19/02/2019
Olá, há tempos não conversamos não é mesmo? A última crítica realizada aqui foi de "Estação do Diabo", durante o INDIE Festival 2018, no já distante setembro passado. Desde lá muita coisa aconteceu, pode parecer exagero, mas os últimos meses mexeram com todos nós de uma forma intensa, parece que adentramos num mar tempestuoso e que dificilmente se acalmará.
Mas, devida as proporções, cá estamos, tentando nos organizar e seguir, por isso me soa contraditório, em tão delicado momento, o anúncio do desfecho das atividades da Revista Spiral Online; chamo de desfecho e não de fim, por me parecer mais digno em relação à trajetória de sete anos da Spiral, tal como se o ciclo se fechasse, mas com um devido propósito, que é o deslumbre de um novo caminho a seguir.
Nos últimos tempos me questionava cada vez mais sobre o mercado que, involuntariamente, alguns pequenos portais se enquadravam. Mercado de consumo que resume obras cinematográficas em notas, muitas vezes com a intenção de separar o suposto joio do trigo e assim, criar um guia para um público (cinéfilo) que busca, a cada semana de estreia, a nova obra-prima do momento. Obviamente que não jogarei meus desapontamentos no público casual, já que: 1) o consumo acrítico é só um reflexo dos engessados produtores de conteúdo; 2) e sim, o ir ao cinema é caro e a distribuição de filmes cada vez mais coloca o espectador aonde eles acham que eles deveriam estar, fortalecendo uma cultura sócio-cultural de exclusão, ilhando intelectualmente a população dos lugares mais afastados dos centros das grandes cidades; salvo projetos como a SPcine, que ainda precisa aprender a subestimar menos a periferia e claro, a Sessão Vitrine Petrobras, que conseguiu espaço para inserir ótimos filmes nacionais em dezenas de salas espalhadas pelo Brasil a preços populares. É através da Sessão Vitrine Petrobras (na qual vê seu fim se aproximar após o anúncio de que o contrato com a Petrobras não se renovará, devido a "outras prioridades além da cultura" que o governo federal atual possui), que o cinema de guerrilha e inventivo brasileiro ganha seu devido lugar dentro do concorrido circuito comercial, convidando o público a participar de pré-estreias e debates.
Pensando nisso, o cenário soa desanimador, pois a fera do mercado engole tudo, até mesma a nossa emancipação quanto cinema brasileiro, que se dava a passos curtos e vagarosos. O que nos restava, quanto veículo, é criar um contraponto, evidenciando obras que ficam à margem. Porém, encontramos uma dificuldade em dialogar até mesmo com um público cativo da sétima arte. E aqui entra, com mais ferocidade, a minha antipatia a onda cinéfila que se instaurou na internet. Oras, abandonamos a paixão, o olhar crítico e a troca, por uma massiva mania de assistir ao máximo de filmes possível! A cinefilia considera saudável assistir 900 filmes por ano, colocando o cinema num lugar que me soa estranho. Vendo como as coisas se dão, parece que a sétima arte basta por si só, que é um instrumento que se encerra em sua discussão quanto objeto, e ainda há quem separe o cinema da arte. Mas que cinema é esse que parece que auto surgiu espontâneo e isolado? Estamos repetindo, talvez sem perceber, a lógica do mercado que a tudo subverte. Entrando na roda do consumo puro e achando, o que é pior, que tudo se dá de forma erudita.
Talvez eu possua uma visão utópica e realmente romântica da crítica, afinal 7 anos de Revista Spiral não são suficientes para me fazer criar visões mais materialistas do meu entorno. O que me pesa o peito é a angústia de que, invariavelmente, todos caminhamos para um mesmo lugar, críticos e público, caminhamos rumo a homogeneização do olhar, enlaçado pelo capital.
Exposto aqui as contradições, volto a reforçá-las, não possuo, no momento, energia para trilhar esse caminho. Portanto, sinto que o ciclo da Revista Spiral Online se encerra aqui. Pode parecer pouca coisa para alguns leitores, mas é um passo tanto quanto arriscado de minha parte, já que não desejo permanecer nesse lugar comum que muito me incomoda. Sinto que a necessidade de um hiato, onde possa buscar alternativas concretas para enfrentar tais dilemas, seja indispensável.
Mas também não quero deixar a impressão de que esse anos de entrega na Spiral foram desperdiçados ou aborrecidos. Tenho pra mim a certeza de que foram anos de aprendizado, anos de utopia juvenil, anos de intensas descobertas e anos de eternos recomeços do saber. E, por fim, falando em recomeços, pego emprestado esse infindável recomeço do cinema brasileiro, como dizem, e parto em um novo recomeço, que se revelará em outros ciclos e desfechos.
- Thiago Costa, editor da Revista Spiral Online.