “O dia em que explodiu Mabata-bata” o escritor moçambicano Mia Couto, retrata uma história onde o mítico e o surreal sustentam uma narrativa verossímil sobre a destruição da identidade cultural de Moçambique.
A realidade exposta sobre os aspectos sociais em sua narrativa revelam um universo maculado pela colonização e destituído de sua memória e tradição.
Valendo-se de elementos metafóricos, conta a história de um menino, Azarias, que presencia a explosão do boi Mabata-Bata que pastava em um campo minado da região.
Com uma proposta intimista, o público tem acesso ao palco onde ocorre a encenação, pela entrada de serviço (camarins). Com sua chegada o espetáculo já começou. No espaço cênico, alguns personagens já estão presentes, sendo eles: Ndlati (ave misteriosa), avó Carolina e tio Raúl (familiares de Azarías, personagem central do conto) e Valoyi (personagem mistico que vive entre o mundo material e o espiritual). A ambientação cenográfica é envolvente, de maneira que o público, no palco, em cadeiras estrategicamente distribuidas, presencia com muita proximidade todas as ações desenvolvidas, sendo parte integrante na totalidade da representação. A plateia do Teatro em nenhum momento é utilizada.
O texto foi trabalhado com os atores de modo que as pausas e o silêncio são subtextos não menos importantes que a própria fala, buscando desta maneira a forma da vida do campo, das Sabanas Africanas, onde o tempo parece possuir outra dimensão. O espetáculo retrata a zona rural de Moçambique, em meados da década de 70, situado no contexto do pós-independência e da guerra civil.
Mia Couto inspira sua obra no que é transmitido pela oralidade do povo local, seus contos, saberes, conflitos e mitos. É assim que o autor revela como o povo de Moçambique mantém suas forças perante as hostilidades do cotidiano: com o suporte do mítico. É exatamente desta forma que Azarias, o protagonista, colore o trágico com os olhos de uma criança.