Todos os acadêmicos são incentivados a postar suas atividades e obras aqui. Academia de Cultura de Curitiba – “ACCUR”
Inauguração – 15 / 08 / 1992
Um Sonho Alcandorado
Como Martim Luther King, eu também tive o meu sonho alcandorado. Sonhei, e acordei deslumbrado pela mirífica visão de que, um dia, o atual Modelo de Desenvolvimento, com marcantes características materialistas, pudesse ser substi
tuído por um Modelo Humanístico de Desenvolvimento, completamente centrado no ser humano integral, onde a parte material fosse regida pela sua natureza espiritual. Esse Modelo Humanístico de Desenvolvimento teria as seguintes características principais:
a) – adotar o “crescimento econômico como um “meio” para “criar pessoas melhores, vivendo vidas melhores, em um Mundo melhor”, e não como um “fim” em si mesmo, como acontece agora;
b) promover de algum modo, uma justa distribuição da riqueza gerada, concomitantemente ao processo do crescimento economico;
c) incentivar o estudo e aplicação de “fontes renováveis” de energia, para desacelerar o ritmo de esgotamento das fontes não renováveis;
d) suprimir processos de agressão e degeneração do meio ambiente;
e) abolir a fabricação de produtos agrícolas ou industriais, nocivos à saúde, à segurança e ao bem-estar dos seres humanos, tais como agrotóxicos, dr**as, armas etc. f) eliminar dos meios de comunicação a difusão de condutas anti-familiares e anti-sociais, normalmente assimiladas inconscientemente pelas crianças inocentes, pelos jovens ingênuos e pela população de baixo nível cultural;
g) adotar estruturas organizacionais adaptadas ao dinamismo da evolução tecnológica e científica, em substituição às estruturas obsoletas, paquidérmicas ou esclerosadas”. Eis aí, em síntese, o meu aurifulgente sonho de um Mundo melhor, para melhores pessoas, vivendo vidas melhores. Um Manancial Inesgotável
Em qualquer comunidade do Mundo, mas com intensidade bem maior naquelas situadas nas nações em desenvolvimento, há um imensurável potencial de realizações de sentido humano e social, representado pela incalculável soma de experiências e conhecimentos de cidadãos ou cidadãs aposentados, ou com tempo disponível. Esse incomensurável potencial de energia anímica é, geralmente, bem maior do que aquele representado por usinas de energia elétrica ou atômica e, no entanto, jaz ocioso, esquecido ou marginalizado, em qualquer comunidade de seres humanos. Muita carência humana e social, muita angústia e muita dor, muito sofrimento e muita morte, poderiam ser evitados, minimizados ou eliminados, se esse fabuloso potencial pudesse ser reativado e estimulado, em pról das necessidades humanas e comunitárias mais prementes. Mas, ao contrário, muitas dessas pessoas, com um passado exemplar e um incomparável acervo de brilhantes realizações, sentem-se marginalizadas pela Sociedade e até pela família, vivendo solitariamente, em meio a uma multidão insensível e imediatista. Na maioria das vezes bastaria que alguém ou alguma instituição, pudesse propiciar a união dessas pessoas, de modo que suas experiências e conhecimentos se complementassem e enriquecessem mutuamente, constituindo uma inesgotável fonte geradora da mais fantástica e criativa energia mental, intelectual e espiritual. Esse sentimento de isolamento e inutilidade, é fonte de incontáveis desajustes e males físicos, emocionais e psíquicos. Assim, portanto, a união, o congraçamento, a solidariedade mútua, de tantas e tão destacadas pessoas, produzirá os resultados mais surpreendentes, a saber:
a) a recuperação da plena saúde física, mental ou psíquica, pela reconquista de um sentimento de auto-estima e de utilidade social;
b) o renascimento do seu ideal de um contínuo e ilimitado desenvolvimento mental, intelectual e espiritual;
c) o reavivamento do inato desejo, existente nas pessoas bem formadas, de ajudar o próximo e a comunidade a que pertencem. Dessas considerações surgiu então o ardoroso ideal de, um dia, poder contribuir decisivamente para a fundação de uma instituição apta a propiciar esses maravilhosos benefícios ao Ser Humano e à Sociedade a que pertence. Duas Visitas Inesquecíveis
