05/01/2023
· O PEITO ALHEIO ·
"Uma mãe senta para amamentar sua filha em um banco desconfortável, em frente à farmácia de um shopping que não tem espaço adequado para amamentação. Discreta, levanta a blusa, e a bebê mama feliz. As duas olham nos olhos uma da outra. Estão felizes, é bonito de ver. Uma desconhecida se aproxima, senta ao lado e começa a conversar com a mãe, que está exausta e com o sono atrasado desde o ano passado.
- Que bebê lindo, como é o nome dele?
- É uma menina. O nome dela é Maria.
- Menina? E cadê o brinco? Tem que colocar brinco nela, mãezinha!
- É lei? Não sabia.
- É pra ela ficar mais bonita.
- Ela já é linda, não precisa de brinco agora, não.
- E qual a idade dela?
- Um ano.
- E ainda mama?
- Graças a Deus.
- E ainda sai leite?
- Não, sai guaraná – responde baixinho.
- Como?
- Sai leite sim, senhora. Muito leite.
- Mas não presta mais pra nada, depois dos seis meses vira água.
A mãe pensa em explicar que o leite nunca perde o valor nutricional, que a Organização Mundial de Saúde indica a amamentação até dois anos ou mais, pensa em falar de todos os benefícios comprovados pela medicina, mas está cansada demais pra isso. Apenas faz silêncio e decide voltar a olhar para a Maria, esperando que a mulher vá embora. Não funciona, ela continua lá. E agora decidiu falar direto com a criança, fazendo vozinha de bebê:
- Você não tem vergonha não, Maria? Desse tamanho mamando?
- Por que ela deveria ter vergonha, senhora? O que tem de errado?
- É feio, mãezinha, chupando o peito da mãe grande desse jeito. Isso aí não presta pra nada mais não, a bichinha tem que tomar é mingau. Eu tenho experiência, minha filha. Criei quatro, nenhum mamou, são todos saudáveis, graças a Deus.
- Foi fácil criar seus filhos, senhora?
- Que nada, foi uma luta. Só Deus sabe o que eu passei.
- A senhora fez o melhor que pode, não foi?
- Fiz o melhor que pude e o que não pude. Eu dei minha vida por eles.
- Eu também estou fazendo o melhor que eu posso, senhora. Só que o meu jeito é diferente do seu.
- Eu só quis ajudar, minha filha. Não precisa se ofender.
A mãe arrumou a roupa, pegou Maria, levantou e saiu, chorando de revolta e cansaço. Estava exausta de ter de explicar o valor do leite materno, de falar da OMS, de se defender tantas vezes. O peito alheio incomoda, perturba, e toda mãe que amamenta já sofreu olhares de reprovação e perguntas desnecessárias. Criticar uma mulher enquanto o bebê mama é uma forma de violência.
A balconista da farmácia, que assistiu à cena toda, correu atrás da mãe e ofereceu uma garrafinha de água. Segurou a bebê nos braços, brincou, cantou e fez Maria soltar gargalhadas, mostrando a graça dos dentinhos miúdos. A mãe terminou de beber a água, respirou fundo, pegou Maria-sorriso de volta, agradeceu comovida e saiu. De alma leve.®
A balconista da farmácia também queria ajudar. A diferença é que ela conseguiu." 💜
Texto de Socorro Aciolli ✅
Fotografia de Melina Nastazia ✅