14/10/2016
O véu, essa fina superfície que o acaso, a pressa, o pudor co locaram e se esforçam por manter: mas sua linha de força é ir remediavelmente ditada pelo vertical da queda. O véu desvela, por uma fatalidade que é a do seu tecido leve e de sua forma fle
xível. Para desempenhar seu papel de cobrir e ser exato, o véu deve forrar, da maneira mais justa, as superfícies, reexaminar as linhas, percorrer sem discursos supérfluos a extensão dos volumes e multiplicar por uma brancura cintilante as formas que despoja de sua sombra. Suas dobras acrescentam apenas uma desordem imperceptível, mas esse fervilhar de tecido é
apenas a antecipação de uma nudez próxima: ele é, desse corpo que esconde, como a imagem já amarrotada, a doçura molesta da. Ainda mais sendo transparente. De uma transparência fun cional, ou seja, desequilibrada e dissimulada. Seu papel opaco
e protetor, ele o desempenha bem, mas apenas para quem com ele se cobre, para a mão cega, tateante e febril que se defende. Mas, para quem assiste a tantos esforços e, de longe, f**a à es preita, esse véu deixa aparecer. Paradoxalmente, o véu esconde o próprio pudor e surrupia o essencial da sua reserva de sua
própria atenção: mas manifestando essa reserva ao indiscreto, ela lhe faz ver indiscretamente o que ela reserva. Duas vezes traidor, ele mostra o que evita e esconde àquele que ele deve ocultar que ele o desvela.
FOUCAULT, Michel. Estética: literatura e pintura, música e cinema. Org. Manuel Barros da
Motta. Trad. Inês Autran Dourado. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009