Após o encerramento do III Congresso Internacional das Misericórdias, realizado em Fátima, Portugal, no período de 25 a 27 de Outubro de 1990, precisamente no dia 29, tive o privilégio de realizar duas inesquecíveis visitas em Lisboa, hoje retribuídas com as honrosas presenças dos Senhores Dr. Vitor Melícias, Presidente da União das Misericórdias Portuguesas; Dr. João Afonso Calado da Maia, Vice-Presidente da União das Misericórdias Portuguesas e o Dr. Fernando Caldas e Esposa, Tesoureiro da União das Misericórdias Portuguesas. A eles as nossas reverentes homenagens e a nossa imperecível gratidão. A primeira visita foi à Santa Casa de Misericórdia de Lisboa, a primeira do Mundo, fundada em 15 de Agosto de 1498, oportunidade em que minha esposa e eu passamos inefáveis momentos e onde nos deslumbramos visitando a Igreja de S. Roque e a Capela de São João Baptista, que contêm as mais preciosas relíquias históricas daquela venerável Irmandade. A segunda visita, foi à Academia de Cultura e Cooperação de Lisboa, a convite do seu ilustre Presidente, Carlos Perry da Câmara, que teve a gentileza de nos apanhar na Santa Casa de Lisboa, para levar-nos ao almoço comemorativo do aniversário daquela Academia. Carlos Perry da Câmara, não podendo estar presente a esta inauguração, por ter de ir à Roma com seus familiares, enviou-nos um “fax” desculpando-se, fazendo votos de pleno êxito à novel Academia e oferecendo-se para confeccionar o seu emblema lá em Lisboa, o que aceitamos prazerosamente. O emblema, que está em estudos, é a imagem estilizada da escultura “Le Penseur”, de Rodin, com a divisa “Penso, logo existo”, de autoria de René Descartes. A Academia de Cultura e Cooperação de Lisboa, tutelada pela União das Misericórdias Portuguesas, mas com administração autônoma, contava com cerca de 500 (quinhentos) associados, das mais diversas vocações culturais, tais como: Literatura, Artes Plásticas, Arte Decorativa, Arte Musical, Línguas (Português, Francês, Inglês, Alemão, Italiano), História, Numismática, Oratória, e muitas outras mais. As características fundamentais dessa Academia logo tiveram o condão de reavivar a chama do sonho por mim acalentado durante longos anos, incendiando minha imaginação e selando um sagrado compromisso íntimo: o de fundar instituição semelhante em meu País. Pois, suas perspícuas finalidades não se harmonizavam totalmente com os ideais que eu, há tanto tempo, vinha acalentando, de ajudar a tornar realidade um Modelo Humanístico de Desenvolvimento? Eis aquí as suas principais características:
a) Estímulo à inexaurível capacidade humana de desenvolvimento mental, intelectual e espiritual;
b) Permanente intercâmbio de experiências e conhecimentos profissionais, intelectuais e espirituais, em todos os campos das atividades humanas;
c) Solidariedade mútua e auxílio à solução dos problemas humanos e comunitários. Durante o almoço de aniversário daquela Academia, fui convidado a pronunciar algumas palavras e assim o fiz, dizendo:
“Com inexcedível honra e, ao mesmo tempo autêntica humildade, aqui estamos a convite do Presidente Carlos Perry da Câmara, representando a Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, a Federação das Misericórdias e Hospitais Filantrópicos do Estado do Paraná e a Confederação das Misericórdias do Brasil. Nossa emoção é incontrolável e de múltipla natureza, porque trazemos em nosso imo perene gratidão à destemida Nação Portuguesa, pela nossa descoberta, por boa parte da nossa História e das nossas tradições e, ainda, por ter sido ela o berço dos nossos venerados ancestrais. E eu, particularmente, trago em meu coração mais um motivo de incontida gratidão, qual seja a de ter sido agraciado pelo Governo Português, em 04/05/1968, com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, o gênio fundador da Escola de Sagres, que dali arremessou os imortais navegadores portugueses a desbravar as fantásticas rotas marítimas dos séculos XV e XVI, do que resultou o extraordinário alargamento dos domínios da Corôa Portuguesa, na Ásia, na África e na América, culminando com a Descoberta do Brasil e, além de tudo, ainda propiciou a difusão da semente generosa das Misericórdias, nos quatro cantos do Mundo. Esse fervente cadinho de sublimes sentimentos dominou-me quando, visitando o Mosteiro da Batalha (Aljubarrota-1855), além das suas maravilhas arquitetônicas e artísticas, conheci o jazigo onde repousam os restos mortais de D. João I e
D. Felipa de Lencastre, pais do Infante D. Nesse momento lembrei, em toda a sua magnificência, a obra do Infante D. Henrique, criador da Escola de Sagres, e senti em todo o seu esplendor, o significado do seu genial lema: “Talent De Bienfaire”.
