19/03/2020
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A menina não tinha pai nem mãe. O povo da aldeia cuidou dela e lhe deu um nome: Ela Que Está Só. Sua única amiga era uma bonequinha feita por seus pais.
A mãe pintou os olhos e a boca da boneca usando frutas vermelhas e o pai tinha reservado o couro mais macio para o corpo. A mãe bordou contas nas calças e, com seu próprio cabelo, fez tranças negras enfeitadas com uma pena brilhante, azul como asa de borboleta. Ela Que Está Só amava sua boneca.
A cada lua nova da primavera, o povo comanche dançava para o Grande Espírito, pedindo chuvas. Ela Que Está Só aninhava a boneca e observava. Aquele ano as chuvas não vieram. As plantas murcharam. Os rios secaram. Muita gente morreu. Durante três dias as pessoas dançaram e cantaram. O povo fez vigília. Queria saber o que fazer para a chuva voltar. Mas a chuva não veio.
O mais sábio dos Anciãos foi ao cume da colina mais alta ouvir a voz do Grande Espírito. De manhã, as pessoas fizeram roda. O Ancião soprou uma oração em todas as direções:
- Nosso povo tem sido descuidado. Sempre tiramos, mas não damos nada em troca. Devemos fazer uma oferenda ao Grande Espírito. Devemos queimar nosso bem mais precioso e espalhar as cinzas aos Quatro Ventos. Só assim as chuvas retornarão. O que cada um está disposto a dar para curar sua terra e salvar seu povo?
Foi armada uma fogueira. O guerreiro não entregou seu arco. Nem o velho, seu manto. Nem a mulher, seus mocassins. O sol se pôs. Nenhuma oferenda surgiu.
Ela Que Está Só se perguntou o que ela, uma menina, poderia fazer? O que poderia dar? Então, olhou para a boneca e soube o que deveria fazer.
Saiu para a noite solene segurando a boneca, aproximou-se da fogueira. Puxou um graveto em brasa para iluminar seu caminho. Escalou a rocha sagrada. Andou muito. Um milhão de estrelas indicavam-lhe o caminho. No alto da colina, juntou gravetos e avivou uma chama.
A menina sentou-se. Com o coração sereno, ficou à escuta. Escutou a poesia da lua, as histórias das pedras, a música das estrelas. Sozinha no topo do mundo, sentiu que todos os seres estão ligados, formando uma única família. E não se sentiu só.
A menina enterrou o rosto na boneca. Sentiu o perfume de sua mãe. Pensou no seu povo que tinha cuidado dela e que agora sofria tanto. Ela Que Está Só olhou para cima.
Sua garganta doía. Estendeu os braços e depositou a boneca nas chamas. Viu sua boneca transformar-se em brasa. Viu a fumaça subir em espiral. Pegou um punhado de cinza e espalhou aos Quatro Ventos. Adormeceu exausta.
A primeira luz a despertou. Esfregou os olhos, olhou para baixo. Flores azuis e brilhantes como borboletas estendiam-se por todos os lados. A aldeia inteira subiu e se juntou a Ela Que Está Só para apreciar o milagre. Trovão. Uma gota de chuva. Trovão. Mais uma. O céu se abriu e deixou cair as águas.
Assim voltaram as chuvas, bênção tranquila, e a terra começou a se recuperar. Realizou-se uma grande cerimônia. Ela Que Está Só recebeu um novo nome. Foi o Ancião que o anunciou. A menina passaria a se chamar Ela Que Amou Seu Povo.
Sempre que surge a lua da primavera, o Grande Espírito se lembra da oferenda da menina e enche de flores as colinas e os vales. São flores azuis e brilhantes, como as asas das borboletas.
Conto “Ela que Está Só”, publicado no livro Contos da Natureza, de Dawn Casey, Editora Martins Fontes. Adaptação de Ana Gibson e Juliana Franklin da história
Ilustração: Anne Wilson