“Talento de bem-fazer”, o qual anima a todos nós das Misericórdias, e o que me dá renovadas energias, ao pensar, com imperecível gratidão que, vós portugueses, tenhais encontrado uma pequena parcela de identidade entre este vosso humilde servo e o gênio de Sagres, ao me escolherdes, naquela oportunidade, para receber tão enobrecedora Comenda”. A Mão da Providência
Assim, a bruxoleante faísca daquele sonho, então alimentado pelo exemplo da Academia de Cultura e Cooperação de Lisboa, transformou-se nas labaredas de um ardente ideal. Mais tarde, no ano seguinte, aqui no Brasil, aconteceu algo surpreendente, miraculoso, mirífico. Eis que os ilustres Sócios da “AQUIDABAN SOCIEDADE CULTURAL”, que decidiram extinguí-la, após 68 (sessenta e oito anos) de profícuo e fecundo labor cultural, num gesto soberbo e altruístico, resolveram doar a sua sede à Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba. E foi assim que, pela direcção da Aquidaban Sociedade Cultural, em 06.11.91, na mesma Assembleia Geral Extraordinária da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia que criou a ACADEMIA DE CULTURA DE CURITIBA, procedeu-se a entrega da Escritura Pública de doação da sua Sede, conforme Ata da sua Assembleia Geral Extraordinária de 10.07.91. Com o mais profundo respeito e sentimento de gratidão enuncio alguns proeminentes nomes desses benfeitores, aqui presentes: Sr. Angelo Palhares;
Dr. Niel Pereira Tourinho; Dr. Dirceu Werneck de Capistrano; Sr. Pedro Dante Violani; Dr. lvo Saldanha Faria; Dr. Árimo Regatieri; Sr. João Zenon de Ferreira Bandeira e tantos outros que colaboraram na efetivação da entrega do Patrimonio à Sesquicentenária Santa Casa de Curitiba. Já não havia mais dúvida: a Mão da Providência manifestara-se magnanimamente, através do coração bem formado e do espírito elevado dos Sócios daquela tradicional e querida Sociedade Cultural. Para manter essas nobres tradições, honrar a confiança em nós depositada e, materializar nossa perene gratidão, só havia um caminho: criar e sediar alí a ACADEMIA DE CULTURA DE CURITIBA. Mas então era isso o que acontecera? O Senhor, que nos levou à Academia de Cultura e Cooperação de Lisboa, propiciou-nos igualmente todas as condições para fundarmos a Academia de Cultura de Curitiba? Nesse momento, de uma rara beleza mística, minha mente iluminou-se e eu compreendi toda a verdade:
“Deus jamais nos dá um belo sonho, sem nos dar também os meios de realizá-lo plenamente”. Ivo Arzua Pereira
Discurso por ocasião da Fundação da ACCUR